Onde pára o riso?
"Eu não quero mais mentir /Usar espinhos que só trazem dor /Eu não enxergo mais o inferno/Que me atraiu /Dos cegos do castelo me despeço e vou /A pé até encontrar /Um caminho /O lugar /Pro que eu sou /
Eu não quero mais dormir /De olhos abertos me esquenta o sol /Eu não espero que um revólver venha explodir /Na minha testa se anunciou
A pé a fé devagar /Foge o destino do azar que restou..." Titãs (Os cegos do castelo)
Molhar os pés em água fria é bom.
Ler um bom livro também.
Ovos moles.
Ouvir música, dançar.
“São as pequenas coisas que se ama que nos fazem felizes”
“Aproveita”
“Aproveita”
“Aproveita cada segundo da tua vida”
Disseram-me.
Eu tentei.
Mas a solidão ainda assim abate-se sobre mim.
O que é que eu posso aproveitar se nada puder partilhar.
E no entanto,
A minha vida não é apenas minha.
É cada vez menos minha.
Sentimo-nos sós quando nos cortam o cordão umbilical,
Quando deixamos de mamar,
Quando largamos as mãos,
Quando acabamos de fazer amor e não nos olham de frente,
Quando deixamos de ser ouvidos.
Eu abdicaria dos meus queridos defeitos para poder reaver o riso, perdido algures num tempo antes de mim, de quem ri por complemento a outro riso. O riso do calor.
E no entanto, tropeço e enleio-me numa teia de insegurança, obstinações, preconceitos, outras prioridades, recalcamentos, apatias e dor.