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terça-feira, maio 22, 2007

As incompreensões/compreensões sobre a arte

Do figurativo ao abstracto.
Do abstracto ao figurativo.
Análise e síntese.
Síntese e nova análise.
"Cumprimentamos o homem valente
que se lançou no abismo
a fim de ressuscitar entre os mortos
sob uma forma nova (...)
6, 5, 4, 3, 2, 1, até 0,
no outro extremo uma linha nova
0, 1, 2, 3, 4, 5, ..."
Das caras com rosto
aos rostos sem cara.
Todo o trabalho feito em condições de liberdade é criativo
dizia Marx
por isso, se formos livres nas ideias,
somos/seremos capazes de inventar e inventar e inventar...
Capazes de interpretar e interpretar e interpretar...
Capazes de criar e criar e criar...
E de construir e construir e construir...
...
Já aí vem a cavalaria vermelha


terça-feira, março 13, 2007







Mona Lisa é fixe!

quinta-feira, janeiro 05, 2006


A minha alma está em êxtase. Anseio o dia 17 de Fevereiro como a noiva que aguarda o casamento. A razão? Frida em Lisboa.
A Marta disse-me por volta das 17h30 e desde então não voltei a ser a mesma.

17 de Fevereiro a 14 de Maio 2006
de Terça-feira a Domingo, das 10h às 19h
Grande Hall do Centro de Exposições do CCB

"51 anos após a sua morte, Frida Kahlo (1907-1954) continua a exercer um enorme fascínio pela sua arte controversa, os seus amores difíceis e o seu sofrimento físico. Depois da Tate Modern de Londres e da Fundación Caixa Galicia, em Santiago de Compostela, é a vez de Lisboa receber a maior e mais completa exposição sobre Frida Kahlo realizada nas últimas décadas, com obras provenientes do Museu Dolores Olmedo, no México a colecção mais importante que existe no mundo sobre a genial artista mexicana.
Entre 1926, quando pintou o seu primeiro auto-retrato, e a sua morte em 1954, Kahlo produziu cerca de 200 imagens. A sua relação com o muralista Diego Rivera, com quem casou, constituiu o lançamento inicial da sua carreira, que no entanto se consolida pela sua força e qualidade."

Claro que se vão esquecer de sublinhar a militância política. Vão referir ao de leve que era comunista. Frisarão que foi amante de Trotski e não dirão que morreu stalinista. Talvez mesmo ignorem que foi uma grande defensora dos valores da paz.
Não importa. Depois dos acepipes e atropelos da inauguração da exposição lá estarei eu à porta do CCB, pronta a devorar com os olhos os originais da minha grande camarada. Quem quiser junte-se a mim...

sexta-feira, abril 22, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXX - Rembrandt II

“Betsabé está sentada numa almofada, o rosto inclinado para o chão, a carta do rei David na mão direita [centro da composição]. Ele quer vê-la o mais depressa possível, que vá ter com ele, é uma ordem. Talvez o rei David lhe diga também que a deseja desde que a viu tão bela no banho. Ela leu a carta fatal, o seu olhar está noutro lado. À esquerda, encostada à moldura, curvada sobre os seus pés, a velha criada purifica-a antes do sacrifício. Com os olhos perdidos no futuro, Betsabé não olha para nada.
(…)
O sacrifício de Betsabé ultrapassá-la-á, naquele que ela dará à luz. Digna, a serva judia, purifica-a. Encontraste-a no Hougracht, mesmo em frente da sinagoga. Inclinada para os meus pés já não sorri, é a idade e as costas. Também eu, sem me mexer na pose com o meu ventre pesado, tenho uma dor que me trespassa sob o ombro esquerdo. Viste na minha mão a carta do rei David, linhas escritas sobre um papel branco, e acreditaste no acaso.”
In
Eu, a puta de Rembrandt
Sylvie Matton

“(…) Há algum tempo que ele vive com Hendrickje Stoffels, e essa mulher maravilhosa (tirando os de Titus, só os retratos de Hendrickje estão repletos da própria ternura e do reconhecimento do velho urso sublime) deve satisfazer simultaneamente a sua sensualidade e a sua necessidade de ternura.”
Jean Genet

De entre as várias pinturas que Rembrandt fez representando a sua companheira Hendrickje, destaco três que, aparentemente desligadas, parecem constituir um conjunto particular. O primeiro é o já citado “Susana e os velhos” (1647) – realizado pouco tempo depois de o pintor e a modelo se terem conhecido -, um tema bíblico, o segundo é este “Betsabé com a carta do rei David” (1654), outro tema do antigo testamento, e o terceiro “Hendrickje Banhando-se num Rio” (1654) – estes dois feitos durante a gravidez de Hendrickje - . Os três têm em comum a imagem da mulher no banho que é surpreendida por um homem mais velho. Esse homem é implícita ou explicitamente, o próprio pintor.


Posted by Hello Betsabé com a carta do rei David


terça-feira, abril 19, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXIX - Rembrandt I

Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669)

A primeira vez que vi o nome Rembrandt foi numa caixa de tintas de óleo na Papelaria da Moda, na Rua do Ouro. Fiquei curiosa. Donde vinha aquele nome tão estranho associado a tintas? Procurei numa enciclopédia (aqueles livros de grande utilidade a que, vulgarmente, nos esquecemos de recorrer, como são aliás quase todas as coisas de grande utilidade. Só nos lembramos delas uma vez. Bom, mas dessa vez dei uso à enciclopédia) e lá encontrei Rembrandt van Rijn, pintor holandês do século XVII (que século tão chato!), identificado com o estilo barroco.

Mais tarde, nas aulas de História da Arte da professora Natalina, lá percebi o que era o barroco. Mas a bota não batia com a perdigota. O Barroco era a arte da contra-reforma: um estilo criado como uma grande operação de propaganda da Igreja (os especialistas do marketing hoje não chegariam aos calcanhares dos promotores do barroco). Jogos de luz e sombra, movimento, monumentalidade. O barroco acentuou o carácter espectacular das igrejas (era preciso fascinar os fiéis): superfícies côncavas e convexas, e volume, cor, brilho, pontos de luz estrategicamente colocados. Tudo com o propósito de subjugar. O aspecto mais dramático do barroco é o urbanismo (sobretudo o do absolutismo). Grandes praças feitas para serem olhadas, eventualmente atravessadas, mas nunca ao serviço das pessoas (a praça como local de encontro desaparecia).

