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terça-feira, março 11, 2008

O Pintor Morreu

ROGÉRIO RIBEIRODo painel das Descobertas . Mão Aberta - Intervenção na Estação de Metro de Santa Lucia em Santiago do Chile

Partir é ir. É concluir um desejo. É começá-lo. Partir é pois um acto de boaventurança. Barcos novos carregados dos precisos, de homens que se vão conhecendo, de mapas, garantias e esperanças.
Partir é enterrar as más chegadas e acreditar que o destino não é coisa que se repita.

Painel da Viagem. A Boaventura da Partida - na mesma intervenção

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Há 100 anos mataram o rei

100 anos depois do regicídio ouvem-se vozes bafientas de um saudosismo hipócrita defender e reclamar o regresso à monarquia. Por outro lado, a desinformação, o desespero e a falta de perspectivas levam muita gente a considerar essa hipótese como válida. É necessário recordar que na génese da monarquia está uma sociedade estratificada, hierarquizada, incompatível com a democracia e a igualdade. E é também importante refrescar a memória e lembrar que o penúltimo rei de Portugal, nutria um profundo desprezo pelo seu povo que, esmagadoramente, vivia em condições deploráveis e desesperantes enquanto ele, D. Carlos, esbanjava os dinheiros públicos. É necessário lembrar que esse mesmo rei deu carta branca a um ditador que levou a economia portuguesa ao colapso. E é fundamental sabermos que 101 anos antes outro rei abandonou o seu povo fugindo das invasões francesas. E que a história da monarquia é a história do velho, ultrapassado e obsoleto regime da subjugação. A solução passa por olhar em frente.

A propósito desta data transcrevo aqui excertos de um livro do controverso Miguel Unamuno. Um intelectual que se iludiu e tomou o partido errado, mas que meses antes de morrer proferiu a famosa frase "vencereis mas não convencereis" que lhe custou a expulsão por Franco do seu cargo de reitor da Universidade de Salamanca.

Do livro PORTUGAL, POVO DE SUICIDAS

"O Rei D. Carlos (…) não precisava de João Franco para atrair a si o ódio do seu povo. Nem na outra, assim Era quase unanimemente execrado. Tinha conseguido unir os seus súbditos num sentimento comum a seu respeito; de ódio misturado com desprezo. Está correcto que de todos os lados a imprensa tenha condenado o assassínio; assim o pede a moral que professamos com maior ou menor sinceridade; mas como penso que acima de todos os amores se deve colocar o amor à verdade, tenho de dizer que os tiros sobre o rei partiram das próprias entranhas do povo português. E se a execução do Rei D. Carlos é execrável, é-o como é a execução de qualquer réu. D. Carlos estava julgado e condenado pelo seu povo.

Estive por diversas vezes em Portugal. Convivi com muitos portugueses e a nenhum ouvi alguma vez defender o defunto rei. Não tinha, em rigor, um único partidário. Contavam-se a seu respeito coisas execráveis e horrendas. Ouvi a pessoas que com ele trataram, até a um que foi seu ministro, coisas realmente incontáveis em público. Oliveira Martins (…) deixou o Ministério dizendo que o rei era um monstro de perversidade. Há que ouvir contar as circunstâncias que precederam o suicídio de Mouzinho de Albuquerque, o herói de África, que ao regressar do seu governo colonial, rodeado de um imenso prestígio, foi nomeado preceptor dos filhos do rei e acabou por suicidar-se.

Talvez a história algum dia venha a guardar alguma coisa de tudo isto (…) e a julgar D. Carlos.

Mas de entre as muitas coisas, todas elas vergonhosíssimas, que ouvi acerca do infeliz monarca, a que porventura se me afigura mais grave, se bem que de um ponto de vista moral recorrente possa aos outros não o parecer, é que ele desprezava o seu povo. O pecado mais grave de D. Carlos, o seu pecado imperdoável, é que desprezava Portugal. Costumava dizer, falando da pátria onde reinava: Isto é uma piolheira. E assim como o Evangelho diz que pecados contra o Espírito Santo não têm remissão nem nesta vida nem na outra, assim é pecado irremissível o desprezo de um soberano pelo seu povo. A circunstância de não ser um homem privado de inteligência ou sequer vulgar, agrava a sua culpa a esse respeito. O defunto D. Carlos não era um idiota nem se pode dizer que fosse uma inteligência vulgar. O que ele foi sempre foi um egoísta astuto e um desenfreado gozador da vida.

