quinta-feira, janeiro 27, 2005

Lista de preferências sem hierarquias

- a paz
- as cerejas
- camas grandes e baixinhas
- livros de contos
- todas as cores
- olhar para o fogo
- beijar apaixonadamente
- partilhar planos
- pintar
- observar pessoas
- jogar mankala no banho
- poder lutar
- música
- música
- música
- amigos sinceros
- maçarocas assadas
- a dignidade
- defeitos confessos
- o céu estrelado
- amores-perfeitos
- o cheiro da bela-luísa
- a fraternidade
- sorrisos
- missangas
- ver a cebola a alourar no azeite
- os incorruptíveis
- olhares cúmplices entre desconhecidos
- o cheiro das maçãs
- gatos
- que me contem histórias
- organizar as prateleiras, as pastas e os papéis
- amar ao acordar
- licor de amora
- biscoitos de Azeitão
- melancia
- a festa!
- os persistentes
- cadernos novos
- fotografias velhas
- conversar com as crianças – o poema pedagógico
- o cheiro da cera no chão das casas antigas
- o sentir do dever cumprido
- conversas aparentemente inúteis na escuridão
- acampar
- a verdade
- boiar no mar
- vinho carrascão
- o cheiro do café
- o algodão
- ver o mar
- o comunismo


quinta-feira, janeiro 20, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XX

Posted by Hello


STRANGE FRUIT

Seven trees
Bearin' strange fruit
Blood on the leaves
And blood at the roots
Black bodies Swinging in the southern breeze
Strange fruit hangin'
From the poplar trees
Pastoral scene
Of the gallant south

Them big bulging eyes
And the twisted mouth
Scent of magnolia
Clean and fresh
Then the sudden smell
Of burnin' flesh

Here is a fruit
For the crows to pluck
For the rain to gather
For the wind to suck
For the sun to rot
For the leaves to drop
Here is Strange and bitter crop

Lewis Allen, Sonny White. Intrepretada por Nina Simone

segunda-feira, janeiro 17, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XIX

(a recordar o Brotas)

LIBERTÉ

Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écute ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne de rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc de journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur le champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Paul Eluard

domingo, janeiro 16, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XVIII

OBREROS MARITIMOS

En Valparaíso, los obreros del mar
Me invitaron: eran pequeños y duros
Y sus rostros quemados eran la geografia
Del Océano Pacífico: eran una corriente
Adentro de las inmensas aguas, una ola muscular,
Un ramo de alas marinas en la tormenta.
Era hermoso verlos como pequeños dioses pobres,
Semidesnudos, malnutridos, era hermoso
Verlos luchar y palpitar con otros hombres más allá del océano,
Con otros hombres de otros puertos miserables, y oirlos,
Era el mismo lenguaje de españoles y chinos,
El lenguaje de Baltimore y Kronstadt,
Y cuando cantaron “La Internacional” canté con ellos:
Me subia del corazón un himno, quise decirles:”Hermanos”,
Pero no tuve sino ternura que se me hacía canto
Y que iba con su canto desde mi boca hasta el mar.
Ellos me reconocían, me abrazaban con sus poderosas miradas
Sin decirme nada, mirándome y cantando.

Pablo Neruda


AZULICES (Curiosidades açoreanas) IX - Pico (todos os dias)

Posted by Hello


Neve no Pico dos 1300 aos 2351m.
Há qualquer coisa nesta paisagem que não consigo expressar. É como explicar as cores a um cego. Reconhecer tão bem um sentimento e não conseguir traduzir por palavras provoca em mim a tomada de consciência de que o verbo jamais suplantará a sensibilidade. E ainda bem que assim é. Significa que em todos nós existe a rebeldia do pensamento.
Schiller tinha alguma razão quando falava na educação estética da humanidade: apurar o conhecimento sensível é educar para a crítica. Não admira que a formação artística esteja cada vez mais descurada.
Estupidamente, a única coisa que consigo dizer sobre esta imagem, e a vida que decorre tendo-a como pano de fundo, é que me lembra uma mistura entre a série Verão Azul (lembram-se? - non nos moveran!) e o Bell e Sebastião.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