Rembrandt não cabia nesse barroco desumano, de ilusão, de espectáculo. Era a fuga ao estilo, dentro do estilo.

A princípio achava que era um pintor soturno. Muito triste. Pinturas escuras, sem cor, pessoas demasiado reais. Não era, definitivamente, um pintor para uma adolescente imatura e algo pretenciosa como eu era. Só na faculdade voltei a estudar Rembrandt, desta vez com a professora Margarida Calado. Revelou-se então um desses homens que são intemporais porque o seu tempo ainda não chegou (serão o homem novo?), um homem que abraça a dor de todos os homens, que não precisa de regras porque tem princípios, que não se verga, que não se vende. Sem preconceitos e uma grande sede de conhecimento. E não foi um pintor no seio das revoluções sociais e políticas dos séculos XIX e XX, ou da “revolução” sexual, não. Rembrandt viveu a guerra dos 30 anos e a peste negra, num período de moralismo e superstição. Não é coisa pouca.

Ao longo da vida perdeu a alegria e ganhou doçura e sapiência.

A pintura é como o rosto das pessoas, se os conhecermos e olharmos com atenção, dizem tudo. A pintura de Rembrandt é, paradoxalmente, escura, mas translúcida, clara, evidente. Só diz a verdade.

A verdade de Rembrandt e da sua pintura saiu cara. Mas valeu a pena.


Susana e os velhos Posted by Hello

Jorge (PSI20), a pintura mais conhecida é, efectivamente, “A ronda da noite” (querias testar-me, grande safado!), mas eu, como te disse, gosto mais da “Susana e os velhos”.

Voltarei a falar dele, certamente. Talvez amanhã. Agora estou com sono.

domingo, fevereiro 27, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXIII

Posted by Hello

Homenagens a José Afonso

Apesar de ir com alguns dias de atraso, fica aqui a minha HOMENAGEM àquele que considero o maior génio da música portuguesa.

Este é um texto apenas sobre as HOMENAGENS póstumas que lhe foram feitas. Não quis fazer mais uma biografia, a minha ideia é apenas mostrar que o esquecimento do Zeca faz parte do pacote de branqueamento do 25 de Abril. E pretendo mostrá-lo lembrando algumas das muitíssimas HOMENAGENS que foram feitas nos dois anos que se seguiram ao seu desaparecimento. Cito também algumas mais recentes (poucas, muito poucas).

Em 1982 foi-lhe diagnosticada uma esclerose lateral amiotrópica

As despesas com a saúde eram avultadíssimas. O Estado não soube ou não quis apoiar o cantor (os governos PS, CDS e PSD, alvos das suas críticas, não tiveram, provavelmente, a coragem de olhá-lo como um precioso artista. A recusa da Ordem da Liberdade também o deixou em “maus lençóis” com a presidência).

Morreu a 23 de Fevereiro de 1987. O seu caixão, a seu pedido, foi coberto de uma bandeira vermelha sem qualquer insígnia.


O seu funeral realizado em Setúbal em 24 Fevereiro de 1987, contou com a presença de dezenas de milhar de pessoas. A sua morte foi profundamente sentida e toda a imprensa a noticiou. Alguns depoimentos são demonstrativos do sentimento de perda e reconhecimento que se instalou:
-
Amália Rodrigues – “Acho que se perdeu um grande poeta e um grande autor da música popular portuguesa”;
-
Bernardo Santareno – “A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula”;
-
Camilo Mortágua – “Portugal é o Zeca. Não a pessoa do Zeca mas todo o mundo que ele representa”;
-
Carlos do Carmo – “O Zeca é uma pessoa para continuar a ser vivida”;
-
Carlos Paredes – “Uma figura universal”;
-
Fausto – “Ele é, para mim, a grande referência, quer como compositor e cantor, quer quanto a comportamento e atitudes”;
-
Isabel do Carmo – “Ele era os olhos do país”;
-
Janita Salomé – “Com a morte do Zeca perdi um bocado de mim próprio”;
-
José Cardoso Pires – “Vamos continuar a ouvi-lo, para estarmos vivos e prosseguir”;
-
José Jorge Letria – “Uma humildade que chegava a doer de tão autêntica”;
-
José Mário Branco – “O Zeca é um génio da música portuguesa”;
-
Luís Represas – “A vida dele constitui, ela própria um depoimento – o melhor depoimento”;
-
Otelo Saraiva de Carvalho – “Sinto a morte do Zeca como a de um irmão querido”;
-
Rui Pato – “Depois da morte de Adriano Correia de Oliveira e de José Afonso sinto-me órfão”;
-
Sérgio Godinho – “Nem tu sabes o que nos deixaste”.

E um produzido por conveniência: “É uma perda para a cultura portuguesa” disse Mário Soares.

O jornal Sete dedicou, durante cerca de duas semanas, grande parte das suas páginas à figura de José Afonso, entre estas constavam depoimentos de inúmeros leitores e um deles refere-se precisamente ao que disse Mário Soares: “(...) faria o dr. Mário Soares um grande favor se o esquecesse. E esses senhores que nunca lhe ligaram a mínima importância, a não ser para o olharem de revés, agora não podem dar por especial favor uma rua com o seu nome, a um Homem de quem foram todas as ruas. O Zeca nunca teria o pretenciosismo de querer tal coisa porque foi acima de tudo um simples”[1]. No mesmo jornal, a 25 de Fevereiro de 1987, Amália Rodrigues, António Pinto Vargas, A Emi–Valentim de Carvalho, Janita Salomé, Jorge Palma, Pedro Caldeira Cabral, Rádio Macau, Rui Veloso, os Trovante e Vitorino fazem publicar uma página inteira em que consta apenas: “A música portuguesa não vai esquecer José Afonso”.