E este desgraçado monarca fez uma espécie de pacto com João Franco, o ditador (…)

O pacto consistiu em que Franco daria ao rei aquilo que este necessitava, ouro, justificando de uma ou de outra maneira os adiantamentos ou antecipações ilegais do Tesouro Público e aumentando-lhe a lista civil, e o rei daria a Franco o que a este apetecia com frenesi de monomaníaco: o poder.

Porque o apetite de poder que atingira Franco era uma verdadeira loucura. (…) cabe dizer que o lema de Franco era: conserva o poder, honradamente se puderes, mas conserva-o.

(…) Para lograr levar a cabo esses seus supostos bons propósitos havia um grande obstáculo, que era a própria causa do poder: ter transigido com as artimanhas do rei. É difícil cimentar uma administração honrada com um poder que deve a sua origem a uma violação da estrita honradez pública.

Franco cometeu imensos atropelos para reduzir o montante das dívidas do rei. E chamar-lhes dívidas é o menos que se ode dizer…

(…)

E ambos, o rei e o seu ministro, desconheciam o seu povo. O que nada tem de estranho, visto que o desconhecia – e continua talvez a desconhecer – a maior parte dos portugueses europeizantes ou europeizados (…)

O povo português tem, como o galego, fama de ser um povo sofrido e resignado, que tudo suporta sem protestar, a não ser passivamente. E, no entanto, há que ter cuidado com povos como esses. A ira mais terrível é a dos mansos.

Nem me espanta que no complexo sentimento produzido pela notícia do regicídio, na alma dos portugueses aqui imigrados, entre em não pequena medida algo de orgulho nacional. Condenavam a execução, mas pareciam querer dizer: “ vejam do que ainda somos capazes”. Um destes imigrados, ao ler nos jornais que um dos regicidas era espanhol, deixou escapar este desabafo: “não, não, eram todos portugueses, tenho a certeza”.

Sem qualquer cumplicidade no acto, ainda que remota, ao serem surpreendidos pela notícia, orgulhavam-se de que na sua pátria tivesse havido homens com a coragem suficiente para levar a cabo essa execução terrível, da maneira como o fizeram, cara a cara e expondo-se (…)

Portanto, nem o Rei D. Carlos nem João Franco conheciam o seu povo. E aquele demonstrou cabalmente não o conhecer nas suas famosas declarações ao redactor de Le Temps, declarações que constituíam uma verdadeira provocação à mansidão de um povo. Este dormia e rei e ditador despertaram-no.

É muito doloroso mas o certo é que a consciência dos povos adormecidos só desperta com actos de violência. E é ainda mais doloroso porque no comum dos casos não chega um abanão apenas; o dormente volta a adormecer, embora de um sono mais ligeiro e necessita de nova excitação.

Mas pondo de parte o caso concreto, há que reconhecer todo o trágico da escravidão de um monarca.

Um presidente do Conselho de Ministros, um presidente da República, é um homem que se dedicou à política, escolhendo com mais ou menos consciência e determinação essa profissão; é alguém que procurou o lugar, apresentando a sua candidatura ou deixando que outros a apresentassem. Um rei, não. Um rei é um escravo de nascimento que, como quase todos os nascidos em escravidão, não têm força de vontade nem lucidez para se libertar das cadeias com que nasceu.

Não seria terrível obrigar os filhos mais velhos a seguir a profissão de seus pais? Não consideraríamos que era uma tirania intolerável.

(…) Se bem que o regicídio seja considerado um crime, há que reconhecer que a maior parte das vezes é um crime de direito público, não de direito privado.

E neste caso concreto do regicídio de D. Carlos não se deve perder de vista que foi levado a cabo num país com Portugal, onde a pena de morte foi abolida há já algum tempo e onde chegou a haver distúrbios públicos para impedir que se executasse um condenado a ela. É mais uma prova do que é a ira do manso.

Nesse povo brando, pacífico, sofrido e resignado, mas por dentro cheio de paixão, os crimes de sangue são raros, muito raros, raríssimos; mas entre os que ocorrem muitos parece haver que são mais atrozes e violentos do que aqui, em Espanha, onde por desgraça tais crimes são mais frequentes, muito mais frequentes do que lá.