»»»Komunas Flamejantes II«««

Posted by Hello


As Komunas Flamejantes actuaram, no passado dia 31 de Dezembro, no magnífico cenário do Cromeleque dos Almendres nos arredores de Évora. Entre o público deslumbrado ouviram-se exclamações e interrogações como estas: "chiça! até os menires, aqui plantados há milhares de anos, dançam!" ou "não é melhor desligar os faróis do carro antes que a bateria se lixe?", ou ainda "ó Irene, tens a certeza que estas pedras estão gravadas?".
Foi a primeira vez que este enigmático sítio serviu de palco para um concerto musical desta envergadura. Antes, apenas a Irmandade dos Maluquinhos dos Solestícios, Os Merlins do Alentejo e o Grupo-que-jura-que-se-os-extra-terrestres-nos-visitarem-hão-de-pousar-no-cromeleque entoaram cânticos, respectivamente, à Deusa Mãe, aos antepassados selvagens e aos seres-verdes-que-nos-iluminarão, naquele recinto (também não podemos garantir se os paleolíticos e os neolíticos realizaram ou não, por ali, mega-concertos de bandas que talvez se chamassem Romanos Mortos ou Veados Cantantes). Na fotografia o dueto maravilha interpreta o êxito Grândola Brunette Village.
Eis a sapiência do Engenheiro Lopes:

As Komunas Flamejantes acrescentaram mais um factor de distinção no universo da música portuguesa e na música de intervenção mundial:

Ao actuarem entre os cromeleques de Évora, as Komunas Flamejantes aliaram a arte-música à arte-monumento, e aliaram também a música à história e ao património.

As komunas flamejantes, para além do seu percuso musical feito à custa do derrube de preconceitos pseudo-intelectuais, afirmam-se como guardiãs da arte e do património português.

Tal preocupação, dedicação, e sensibilidade estética colocam-nas a um nível onde poucos chegaram.

Poucos como Giacommeti ou Fernando Lopes-Graça.

João L - Manager

quarta-feira, janeiro 12, 2005

projecto de mural par a a Festa do Avante! 2004 Posted by Hello


MUDAR DE DISCURSO

Uma prosa em verso
(dedicada à Maria do Céu e à Ana Lourido)

I
Dizem-me muitas vezes
Com preocupação
E até simpatia,
Ou com desprezo
E rancor,
Que o meu partido
Deve mudar de discurso
Sob o risco de entropia
E desaparecimento.

Dizerem-me isso
É como dizerem:
Muda o teu discurso.
O que é o mesmo
Que dizerem:
Muda o teu pensamento.

Não, não, nada disso,
Respondem,
As tuas ideias
São justíssimas,
Os teus objectivos
Generosos,
Tens é de mudar a forma,
O conteúdo é perfeito!

Alguns acrescentam:
Embora utópico,
Irrealizável.

Faço aqui um aparte:
Terão dito
Algo do género
A Jesus Cristo?
E os milhões
Que lhe prestam culto
Não acreditam
No seu apelo de mudança?

Acontece porém
Que as minhas ideias
Não são
líquido moldável
à forma de um recipiente.
São antes
Um cristal
De forma estruturada
E precisa
Em constante desenvolvimento
E segundo
Uma mesma matriz.
Não se pode moldar
Sem quebrar.

II
A forma do meu pensamento
Deve-se
Ao seu conteúdo.

O meu discurso
São as minhas ideias
E não se resume
A um enunciado simples:
Tenho uma razão de vida
Uma ideologia,
Um guia para a acção,
Como aliás,
Tem toda a gente.

Tenho-a,
De forma consciente.
E a consciência
Faz parte dela.
Cresci
No meio da maioria,
Entre aqueles
Que só têm
A sua força de trabalho
Como garantia de sustento.

Mas,
Cresci também
Perto de gente
Que me ensinou
A questionar tudo,
Tudo.
Principalmente
A apregoada imutabilidade
Da organização social,
A repetida natureza egoísta
Do ser humano,
Em suma;
O sedimentado estado
Em que uns,
Proprietários
Dos meios de produção,
Exploram os outros,
Que apenas possuem
Braços e cabeça
Para trabalhar

III
Formei-me como ser humano
Com esta massa
De experiências e ideias
Eu sou isto.

Outros crescem
Assimilando a cultura
Do individualismo
E do sucesso.

Outros crescem
Achando que um dia
A divina providência
Resolverá
Os problemas da humanidade.

Outros crescem
Convencendo-se
Que as coisas mudam
Por adaptação.

Outros crescem
Pensando que
O mundo muda
Apenas com tolerância
E boa disposição

Outros crescem
Julgando
Que tudo está bem
E que existem uns
Rancorosos,
Invejosos,
Preguiçosos,
Que exageram
O que está mal

Outros,
Muitos,
Muitos,
Talvez a maior parte,
Nem cresce,
Nem pensa:
Subsiste

IV
Eu formei-me
Como ser humano
Tomando consciência
Que não existe
Uma ordem natural
Da sociedade.