Outros órgãos de comunicação social fizeram grande cobertura do acontecimento: El País publicou duas páginas a 1 de Março de 1987; a rádio Globo no Rio de Janeiro, dedicou uma boa parte da sua emissão de 23 de Fevereiro a José Afonso, vários protagonistas da música popular brasileira participaram no programa, Nara Leão cantou pelo telefone, integralmente, “Grândola, vila morena”, na Galiza, em vários jornais publicaram-se notas e artigos sobre o assunto.

Também as associações de estudantes quiseram assinalar o lamento pela perda. A Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa foi particularmente dinâmica, logo em Março, numa Reunião Geral de Alunos aprovou uma moção de homenagem, e em Dezembro desse ano, com outras associações promoveu um grande espectáculo na Aula Magna. Mas também a Associação Académica de Coimbra se juntou às manifestações de apreço e disponibilizou para o funeral dois autocarros aos estudantes que quiseram ir a Setúbal. No Diário de Notícias, em 25 de Fevereiro de 1987, criticava-se, no entanto, o esquecimento a que José Afonso ficou votado pela sua academia durante muito tempo. Mais tarde a “república” do “Rás-te-parta”, por onde o cantor também passou, promove-lhe uma singela homenagem, e em 1989, no teatro Gil Vicente em Coimbra a Associação Académica apresentou um espectáculo mais elaborado.

Os estudantes do ensino secundário também demonstraram a sua estima através de iniciativas, foi o caso das Escolas D. Duarte de Coimbra em Fevereiro e da Secundária D. Luísa de Gusmão em Março de 1988.

Por parte das autarquias as homenagens mais importantes fizeram-se nos distritos de Lisboa e Setúbal. No Barreiro, a 25 de Fevereiro, na sessão de Câmara fez-se um minuto de silêncio, atribuiu-se o seu nome a uma rua, fez-se a exigência à rádio e RTP para não o calarem, e fez-se a proposta para que todas as câmaras do distrito editassem um disco[2].

A Câmara Municipal de Sesimbra atribuiu igualmente, em Maio de 1988, o seu nome a uma rua. A Câmara de Loures apoiou a edição de uma fanzine sobre o cantor, a Câmara Municipal do Seixal deu o seu nome a um parque e passou a promover anualmente o festival “Cantigas do Maio” conjuntamente com a Associação José Afonso que, entretanto, se criara (Novembro de 1987). Associação essa que acolheu como sócios muitos dos membros do Círculo Cultural de Setúbal de que José Afonso fizera parte e que também não deixou de o homenagear em 1988. A Câmara Municipal da Amadora, por seu turno, ergueu-lhe uma estátua que se encontra no parque central da cidade e um painel de azulejos alusivo à sua música, criou o prémio José Afonso, que ainda hoje se atribui, e que constitui uma distinção importante no seio dos músicos portugueses. É anualmente entregue no festival de música popular portuguesa que a mesma autarquia promove.

O movimento associativo de base local, nomeadamente associações culturais e colectividades, foram prestando, de algum modo, durante os primeiros dez anos após a sua morte, singelas homenagens um pouco por todo o país ao longo da faixa litoral e nos Açores. Das Beiras interiores (Alta e Baixa) não há registo.

Os sindicatos também celebrizaram José Afonso e é de apontar, em particular, a União dos Sindicatos de Setúbal que, no primeiro aniversário da sua morte, apelou para que os trabalhadores fizessem um minuto de silêncio e fossem depositar flores na sua campa. Na empresa Mague – Setúbal, cujos trabalhadores quiseram seguir o repto, a administração não permitiu que à hora de almoço, no refeitório, se transmitissem músicas de José Afonso e só permitiu o minuto de silêncio às 11h59, i.e., um minuto antes de tocar para o almoço.

No mundo da música, naturalmente, as homenagens foram de maior relevo: Charlie Haden (músico de jazz) e a sua Liberation Music Orchestra, em 1989, tocou “Grândola, vila morena”; em 1994 diversos grupos de música e cantores portugueses gravam o disco Filhos da madrugada, interpretando canções de José Afonso; e no mesmo ano 1994, Amélia Muge, João Afonso e José Mário Branco desenvolveram o projecto musical Maio, maduro Maio, pelo qual foi editado um disco também com interpretações do repertório de José Afonso e uma música original em sua homenagem; entretanto muitos outros músicos adoptariam temas de José Afonso que interpretariam, infelizmente, nem sempre referindo a autoria.

Um outro sector procurou manter viva a memória do cantor foi o dos professores, por via sindical, da Fenprof (em 1987 e 1989) e na formação de professores, como foi o caso da Escola Superior de Educação de Setúbal que o homenageou, em 1988, salientanto o seu papel como professor.

Também nesse sentido, a DREL deu o seu nome a uma escola secundária de Loures.

Finalmente, em 1997 (no 10º aniversário da sua morte), a RTP decidiu recordá-lo passando uma parte do concerto do Coliseu de 1983, durante o Festival da Canção, o que provocou a reacção por parte da Associação José Afonso e da viúva Zélia Afonso que lembraram; a animosidade que o cantor sentia por esse evento, lembrando inclusive a sua participação no Contra-Festival da Canção, o facto de o concerto não ter sido transmitido integralmente e de a viúva ter sido convidada por telefone por uma relações-públicas da empresa.

Em torno dos vinte anos do 25 de Abril desenvolveram-se comemorações em que o seu nome foi frequentemente evocado. Mas o mais importante foi a publicação do livro de José António Salvador, O rosto da Utopia, com o apoio da Associação 25 de Abril e da Câmara Municipal de Lisboa.