(…)"

Fevereiro de 1908

domingo, setembro 23, 2007

Here's to you

Sim, é certo, com um mês de atraso (na altura própria estava empenhada em edificar a mais linda das festas), mas ainda assim não me esqueci.
Sim, é certo, anarquistas, mas ainda assim um exemplo de dignidade e princípios.
Sim, é certo, foi há 80 anos e um mês, mas ainda assim uma história actual, mais uma, manchada de sangue, como outras que continuamos a assistir.
Vale a pena manter a memória viva - para que cada vez menos a história se repita.

"Nessa época havia na cidade de Boston um clube conhecido pelo Ateneu, e a esse clube pertenciam nomes ligados com o passado da cidade, com os dias há muito passados de Emerson e Thoreau. homens tais como o reitor da Universidade, que tinha presidido ao julgamento final de Sacco e Vanzetti eram poderosamente influentes nesse clube - um clube onde nunca penetrara um estrangeiro, um americano de primeira geração, um judeu ou um negro. Na manhã que se seguiu à execução, no dia 23 de Agosto de 1927, descobriu-se dentro de todas as revistas que se encontravam na sala de leitura do clube uma folha de papel. E em cada uma dessas folhas de papel liam-se as seguintes palavras: "Hoje, Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, sonhadores da fraternidade humana, que esperavam ser possível encontrá-la na América, foram submetidos a uma morte cruel pelos descendentes daqueles que á muito se refugiaram nesta terra de esperança e liberdade."

Epílogo do livro "A paixão de Sacco e Vanzetti" de Howard Fast


sábado, maio 05, 2007

A GREVE

A melhor explicação sobre o significado de greve:

“Eu vou te contar: no princípio, em Cuba, estávamos sem defesa e sem resistência; este julgava-se branco, aquele era negro e havia bastantes desentendimentos entre nós: estávamos espalhados como areia e os patrões andavam sobre essa areia. Mas logo que reconhecemos que éramos todos iguais, logo que nos juntámos para la huelga…

- O que é que é essa palavra: la huelga?

- Vocês dizem antes a greve.

- Eu também não sei o que isso quer dizer.

Manuel mostrou-lhe a sua mão aberta:

- Olha para este dedo como é magro, e este aqui muito fraco, e este outro não tem melhor aparência, e este infeliz, também não é muito forte, e este último sozinho e entregue a si próprio.

Ele cerrou o punho:

- E agora, será suficientemente forte, suficientemente maciço, suficientemente unido? Diremos que sim, não é verdade? Pois bem a greve, é isto: um NÃO de mil vozes que fazem apenas uma e que se abate sobre a mesa do patrão com o peso de um rochedo.

Não, digo-te: não, e é não. Nada de trabalho, nada de zafra, nem uma erva cortada se tu não nos pagas o preço justo da coragem e da dor dos nossos braços.

E o patrão, o que é que ele pode fazer, o patrão? Chamar a polícia. É isso. Porque esses dois são cúmplices como a pele e a camisa. E carreguem sobre estes rufias. Não somos rufias, somos trabalhadores, proletários, é assim que se diz, e ficamos em filas teimosos debaixo da tempestade; há quem tombe, mas o resto aguenta-se, apesar da fome, da polícia, da prisão, e entretanto a cana espera e apodrece no pé, a Central espera com os dentes dos seus moinhos desocupados, o patrão espera com os seus cálculos e tudo o que ele tinha descontado para encher os seus bolsos e finalmente, ele é obrigado a negociar: então o quê, diz ele, não podemos conversar?

Certo, podemos conversar. Ganhámos a batalha. E porquê? Porque estamos soldados numa única linha como os ombros das montanhas e quando a vontade do homem se torna grande e dura como as montanhas não há força na terra ou no inferno para a abanar e destruir.”


Tradução livre de “Gouverneurs de lá rosée’ Jacques Roumain. Les éditeurs français réunis, 1946

Existe também uma edição portuguesa sob o título “Os governadores do orvalho”, publicada pela Caminho, na colecção “Uma terra sem amos”, em 1979, cuja tradução é de José Saramago.

quarta-feira, abril 25, 2007



Hoje comemorei um Abril que está para vir.
Um Abril, ou um Maio, ou um Junho, ou um Março, que vai chegar e tomar este do 25 como um sonho que se cumpre, vai tomar este do 25 como o momento em que olhámos para a luz que nos entrava pela caverna e desejámos a liberdade. Um Abril, um Maio, um Junho ou um Março em que deixaremos, para sempre, a caverna
Esqueçamos por agora o idealismo platónico (que pretendia tomar a ideia como princípio do conhecimento) e detenhamo-nos apenas na metáfora.


