terça-feira, outubro 23, 2007
domingo, novembro 19, 2006
ARTE DE TRANSFORMAR XLIII
A propósito da "impossibilidade de se fazer melhor".
A propósito das justificações para a falta de audácia.
A propósito dos insultos à nossa inteligência.
Para todos aqueles que que se limitam ao medíocre e para os que nada fazem esperando perfeição.
Saúde aos que tornam o impossível uma realidade.
Que se multipliquem os que questionam, os vigilantes, os que não têm preconceitos.
TEMPOS DIFÍCEIS
A árvore explica porque é que não deu frutos.
O poeta explica porque são maus os seus versos.
O general explica porque se perdeu a guerra.
Quadros pintados sobre telas efémeras.
Relatórios de expedição confiados a quem os esquece.
Gestos bonitos, que ninguém aprecia.
Deverá o vaso com mossas servir de vaso de noite?
Deverá a tragicomédia transformar-se em farsa?
Deverá ir para a cozinha a amada já usada?
Louvados os que fogem das casas em ruínas.
Louvados sejam os que trancam a porta ao amigo em desgraça.
Louvados sejam os que esquecem o plano irrealizável.
A casa foi erguida com as pedras disponíveis.
Foi feita a revolução com os revolucionários disponíveis.
Pintado foi o quadro com as cores disponíveis.
Comeu-se do que havia.
Deu-se a quem precisava.
Falou-se com os presentes.
Trabalhou-se com a força, o saber e acoragem de que se dispunha.
O descuido não se perdoa.
Era talvez possível fazer mais...
Pedem-se desculpas.
E daí?
Bertolt Brecht
Publicada por Irene Sá à(s) 4:12 p.m. 0 comentários
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sábado, novembro 19, 2005
Quatro poemas de Brecht a Quatro candidatos
Cavaco Silva
DIFICULDADE DE GOVERNAR
“(…)
3
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer [leia-se Cavaco]
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria a necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4
Ou será que
Governar só é tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?”
Mário Soares
A PROPÓSITO DA NOTÍCIA DA DOENÇA DE UM PODEROSO ESTADISTA
“Se este homem insubstituível franze o sobrolho
dois reinos periclitam
se este homem insubstituível morre
o mundo inteiro se aflige como a mãe sem leite para o filho
se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia
não acharia em todo o império uma vaga de porteiro.”
Manuel Alegre
ALGUMAS PERGUNTAS A UM “HOMEM BOM”
“Bom, mas para quê?
Sim, não és venal, mas o raio
Que sobre a casa cai também
Não é venal.
Nunca renegas o que disseste.
Mas que disseste?
És de boa fé, dás a tua opinião.
Que opinião?
Tens coragem.
Contra quem?
És cheio de sabedoria.
Para quem?
Não olhas aos teus interesses.
Aos de quem olhas?
És um bom amigo.
Sê-lo-ás do bom povo?
Escuta pois: nós sabemos
Que és nosso inimigo
(…)”
Jerónimo de Sousa
TOMA O TEU LUGAR NA MESA
“Toma o teu lugar na mesa, foste tu que a puseste.
(…)
Hoje ao meio dia em ponto
Começa a idade de ouro.
Nós vamos inaugurá-la por sabermos que
Estais fartos de construir casas que jamais habitais. Queremos crer
Que doravante ireis comer o pão que cozestes.
(…)
Adiar mais a idade de ouro?
Nós não somos eternos.”
Publicada por Irene Sá à(s) 1:14 a.m. 0 comentários
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terça-feira, maio 10, 2005
ARTE DE TRANSFORMAR XXXII
A propósito dos 60 anos da derrota do nazi-fascismo
Poemas relacionados com "O Manual de Guerra Alemão"
*
Muitas coisas aumentarão com a guerra
aumentarão
As posses dos poderosos
E a pobreza dos que nada têm
O discurso dos governantes
E o silêncio dos governados.
*
Se se dividirem as terras dos Junkers
Não há necessidade nenhuma de conquistar as terras dos camponeses da Ucrânia.
Se se conquistarem as terras dos camponeses da Ucrânia
Mais terras terão os Junkers.
*
Os que estavam em guerra contra o próprio povo
Fazem agora a guerra aos outros povos
Aos antigos escravos
Outros devem juntar-se.
*
Sob as árvores da aldeia as raparigas
Escolhem os namorados
A morte
Também escolhe
É possível
Que nem as árvores sobrevivam.
*
Noite.
Os casais
Vão para a cama. As jovens
Mulheres parirão órfãos.
*
Os que vão envelhecendo vão
Depositar dinheiro nas caixas económicas.
Diante delas carros estacionam:
Vão buscar o dinheiro
Para as fábricas de material de guerra.
*
Para que conquistar mercados para as novas mercadorias
Que os operários fabricam?
Os operários
De bom grado ficariam com elas.
*
O Führer dir-vos-á: a guerra
É para quatro semanas - no Outono
já estareis de volta. Mas
O outono virá e passará
E denovo há-de vir e muitas vezes há-de passar
Sem que de volta estejais.
O pintor dir-vos-á: as máquinas
Encarregar-se-ão de tudo - muito poucos
Serão os mortos. Mas
Vós morrereis às centenas de milhares, tantos
Que em tempo algum, ou terra alguma, se viu morrer assim.
Quando eu ouvir dizer que estais no Cabo Norte
Ou na Índia, ou no Transval, saberei apenas
Em que lugar poderão um dia
ser encontrados os vossos túmulos.
Bertolt Brecht
Publicada por Irene Sá à(s) 12:59 a.m. 2 comentários
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domingo, novembro 28, 2004
Viva o PCP!
Elogio do Trabalho Clandestino
É bonito
Usar da palavra na luta de classes
Clamar alto e bom som pela luta das massas
Pisar os opressores libertar os oprimidos.
Árdua e útil é a pequena tarefa de cada dia
Que secreta e tenaz tece
A rede do partido sob
Os fuzis apontados dos capitalistas:
Falar mas
Escondendo o orador.
Vencer mas escondendo o vencedor.
Morrer mas
Dissimulando a morte.
Pela glória, quem não faria grandes coisas?
Mas quem as faz pelo olvido?
No entanto, o pobre que mal come senta a honra à sua mesa;
Das pequenas cabanas em ruínas
Surge a grandeza irresistível.
E a glória busca em vão Os autores do grande feito.
Saí da sombra
Por um momento
Rostos anónimos, dissimulados, e aceitai
O nosso agradecimento.
Publicada por Irene Sá à(s) 2:12 p.m. 0 comentários
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