Mais recentemente, no âmbito da Expo 98, foi-lhe prestada uma homenagem, sob projecto de Adelino Gomes, “sóbria e discreta através do melhor que Zeca Afonso tem: a sua obra poética”[3], que constava na projecção de poemas do cantor, na parede do Pavilhão do Conhecimento, nos últimos quatro dias do evento. Ainda no âmbito da Exposição Universal foram publicados seis discos de Grandes intérpretes, um tema seu estava incluído, por outro lado, músicos como Isabel Silvestre, Filipa Pais, Sérgio Godinho, Janita Salomé e Amélia Muge que actuaram nos palcos da exposição, fizeram questão de lembrar José Afonso cantando-o.

Na revista do quarto Festival da Música Popular Portuguesa, em 1991, Júlio Pereira escreveu o seguinte:

Sempre que assistíamos a um concerto de música erudita, não importa agora de que tipo, Zeca mostrava-me sempre a verdade. Ele sentia, de facto, e por ficar fascinado perante uma outra música da qual era admirador, uma espécie de sensação de frustração, até de inferioridade, do género: «o que é a minha música ao pé de uma música tão grande?». É evidente que eu não tinha resposta. Qualquer resposta era absurda: «não se podem fazer comparações» ou «o popular e o erudito são uma complementaridade». Absurdas, porque o Zeca sabia muito bem tudo isso. Absurdas sim, porque aquele momento é verdadeiro. Porque o fascínio não passava levianamente pela nossa dimensão. O que a Arte nos provoca é isso mesmo: a noção do nosso exacto tamanho. A música não engana ninguém, muito menos um músico. A música é que não deixa um músico mentir. (...)

Falo-te em abstracto de coisas concretas. Falo-te da melhor escola de música ou de outra coisa qualquer. Falo-te de experiências reais, vividas, comuns a todos nós. (...) Falo ainda de tudo o que nasce, ou do que nasce em nós quando nos encontramos perante um outro músico que admiramos. Nesse preciso momento somos pequenos. (...)

Muitas das coisas da vida estão mesmo ao nosso lado. E acredito que muito boa gente ao longo da sua existência, não se tenha apercebido dessa proximidade. É sempre mais fácil esperar o que já se sabe ser, do que o que não se sabe o que é. Venha da Natureza, venha do ser humano. Venha, ainda, da própria música. E que esperas tu da vida, músico? (...)

Tens aí um gravador? Sabe-se lá como, daquela boca saia uma melodia espantosa! E eu, eterno curioso, levava-a comigo e tentava harmonizá-la. (...) Feliz e contente ia ter com ele mostrar-lhe o resultado. O inesperado era inevitável. O Zeca ouvia... – “Mas não é bem isso...” – “Esta canção é uma história” – “Deverá ter uma atmosfera própria”. – “Estás a ver uma fogueira, com pessoas à volta tendo à roda dos tornezelos uns guizos?” (...)

«Quem canta por conta sua, canta sempre com razão».

Percebes colega músico, a verdade irónica desta frase? Os teu ídolos, aqueles que admiras, aqueles sem os quais não passas, os que te põem os pelinhos do braço eriçados, têm na realidade, razão. Toda. Por isso mesmo, sempre que me tocares por conta tua, se és mesmo músico, acompanhar-te-ei sempre que o desejares. É talvez a única matéria que não precisa de escola para ser aprendida. E é desta matéria que se faz a música.

(...)

E tu, outro músico, que julgas que já ouviste o suficiente, quando tocares Zeca, não vás pela facilidade. Deixa-me sentir o Zeca quando tocas. Não o subestimes com esse ritmo «chapa 5», ou essa harmonia complexada cheia de 13ª monopolizando o arranjo. Essa música é uma história. É preciso encontrar a atmosfera própria... Lembraste do que o Zeca dizia?.

Periódicos
Do arquivo da Associação José Afonso, pasta “Homenagens estrangeiras”
- A Nossa Terra, s.d.
-
Jornal de Notícias, s.d.
-
Nossa Terra, 1 de Agosto de 1985
-
Sete Artes, 23 de Agosto de 1985
-
O diário, 24 de Agosto de 1985
-
El País, 27 de Agosto de 1985
-
La voz de Galicia, 28 de Agosto de 1985
-
La voz de Galicia, 29 de Agosto de 1985
-
O jornal, 30 de Agosto de 1985
-
La voz de Galicia, 30 de Agosto de 1985
-
La voz de Galicia, 2 de Setembro de 1985
-
El País, 3 de Setembro de 1985
-
Eligeme. S.d.
-
Sete, 18 de Fevereiro de 1987
-
A Nossa Terra, 26 de Fevereiro de 1987
-
Iñaki Zanata, “La amarga lucidez de José Afonso”, Diario Vasco, 27 de Fevereiro de 1987
-
Faro de Vigo, 11 de Abril de 1987