ALEGORIA DA CAVERNA (in A REPÚBLICA, início do Livro VII)- PLATÃO


Sócrates - Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco - Estou a ver.

Sócrates - Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que o transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e dos seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica de fronte?

Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco - É bem possível.

Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco, sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco - Sim, por Zeus!

Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados.

Glauco - Assim terá de ser.

Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objectos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco - Muito mais verdadeiras.

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco - Com toda a certeza.

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e a sua luz.

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o Sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal como é.

Glauco - Necessariamente.

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates - Ora, lembrando-se da sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que aí foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples criado de charrua, a serviço de um pobre lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco - Sou da tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco - Por certo que sim.

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que os seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se a alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco - Sem nenhuma dúvida.


Sem dúvida nenhuma?

terça-feira, abril 25, 2006


"E só nos faltava agora que este Abril não se cumprisse"

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXVIII*

"A consciência de classe é uma forma superior de cultura"
José Casanova num debate sobre os 75 anos do Avante! no CT da Amadora

terça-feira, junho 14, 2005

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXX* - Álvaro Cunhal 1

desenho de Álvaro Cunhal Posted by Hello


De uma penada

responder aos profetas da desgraça,

aos caluniadores da história e do PCP,

afirmar o PCP e a luta dos comunistas,

dar alento à luta.

“O capitalismo procura convencer os povos de que a sua ofensiva global é imparável e irreversível, que o capitalismo é um sistema único e final, que acabou a luta de classes, que o comunismo morreu, que terminaram os ideais e as ideologias dando lugar ao “pensamento único”, o “pensamento” do capitalismo.

Em suma, procura convencer os povos de que, com a sua ofensiva global, vai inevitavelmente conquistar o mundo inteiro.

O capitalismo ilude-se porém a si próprio e cria assim a sua própria utopia.

A verdade é que o capitalismo está roído por contradições insolúveis, mostra-se incapaz de resolver os mais graves problemas da humanidade, cria cada dia problemas ainda mais graves, mantém e agrava a sua natureza exploradora, opressora e agressiva.

A luta de classes é um elemento omnipresente na política dos governos e na vida e na luta dos povos. Não se lhe põe fim por decreto ou proclamação. Os trabalhadores, os povos e nações oprimidas resistirão. Inevitavelmente.

O comunismo continua a ser a única alternativa histórica ao capitalismo e a mais válida esperança da humanidade.

No tempo da ditadura, da revolução e da contra-revolução, lutando com objectivos correspondentes a tão distintas situações, o PCP manteve sempre e mantém no horizonte o objectivo da construção de uma sociedade socialista em Portugal.

Uma sociedade nova e melhor, libertada da exploração e das grandes desigualdades e injustiças sociais. E redefinida tendo em conta as realizações e experiências históricas positivas e também as negativas da construção do socialismo, experiências das vitórias e das derrotas, e tendo também em conta as profundas alterações que se deram no mundo nas últimas décadas do século XX, e que exigem respostas novas a novas situações e a novos fenómenos.

A luta por este objectivo não contraria, antes dá mais claro sentido, à luta presente pela democracia e independência nacional.

A construção do socialismo não pode ser imposta a um povo. Não dispensa, antes exige, a decisão, a vontade, o empenhamento e a criatividade revolucionária dos trabalhadores e das massas populares. Tal como o PCP a projecta e propõe será uma expressão superior da democracia em todas as suas vertentes.”

Álvaro Cunhal

In A verdade e a mentira na Revolução de Abril

sexta-feira, abril 22, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXX - Rembrandt II

“Betsabé está sentada numa almofada, o rosto inclinado para o chão, a carta do rei David na mão direita [centro da composição]. Ele quer vê-la o mais depressa possível, que vá ter com ele, é uma ordem. Talvez o rei David lhe diga também que a deseja desde que a viu tão bela no banho. Ela leu a carta fatal, o seu olhar está noutro lado. À esquerda, encostada à moldura, curvada sobre os seus pés, a velha criada purifica-a antes do sacrifício. Com os olhos perdidos no futuro, Betsabé não olha para nada.
(…)
O sacrifício de Betsabé ultrapassá-la-á, naquele que ela dará à luz. Digna, a serva judia, purifica-a. Encontraste-a no Hougracht, mesmo em frente da sinagoga. Inclinada para os meus pés já não sorri, é a idade e as costas. Também eu, sem me mexer na pose com o meu ventre pesado, tenho uma dor que me trespassa sob o ombro esquerdo. Viste na minha mão a carta do rei David, linhas escritas sobre um papel branco, e acreditaste no acaso.”
In
Eu, a puta de Rembrandt
Sylvie Matton

“(…) Há algum tempo que ele vive com Hendrickje Stoffels, e essa mulher maravilhosa (tirando os de Titus, só os retratos de Hendrickje estão repletos da própria ternura e do reconhecimento do velho urso sublime) deve satisfazer simultaneamente a sua sensualidade e a sua necessidade de ternura.”
Jean Genet

De entre as várias pinturas que Rembrandt fez representando a sua companheira Hendrickje, destaco três que, aparentemente desligadas, parecem constituir um conjunto particular. O primeiro é o já citado “Susana e os velhos” (1647) – realizado pouco tempo depois de o pintor e a modelo se terem conhecido -, um tema bíblico, o segundo é este “Betsabé com a carta do rei David” (1654), outro tema do antigo testamento, e o terceiro “Hendrickje Banhando-se num Rio” (1654) – estes dois feitos durante a gravidez de Hendrickje - . Os três têm em comum a imagem da mulher no banho que é surpreendida por um homem mais velho. Esse homem é implícita ou explicitamente, o próprio pintor.


Posted by Hello Betsabé com a carta do rei David


terça-feira, abril 19, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXIX - Rembrandt I

Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669)

A primeira vez que vi o nome Rembrandt foi numa caixa de tintas de óleo na Papelaria da Moda, na Rua do Ouro. Fiquei curiosa. Donde vinha aquele nome tão estranho associado a tintas? Procurei numa enciclopédia (aqueles livros de grande utilidade a que, vulgarmente, nos esquecemos de recorrer, como são aliás quase todas as coisas de grande utilidade. Só nos lembramos delas uma vez. Bom, mas dessa vez dei uso à enciclopédia) e lá encontrei Rembrandt van Rijn, pintor holandês do século XVII (que século tão chato!), identificado com o estilo barroco.

Mais tarde, nas aulas de História da Arte da professora Natalina, lá percebi o que era o barroco. Mas a bota não batia com a perdigota. O Barroco era a arte da contra-reforma: um estilo criado como uma grande operação de propaganda da Igreja (os especialistas do marketing hoje não chegariam aos calcanhares dos promotores do barroco). Jogos de luz e sombra, movimento, monumentalidade. O barroco acentuou o carácter espectacular das igrejas (era preciso fascinar os fiéis): superfícies côncavas e convexas, e volume, cor, brilho, pontos de luz estrategicamente colocados. Tudo com o propósito de subjugar. O aspecto mais dramático do barroco é o urbanismo (sobretudo o do absolutismo). Grandes praças feitas para serem olhadas, eventualmente atravessadas, mas nunca ao serviço das pessoas (a praça como local de encontro desaparecia).

Rembrandt não cabia nesse barroco desumano, de ilusão, de espectáculo. Era a fuga ao estilo, dentro do estilo.

A princípio achava que era um pintor soturno. Muito triste. Pinturas escuras, sem cor, pessoas demasiado reais. Não era, definitivamente, um pintor para uma adolescente imatura e algo pretenciosa como eu era. Só na faculdade voltei a estudar Rembrandt, desta vez com a professora Margarida Calado. Revelou-se então um desses homens que são intemporais porque o seu tempo ainda não chegou (serão o homem novo?), um homem que abraça a dor de todos os homens, que não precisa de regras porque tem princípios, que não se verga, que não se vende. Sem preconceitos e uma grande sede de conhecimento. E não foi um pintor no seio das revoluções sociais e políticas dos séculos XIX e XX, ou da “revolução” sexual, não. Rembrandt viveu a guerra dos 30 anos e a peste negra, num período de moralismo e superstição. Não é coisa pouca.

Ao longo da vida perdeu a alegria e ganhou doçura e sapiência.

A pintura é como o rosto das pessoas, se os conhecermos e olharmos com atenção, dizem tudo. A pintura de Rembrandt é, paradoxalmente, escura, mas translúcida, clara, evidente. Só diz a verdade.

A verdade de Rembrandt e da sua pintura saiu cara. Mas valeu a pena.