Do arquivo da Associação José Afonso, pasta “Homenagens nacionais”
- Boletim Municipal do Barreiro, Abril de 1984
-
Viriato Teles e Joaquim Bizarro, Sete, 2 de Maio de 1984
-
Diário de Notícias, 25 de Fevereiro de 1987
-
Sete, 25 de Fevereiro de 1987
-
Izequiel Lino, “Quando quero chorar não posso”, Boletim Municipal de Sesimbra, Fevereiro de 1987
-
Boletim Municipal do Barreiro, Março de 1987
-
Luísa Campos, Sete, 11 de Março de 1987
-
AAVV (Rádio Imprevisto), Zeca Afonso (fanzine), Maio de 1987
-
Boletim Municipal do Seixal, Julho de 1987
-
Sete, 1 de Dezembro de 1987
-
“Estudantes lembram José Afonso”, Jornal de Letras, 6 de Dezembro de 1987
-
(Cooperativa de Animação Cultural de Alhos Vedros), Zeca dois anos depois”, O Esteiro, s.d.
-
Barcelos Popular, 12 de Fevereiro de 1988
-
José Jorge Letria, “Zeca: rigor e partilha”, Fim-de-Semana, 20 de Fevereiro de 1988
-
“Associação José Afonso – Pela divulgação da obra, contra o esquecimento”, Diário de Lisboa, 23 de Fevereiro de 1988
-
José António Salvador, “José Afonso: ano zero”, 23 de Fevereiro de 1988
-
“«anónimos» cantam a «Grândola»”, Diário de Lisboa, 24 de Feveriro de 1988
-
Correio do Minho, 25 de Fevereiro de 1988
-
Diário de Lisboa, 25 de Fevereiro de 1988
-
“Zeca Afonso proibido no refeitório da Mague-2”, Diário, 25 de Fevereiro de 1988
-
Jorge Martins, Gira Loures, Fevereiro de 1988
-
(Centro de Cultura Libertária – Almada), Antítese, nº8, Fevereiro a Abril de 1988
-
Nuno Gomes dos Santos, “Com jovens como estes «eles» nunca mais comem tudo”, Diário, 12 de Março de 1988
-
Maré Viva, 17 de Março de 1988
-
Boletim Agrícola, s.d. (1988)
-
Boletim Municipal de Sesimbra, Maio de 1988
-
O povo de Guimarães, 18 de Novembro de 1988
-
Diário do Açores, 22 de Fevereiro de 1989
-
“Zeca Afonso dois anos depois”, Maré Viva, 2 de Março de 1989
-
“Homenagem municipal ao cantor da liberdade”, Boletim da Câmara Municipal da Amadora, 8 de Março de 1989
-
“Professores homenageiam Lindley Cintra e Zé Afonso”, O diário, 10 de Maio de 1989
-
“«Grândola», versão Charlie Haden”, Jornal de Letras, 25 de Julho de 1989
-
Boletim Municipal do Seixal, Setembro de 1991
-
José Fontão, Referencial, Julho/Setembro de 1995

Do arquivo da Associação José Afonso, pasta “O rosto da utopia”
- “José Afonso... Inquietação devoradora”, Público, 16 de Julho de 1994
-
“Zeca Afonso voleibolista”, A Bola, 17 de Julho de 1994
-
O Independente, 5 de Agosto de 1994
-
Diário de Notícias, 3 de Abril de 1999
-
Diário de Notícias, 4 de Abril de 1999
-
Diário de Notícias, 1 de Maio de 1999
-
Público, 24 de Maio de 1999
-
Jorge P. Pires, “A canção como arma”, Expresso (Cartaz), 7 de Agosto de 1999

Do arquivo da Associação José Afonso, pasta “Expo’98”
- Diário de Notícias, 6 de Agosto de 1998
-
Maria do Céu Lopes, “Mais amigos para Zeca Afonso”, Público, 27 de Setembro de 1998
-
Diário de Notícias, 15 de Agosto de 1998
-
Diário de Notícias, 25 de Agosto de 1998

Do arquivo da Associação José Afonso, pasta “2002”
-
João Manuel Tavares, “O génio abandonado”, Diário de Notícias, 23 de Fevereiro de 2002

Fontes impressas
Do arquivo da Associação José Afonso, pastas “Homenagens estrangeiras” e “Homenagens nacionais”
- Folheto do Centro Cultural do Altominho, “Homenagem a José Afonso – 25 de Fevereiro de 1985”
-
Carta da Associação Cultural de Vigo, 31 de Agosto de 1985
-
Folheto-postal, “Café Uf – Homenaxe José Afonso”, (Abril 87)
-
Talão-recibo de “Bonoaxuda”, “Enquanto há força – Homenaxe a José Afonso – Galicia, (Maio 87)
-
Folheto do Centro Cultural José Afonso, “«Negra sombra blues», Café Placer, 19 Vigo”, (13 de Julho de 1987)
-
Folheto da Associação Cultural de Vigo, “Xornada adicada ao Zeca Afonso – Audicion, Video, Debate – 23/08/87”
-
Cartaz e folheto da Escola Secundária Gil Eanes – Lagos, “Homenagem a José Afonso”, (Fevereiro de 1988)
-
Folheto, “José Afonso – vida e música – serão na biblioteca da Nazaré – 26/2/88”
-
Folheto da Escola Superior de Educação de Setúbal, “Literatura e língua portuguesa - Folhas de Fevereiro – José Afonso”, (1988)
-
Cartaz e folheto da D.G. da Associação Académica de Coimbra, “Homenagem a José Afonso – Teatro Académico Gil Vicente – 12/2/1989”
-
Carta do Núcleo de S. Miguel da Associação 25 de Abril, Março de 1989
-
Folheto, “Macau - Homenagem a José Afonso – 23 de Fevereiro de 1992”
-
Brochura, “Uma noite recordado José Afonso – Salão nobre da Junta de Freguesia de S. Mamede Infesta – 19 de Fevereiro de 1994”
-
Folheto do Clube Recreativo Barroquense, “16º aniversário – Exposição e colóquio «Recordar José Afonso» -Barrocas, 30/9/1998)
-
Folheto do “Ayuntamiento de Madrid”,“Ciclo musical – «recordando la vida y la obra de José Afonso – una homenaje al cantante português próximo el 25 de Abril”


[1] - Luísa Campos no Sete, 11/3/1987
[2] Boletim Municipal do Barreiro, Fevereiro 87
[3]
Público, 27/9/1998

Será que alguém tem paciência para a minha verborreia intelectual?

O que são homenagens?

A condição humana é, entre outros aspectos, a do dilema ou contradição, da consciência de uma vivência limitada a uma singularidade, isolamento e efemeridade e a ambição à omnisciência e à omnipresença. A nossa racionalidade permite-nos estabelecer laços de comunicação inteligíveis, que alargam o nosso campo de acção, e logo geram a ambição e contribuem para a sua satisfação, mas paradoxalmente é a nossa liberdade individual que nos limita, pois a sua vastidão funciona como engodo ou tentação. A liberdade em si não concede sentido à nossa existência, i.e., não transforma a nossa vida fugaz numa realização plena. São as escolhas que fazemos no uso dessa liberdade que nos asseguram um entendimento lógico do mundo. Deste modo a nossa consciência de ser passa, não pelo nosso “conteúdo” enquanto indivíduos mas, pela noção que temos da nossa própria envolvência, ou seja; do mundo. A gestão da liberdade torna-se assim um exercício de opções. Sabendo que não podemos isoladamente superar a precariedade e a fragilidade da nossa vida, optamos inconscientemente por atribuir à nossa mundivivência os motivos que nos estimulam a razão. Negamos assim, inconscientemente, a nossa existência para nos concebermos, a nós próprios, também inconscientemente, como missionários da nossa ambição.

Ainda que não esteja esclarecido se as restantes espécies animais colocam ou não a sobrevivência da espécie sobre a vida de cada indivíduo, o que parece ser verdade é que os seres humanos no geral, pelo menos na nossa civilização industrial e ocidental, dão bastante mais importância à construção de uma personalidade individual e original do que à identidade colectiva. É contudo impossível sobrevivermos à angústia da consciência do isolamento sem exercermos a nossa liberdade com sentido colectivo, ou seja; só nos superamos a nós próprios colectivamente (o que pode ser entendido como uma forma muito particular de sobrevivência da nossa espécie).

Assim, a nossa identidade individual forma-se por meio de referências. Este processo é, obviamente, cultural. E dentro do cultural ele é, essencialmente, ideológico. Quer isto dizer que estas referências são representações determinadas em função das experiências e das próprias condições de existência, por um lado. E porque essas experiências e condições são comuns a vários indivíduos, e porque temos a absoluta necessidade de nos superarmos colectivamente, as nossas identidades individuais são sempre, por outro lado e em grande medida, expressões de uma identidade colectiva. Símbolos, emblemas e mitos identitários são então referências culturais e ideológicas criadas, fomentadas, adaptadas, por indivíduos que partilham as mesmas vivências.

As homenagens são manifestações de fidelidade identitária, i.e., são provas de admiração ou veneração a que nos obrigamos a cumprir, são cultos ou reverências que ajudam a criar e alimentam estes símbolos, emblemas e mitos. Por definição a homenagem era “promessa de fidelidade que prestava ao suserano o vassalo que recebia o feudo”[1]e também “o lugar assinalado a um detido para poder andar em liberdade”[2], esta palavra evoluiu depois para menagem, que mais facilmente ligamos ao regime feudal. Por associação, somos vassalos culturais e as nossas referências os suseranos. O nosso espaço de liberdade é o nosso âmbito de criação cultural, previamente definido pelas nossas condições particulares de existência. Somos, enfim, leais, constantes, francos, sinceros e dedicados porque somos orientados a sê-lo. Ao contrário das promessas que fazemos por opção e que nem sempre cumprimos, nesta relação “feudal” estamos obrigados ao preito, ao pagamento de um tributo, ao qual nem sequer podemos querer fugir. E só traímos as nossas referências culturais quando “senhores” mais fortes vencem os nossos suseranos, quando uma “nova ordem” se impõe, aí aculturamo-nos.

As homenagens são ainda relações de dependência que dispensam vínculos legais ou barreiras temporais. Como todas as relações privilegiadas do antigo regime, baseiam-se na palavra e são seculares, legitimam-se pela honra e pelo tempo. Deste modo a nossa promessa de lealdade subsiste para além da nossa existência, dando então sentido à nossa vida: o cumprimento de um imperativo ontológico. Assim herdamos e transmitimos por herança a vassalagem cultural. Colectivamente somos um todo cultural de fronteiras móveis, tão móveis quanto são os seus elementos constitutivos.

Herdamos os homenageados dos nossos homenageados. Ou seja: as referências daqueles a quem prestamos homenagens tornam-se também nossos homenageados, i.e. nossas referências. Em suma, quando hoje fazemos uma homenagem estamos a dar corpo visível à nossa orientação cultural e ideológica, estamo-nos a afirmar e ao nosso património cultural, pois o objecto da nossa homenagem não se define a si próprio, é também fruto do seu contexto. Deste modo as nossas homenagens são manifestações de sedimentação cultural.

Ao venerarmos um símbolo prestamos reverência às suas origens, ao elegermos um herói o nosso tributo é para os seus feitos, ao criarmos um mito cultivamos aquilo que o explica, ao mostrarmos a nossa estima pela vida e a obra de um artista revelamos também fidelidade para com as suas fontes de inspiração e influências.


[1] COSTA e SAMPAIO E MELO, Dicionário da Língua Portuguesa, 1976, p. 766
[2]
Ibd.


quarta-feira, fevereiro 02, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXI - Ainda a república