Susana e os velhos Posted by Hello

Jorge (PSI20), a pintura mais conhecida é, efectivamente, “A ronda da noite” (querias testar-me, grande safado!), mas eu, como te disse, gosto mais da “Susana e os velhos”.

Voltarei a falar dele, certamente. Talvez amanhã. Agora estou com sono.

sábado, março 05, 2005

O SONHO COMANDA A VIDA

Posted by Hello


"No horizonte da evolução social está o comunismo - sonho milenário da humanidade progressista, sociedade sem classes, sociedade de abundância, de igualdade social, de liberdade e de cultura para todos, de iniciativia e criatividade colectiva e individual, sociedade de trabalhadores livres e conscientes na qual o trabalho será não apenas uma fonte de riqueza mas uma actividade criadora e uma fonte de alegria, de liberdade e de valorização pessoal e na qual a paz, a saúde, a cultura, o repouso, o recreio, um meio ambiente equilibrado, a acção colectiva e o valor do indivíduo serão componentes da felicidade humana."

in Programa do PCP
P
ortugal
Uma Democracia Avançada
no Limiar do Século XXI

84 anos de luta!
Viva o PCP!


quinta-feira, janeiro 06, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XIV - Sem Tréguas

“Os gapistas[1] nunca foram muitos: uns eram muito jovens, outros tinham atrás de si a experiência da guerra de Espanha e a severa disciplina da luta clandestina, do cárcere fascista, do desterro. Todos, no difícil momento da acção, nos dias dramáticos da acção mais violenta, quando a vida estava presa por um fio a uma denúncia, a uma rusga casual, todos, jovens e velhos, souberam encontrar força e consciência para não desistir, Antes de mais, os gapistas foram homens que amavam a vida, a justiça; acreditavam profundamente na liberdade, ansiavam por um futuro de paz, não actuavam por ambição pessoal, por oportunismo, por cálculos mesquinhos.Eram super-homens? Claro que não. Eram simplesmente homens, mas homens dominados pela vontade de não dar tréguas ao inimigo. O seu orgulho tinha raízes profundas: conscientes do sacrifício de todos os que corajosamente tinham sofrido a prisão, as perseguições, as torturas, guiavam-se pela sua grandeza e pelo seu exemplo. Sem a autoridade dos velhos militantes que tinham sofrido a prisão, o desterro e o exílio, não teria sido possível aos dirigentes exigirem dos gapistas, dos partigiani[2] a disciplina mais severa, que levava em muitos casos à morte mais trágica, nem os combatentes terem ânimo para a enfrentar. Era só orgulho e entusiasmo o espírito que deu alento aos gapistas? Era um laço de confiança mútua entre os velhos militantes e os jovens, entre os que tinham mostrado saber manter-se no rumo certo abrindo novas perspectivas e os que se inseriam numa luta que era a luta de sempre contra a prepotência, o privilégio, a escravidão. Não há dúvida que sem os antigos laços entre o presente sombrio e o passado glorioso, não teria havido guerra de libertação, não teria sido resgatada a vergonha do fascismo, «não teríamos conquistado o direito de ser um povo livre e independente».(…)
A pouco e pouco estes homens souberam juntar à sua volta outros combatentes que se lançaram com determinação no combate e lutaram com inteligência e coragem até à libertação.O relato das suas actuações não pretende ser só uma ampla citação, de episódios de guerra. Sem Tréguas contem uma lição muito profunda, tão válida hoje como ontem. É uma lição que os homens, os jovens que estiveram envolvidos em batalhas dramáticas, passaram a outros homens, a outros jovens, entregues hoje ao trabalho ou ao estudo, para que saibam lutar pelas instituições livres, a justiça, a liberdade, a democracia. Também hoje é preciso quebrar as resistências ao progresso, é preciso conquistar uma maior democracia nas fábricas e nas escolas; também hoje é preciso lutar pela paz no mundo; também hoje, afinal, é necessário lutar sem tréguas.(…)
Aos jovens cabe agora continuar no caminho certo, continuar a Resistência.”


In Giovanni Pesce
Sem Tréguas,Edições Avante!

[1] - De GAP - Grupos de Acção Patriótica
[2] - Assim se designaram os resitentes italianos da Segunda Guerra Mundial

segunda-feira, novembro 22, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR VIII

"O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?"


Jean-Paul Sartre

terça-feira, novembro 16, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR VII

A liberdade custa muito caro
e temos ou de nos resignarmos a viver sem ela
ou de nos decidirmos a pagar o seu preço.

- José Marti -