Liberdade Guiando o povo Posted by Hello


Iconografia da república ou as mamas de Mariana

Sobre o barrete frígio pouco há a dizer; ele é o mais frequente ícone da república, é um símbolo que teve origem na antiga Roma, identificando os escravos libertos por aforria. Costumava aparecer nas representações da liberdade. Teria surgido originalmente numa moeda cunhada em Roma, com o dístico Republica Liberata e foi depois amplamente difundido com a Revolução Francesa.
Do mesmo modo também os seios se tornaram atributos da república, embora com origem mais recente. João Medina refere que em 1830, depois de uma primeira representação mais idealizada (por alturas da revolução) e de uma segunda mais varonil (do tempo da I República francesa) seguiu-se uma terceira, nascida nas barricadas, e celebrizada por Delacroix no famoso quadro “Liberdade guiando o povo” (acima), que
“passou a ser, de modo inequívoco e acentuado uma mulher com seios: seios planturosos, vigorosos, seios ostensivos geralmente nus ou amplamente decotados de maneira a serem generosamente oferecidos aos olhos e à libido dos seus sequazes-admiradores-fanáticos(...)
Uma vez triunfante com a III República, Mariana sobe aos altares das «mairies» e das perfeituras, é cultuada nos nichos dos templos burocráticos, preside a tribunais e repartições públicas, reina sobre o seu povo: mas é sempre a Mulher dos Seios nus ou, pelo menos opulentos, prometidos, entremostrados ou calmamente derramados do decote onde a feminilidade e as glândulas mamárias se escondem ou recatam. Os seios funcionam doravante como o barrete frígio, definem-na essencialmente: ela é a Mulher com Seios, isto é, a Amante ou a Mãe que se oferece à fome dos seus, a protectora dos esfomeados, a ama dos deserdados, a Virgem-Mãe que, de certo modo, substitui a Virgem Maria nos altares populares. (...) os seios que a República oferece ao povo republicano são, multiplicados por dois, aquele seio maternal que, nos altares a Virgem Mãe dá ao Menino Jesus, ele mesmo símbolo da Humanidade carente, frágil, e necessitada” . Roque Gameiro estaria bem ciente desta representação da república, tanto que mais tarde seria o autor de uma litografia (de 1909 ou 10) [ver imagem do post sobre o 31 de Janeiro de 1891 – Vermelhices VII] em que “o lado «mamalhudo» da república nunca foi escamoteado, antes pelo contrário, exagerou-se o volume mamário a ponto de provocar alguma chacota, a começar pela expressão patriotismo como sinónimo popular de ostentação de seios planturosos” .
João Medina apresenta ainda de um modo esclarecedor, a visão burguesa que Gameiro teria da república:
“na sua configuração seria possível detectar uma certa dualidade da imagem que entre nós representou -, na prática, foi – a revolução portuguesa. A litografia de Roque Gameiro mostra-nos, sobre um horizonte imenso de centena e meia de reconhecíveis figuras cimeiras do Partido Republicano Português – em vésperas do 5 de Outubro, julgamo-lo -, pairando, sobre esta prole imensa de homens (...), a República Mãe, de opulentos seios: é o Povo republicano reunido, unânime e compacto em torno, e à sombra tutelar, da República portuguesa, da Mulher-Liberdade, cujo advento se espera com fervoroso messianismo, de cunho provavelmente mariânico (...) esta mulher, posta ao centro e acima do seu povo, tem a compostura e o classicismo da primitiva imagem da República de inspiração romana: é a deusa tutelar casta e forte, sem dúvida de peito descoberto, mas de túnica intacta, serena na atitude, duma grande gravidade na verticalidade como que imóvel do seu corpo. Corpo de Mulher-Deusa e não de revoltosa em cima de barricadas. Até a espada que segura e levanta com a mão direita tem um aspecto sereno. (...) não há aqui barricadas nem homens em fúria. Estas 161 figuras que Roque Gameiro, com imensa paciência, desenhou em torno da Mulher-Liberdade são burgueses bem vestidos ou fardados, gente séria, um tanto grave com ar de quem espera que o triunfo da sua causa venha por vias pacíficas e não pela força das armas. (...) nada deve à mulher do povo que Delacroix pôs em cima das barricadas, no meio de homens que combatem e gritam, morrem ou jazem feridos, no meio de destroços e isto apesar de sabermos que o 5 de Outubro triunfou após combates cruentos numa cidade riscada pela fuzilaria das armas, abalada pelo estampido dos canhões dos barcos revoltosos surtos no Tejo e do explodir dos petardos da «artilharia civil» (...). E não obstante ter vencido no meio do fogo, do sofrimento, da incerteza, da angústia e do sangue, esta revolução era precedida duma lenda de pacifismo e legalismo que sabemos inteiramente falsa, à luz do que se passou no congresso do partido reunido em Setúbal em Abril de 1909, e donde saiu um directório encarregado «por a Revolução na rua», custasse o que custasse ou seja, com evidente consciência de que a realeza só havia de baquear pela força das armas” .
Em algumas representações da república portuguesa também se encontram ramos de oliveira, que, embora não façam parte da normal da sua iconografia, a ela estão associados, representam a paz (em que cujas figuras femininas alegóricas aparecem sempre cingindo as têmporas. O ramo de oliveira associado à pomba branca – Espírito Santo – é também um antigo símbolo cristão evocativo da paz, retomado no século XX por Picasso que o difundiu, sendo depois adoptado por organizações progressistas).
A estrela de cinco pontas aparece isolada, sobre o barrete frígio ou sobre a testa da figura. É o ícone com maior número de significações simbólicas. Muitas delas são marciais. Também surge como símbolo do internacionalismo proletário (cada uma das pontas representará um dos continentes). Mas as representações das estrelas de cinco pontas sobre a testa, e mais frequentemente a de seis pontas, ou hexalfa, aludem a cultos do sol, e, estranhamente, em grande medida o culto do sol lembra o absolutismo e a monarquia. Nas representações portuguesas ela aparece invertida: os símbolos invertidos têm conotações vulgares com o mal. No caso da estrela pentagonal passa-se o mesmo, mas nessa situação costuma ser representada com os vértices unidos e inscrita num pentágono, formando o pentagrama Não é o caso. E também não me parece que de algum modo possa aludir ao mal. Mas também se sabe que a carbonária utilizava um triângulo idêntico ao da maçonaria mas invertido, e que tinha por símbolo uma estrela de cinco pontas. É pois plausível considerar que a maçonaria fizesse o mesmo, isto é, que invertesse o símbolo carbonário e se apropriasse dele.
O feixe de lictores é, do mesmo modo, um dos símbolos da república. São molhos de varas de trigo e eram usados na antiga Roma como símbolos de poder. O imperador, por exemplo, correspondia a 24 feixes, o cônsul a 12, o pretor a 6, o edil a 2. O Fascismo italiano adopta esse símbolo (donde, aliás, deriva o seu nome), no entanto para o republicanismo ele deve andar sempre associado ao barrete frígio significando a tomada de poder (lictores) pelos escravos (barretes). E apesar do uso fascista dos lictores ter gerado o abandono da sua representação por parte de muitas instituições republicanas, ela continua pontualmente a ser usada (por exemplo, no selo da República de Cuba).


terça-feira, janeiro 11, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XVII - Rodin III


A Bela Heulimiere Posted by Hello

A beleza para além do ideal a que me referia no texto anterior está descrita na citação que se segue. Foi extraída de um livro, “Um Estranho numa Terra Estranha”, de Robert Heinlein, que na década de sessenta obteve bastante sucesso e foi um símbolo de geração. Na história existe uma personagem, Jubal, que colecciona originais e réplicas das obras de Rodin. No trecho Jubal descreve a Ben a Bela Heulimiére:

“ (…)
- Mais uma opinião. Que é que pensas deste bronze?
Anne olhou para obra-prima de Rodin e disse lentamente:
- Quando a vi pela primeira vez, pensei que era horrível. Mas cheguei à conclusão de que ela pode ser a coisa mais bela que vi em toda a minha vida.
(…)
- Escuta-me, Ben. Qualquer pessoa pode ver uma rapariga bonita. Um artista pode olhar para uma rapariga bonita e ver a mulher em que ela se transformará. Um artista melhor pode olhar para uma mulher velha e ver a bonita rapariga que ela era. Um grande artista pode olhar para uma mulher velha, retratá-la exactamente como ela é… e forçar o espectador a ver a bonita rapariga que ela era… Mais do que isso, ele pode fazer com que qualquer pessoa com a sensibilidade de um armadilho veja que essa bela e jovem rapariga está ainda viva, prisioneira dentro do seu corpo arruinado. Pode fazer com que tu sintas a silenciosa e infinita tragédia de nunca ter existido uma rapariga que tivesse envelhecido para além dos seus dezoito anos… independentemente do que lhe fizeram as horas impiedosas. Olha para ela, Ben.”

Na antiga Grécia (período helenístico) construíam-se colunas com formas masculinas (atlantes) e femininas (cariátides). A partir do renascimento a construção deste tipo de colunas foi retomada. Rodin esculpiu uma Cariátide Caída Debaixo da Sua Pedra. No referido livro encontramos esta explicação de Jubal:

“ (…)
- E esta? Vejo que é uma rapariga. Mas porquê esborrachá-la para que ela se pareça um pretzel?
Jubal olhou para a réplica da Cariátide Caída Debaixo da Sua Pedra.
- Não espero que aprecies a quantidade de coisas que fazem desta figura muito mais que um pretzel; mas podes apreciar o que Rodin queria dizer com ela. Que é que as pessoas sentem quando olham para um crucifixo?
- Sabes que eu não vou à igreja.
- Apesar disso, deves saber que as representações da Crucificação são geralmente horríveis… e as que estão nas igrejas são as piores… sangue que parece ketchup e aquele ex-carpinteiro retratado como se fosse um homossexual… o que ele certamente não era. Era um homem robusto, saudável e musculoso. Mas uma retratação pobre é tão eficaz para a maior parte das pessoas como uma boa. Eles não vêem defeitos; vêem um símbolo que inspira as suas mais profundas emoções; recorda-lhes a Agonia e o Sacrifício de Deus.
- Jubal, pensava que não eras cristão.
- Isso faz com que eu seja cego às emoções? (…) A arte comque tal símbolo é feito é irrelevante. Aqui temos outro símbolo emocional, mas feito com arte exímia. Bem, durante três milhares de anos, os arquitectos desenharam edifícios com colunas com forma de mulher. Finalmente, Rodin chamou a atenção para o facto de isso ser um trabalho demasiado pesado para uma rapariga. Ele não disse: “Olhem, seus brutamontes, se têm de fazer isto, façam-no com uma forte figura de macho.” Não, ele mostrou-o. Esta pobre cariátide caiu sob a sua carga. Ela é uma boa rapariga: olhou para o seu rosto. Sério, infeliz pelo seu falhanço, não censurando ninguém, nem sequer os deuses… continuando a tentar erguer a sua carga, depois de ter sido esmagado por ela.
Mas ela é mais do que boa arte denunciando má arte; ela é um símbolo para todas as mulheres que alguma vez suportaram uma carga demasiado pesada. Mas não só mulheres: este símbolo significa todo o homem e toda a mulher que suaram a vida inteira com uma fortaleza de espírito resignada, até caírem debaixo dos seus fardos. Ela é coragem, Bem, e vitória.
- Vitória?
- Vitória na derrota, não há outra maior. Ela não desistiu, Ben; continua a tentar levantar a sua pedra depois de essa mesma pedra a ter esmagado. Ela é um pai que trabalha para trazer para casa mais um salário enquanto o cancro lhe consome as entranhas. Ela é uma menina de doze anos tentando ser mãe dos seus irmãos porque a mamã foi para o céu. Ela é uma operadora de um quadro de distribuição agarrada ao seu posto enquanto o fumo a sufoca e o fogo lhe corta a saída. Ela é todos os heróis não cantados que não conseguiram os seus feitos, mas que nunca desistem.”


sábado, janeiro 08, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XVI - Rodin II


O Beijo Posted by Hello

O Beijo é muito provavelmente a obra de arte que mais alude à sensualidade. O trabalho de Rodin transpira amor carnal e uma beleza física que transcende o ideal. Por reconhecer esta sensibilidade única, Isadora Duncan dançou nua para ele nos bosques de Vélizy.

No Museu do Chiado estão alguns dos seus desenhos.


ARTE DE TRANSFORMAR XV - Rodin I


O Pensador Posted by Hello

Uma das minhas ocupações mentais favoritas consiste em imaginar uma colecção de obras de arte. Uma colecção que disporia numa cidade imaginária: dentro de cafés, em escolas, em instituições públicas, teatros, cinemas, museus, estações de comboios, jardins e rotundas. O centro da cidade teria duas praças contíguas: o fórum político e administrativo e o centro lúdico e cultural. A pontuar as praças colocaria duas das melhores obras de escultura alguma vez feitas: O Pensador e O Beijo, ambas de Auguste Rodin - o escultor da alma, da razão e do amor.

Rodin alcançou grande notoriedade em vida. Lutou, como tantos outros artistas contra o preconceito, mas o seu génio vingou. Nos últimos anos da sua vida viveu cercado de caçadores de heranças. A cerca de um ano antes da sua morte decidiu doar toda a sua obra ao estado frânces. Foi abandonado. Morreu a 17 de Novembro de 1917 em Meudon, onde ainda hoje jaz sob a estátua de O Pensador.