Nada é natural
Na sociedade.
Tudo é construído.
E se tudo é construído
Tudo pode ser
Reconstruído.

Como seres humanos
Ganharíamos
Muito mais,
Colectiva
E individualmente,
Com o equilíbrio das relações.

O poder de uns
Sobre outros
Sustentado na força
Ou na propriedade,
Na manipulação
E na humilhação,
Não beneficia ninguém,
Não confere sentido
À vida de ninguém,
Não torna ninguém
Mais feliz.

IV
E assim sendo,
Eu, e todos
Os que partilham
destas ideias,
Agimos
Na convicção
De que as coisas
Podem e devem mudar.

Eu,
E os que partilhamos
Estas ideias e objectivos,
Todos os dias
Pensamos
e repensamos
O caminho
Que devemos trilhar.

E todos os dias
Avaliamos
a nossa força
e os meios que temos
para romper
com o estado das coisas.

Invariavelmente concluímos
Que há que convencer
Mais e mais pessoas
Para a necessidade de mudar.
Concluímos
Que é fundamental
Engrossar fileiras.

V
Mas não é fácil,
Não é nada fácil.
A humanidade
Ainda não amadureceu.

Muitos ofuscam-se
Com o brilho de holofotes
Sobre sorridentes heróis de plástico.

Outros
Ficam embalados
Com frases e ideias
Repetidas incontáveis vezes,
Lamentando com doces vozes
A pobreza e a miséria
Enquanto outras informam,
Com disfarçado cinismo,
Que não há nada a fazer;
É o preço a pagar.
Tudo o que se podia fazer
Foi feito.

A maioria
Impressiona-se
Com os apelos
À calma e à contenção
Que marionetas,
Em fatinhos
E poses de estado,
Vão produzindo

Os seres humanos
Ainda estão imberbes,
Ainda não levantaram os olhos
Para ver os outros.
A solidariedade e o altruísmo
São valores
Que para muitos
Ainda estão desligados
Do sentido crítico
E da vigilância.
Ou seja;
Só se lembram deles
Se a caixinha de imagens
Assim o disser.

A manipulação
É imensa,
Brutal,
Tão gigantesca
Que não existe
Campo de visão
Para a alcançar
Num olhar.

Os seres humanos
Obedecem
De tal forma
À voz do dono
Que nem se dão conta
Que pisam o companheiro.

VI
E há quem nos diga:
O vosso discurso
Tem de ser atractivo,
Não podem
Usar velhas fórmulas,
Velhas propostas,
Velhas palavras.

Ah! Não!
Não podemos
Submeter a estratégia
À táctica.

Vivemos
A velha exploração,
A velha mentira,
O velho medo.
E as velhas palavras,
As velhas propostas,
As velhas fórmulas,
Continuam válidas

É certo
que a ofensiva
foi apurada.
Mas também
A nossa análise
Foi refinada.

E havendo
Outros métodos,
Outras estratégias,
Outros modos eficazes,
Sem concessões
Ao sistema da exploração,
Da vilania,
Do individualismo,
Do terror,
Da mentira,
De melhorar,
De libertar a humanidade,
Eles que se apresentem,
Que se discutam
Que se expliquem,
Que vinguem.

VII
Todos os dias
Pensamos
e repensamos
O caminho
Que devemos trilhar.

A humanidade é muito imatura
E corre o risco
De se tornar velha
Sem ter sido jovem.

É preciso
E é possível mudar.

Mais
Do que uma mudança
De discurso
O que o mundo precisa
É de muitos e bons
Amplificadores
Da nossa voz,
Gente descomprometida,
Que compreenda
Que é preciso apontar,
Denunciar,
Chamar
Os bois pelos nomes,
Apelar
E despertar as mentes,
Sem medo do pensamento dissonante,
Sem receio da discussão,
Com capacidade de afirmação
E de conquista
De mais e mais seres humanos
Dispostos a integrarem
Uma torrente de água fresca
Nesta terra seca
Em que o mundo se está a tornar.

terça-feira, janeiro 11, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XVII - Rodin III


A Bela Heulimiere Posted by Hello

A beleza para além do ideal a que me referia no texto anterior está descrita na citação que se segue. Foi extraída de um livro, “Um Estranho numa Terra Estranha”, de Robert Heinlein, que na década de sessenta obteve bastante sucesso e foi um símbolo de geração. Na história existe uma personagem, Jubal, que colecciona originais e réplicas das obras de Rodin. No trecho Jubal descreve a Ben a Bela Heulimiére:

“ (…)
- Mais uma opinião. Que é que pensas deste bronze?
Anne olhou para obra-prima de Rodin e disse lentamente:
- Quando a vi pela primeira vez, pensei que era horrível. Mas cheguei à conclusão de que ela pode ser a coisa mais bela que vi em toda a minha vida.
(…)
- Escuta-me, Ben. Qualquer pessoa pode ver uma rapariga bonita. Um artista pode olhar para uma rapariga bonita e ver a mulher em que ela se transformará. Um artista melhor pode olhar para uma mulher velha e ver a bonita rapariga que ela era. Um grande artista pode olhar para uma mulher velha, retratá-la exactamente como ela é… e forçar o espectador a ver a bonita rapariga que ela era… Mais do que isso, ele pode fazer com que qualquer pessoa com a sensibilidade de um armadilho veja que essa bela e jovem rapariga está ainda viva, prisioneira dentro do seu corpo arruinado. Pode fazer com que tu sintas a silenciosa e infinita tragédia de nunca ter existido uma rapariga que tivesse envelhecido para além dos seus dezoito anos… independentemente do que lhe fizeram as horas impiedosas. Olha para ela, Ben.”

Na antiga Grécia (período helenístico) construíam-se colunas com formas masculinas (atlantes) e femininas (cariátides). A partir do renascimento a construção deste tipo de colunas foi retomada. Rodin esculpiu uma Cariátide Caída Debaixo da Sua Pedra. No referido livro encontramos esta explicação de Jubal:

“ (…)
- E esta? Vejo que é uma rapariga. Mas porquê esborrachá-la para que ela se pareça um pretzel?
Jubal olhou para a réplica da Cariátide Caída Debaixo da Sua Pedra.
- Não espero que aprecies a quantidade de coisas que fazem desta figura muito mais que um pretzel; mas podes apreciar o que Rodin queria dizer com ela. Que é que as pessoas sentem quando olham para um crucifixo?
- Sabes que eu não vou à igreja.
- Apesar disso, deves saber que as representações da Crucificação são geralmente horríveis… e as que estão nas igrejas são as piores… sangue que parece ketchup e aquele ex-carpinteiro retratado como se fosse um homossexual… o que ele certamente não era. Era um homem robusto, saudável e musculoso. Mas uma retratação pobre é tão eficaz para a maior parte das pessoas como uma boa. Eles não vêem defeitos; vêem um símbolo que inspira as suas mais profundas emoções; recorda-lhes a Agonia e o Sacrifício de Deus.
- Jubal, pensava que não eras cristão.
- Isso faz com que eu seja cego às emoções? (…) A arte comque tal símbolo é feito é irrelevante. Aqui temos outro símbolo emocional, mas feito com arte exímia. Bem, durante três milhares de anos, os arquitectos desenharam edifícios com colunas com forma de mulher. Finalmente, Rodin chamou a atenção para o facto de isso ser um trabalho demasiado pesado para uma rapariga. Ele não disse: “Olhem, seus brutamontes, se têm de fazer isto, façam-no com uma forte figura de macho.” Não, ele mostrou-o. Esta pobre cariátide caiu sob a sua carga. Ela é uma boa rapariga: olhou para o seu rosto. Sério, infeliz pelo seu falhanço, não censurando ninguém, nem sequer os deuses… continuando a tentar erguer a sua carga, depois de ter sido esmagado por ela.
Mas ela é mais do que boa arte denunciando má arte; ela é um símbolo para todas as mulheres que alguma vez suportaram uma carga demasiado pesada. Mas não só mulheres: este símbolo significa todo o homem e toda a mulher que suaram a vida inteira com uma fortaleza de espírito resignada, até caírem debaixo dos seus fardos. Ela é coragem, Bem, e vitória.
- Vitória?
- Vitória na derrota, não há outra maior. Ela não desistiu, Ben; continua a tentar levantar a sua pedra depois de essa mesma pedra a ter esmagado. Ela é um pai que trabalha para trazer para casa mais um salário enquanto o cancro lhe consome as entranhas. Ela é uma menina de doze anos tentando ser mãe dos seus irmãos porque a mamã foi para o céu. Ela é uma operadora de um quadro de distribuição agarrada ao seu posto enquanto o fumo a sufoca e o fogo lhe corta a saída. Ela é todos os heróis não cantados que não conseguiram os seus feitos, mas que nunca desistem.”


sábado, janeiro 08, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XVI - Rodin II


O Beijo Posted by Hello

O Beijo é muito provavelmente a obra de arte que mais alude à sensualidade. O trabalho de Rodin transpira amor carnal e uma beleza física que transcende o ideal. Por reconhecer esta sensibilidade única, Isadora Duncan dançou nua para ele nos bosques de Vélizy.

No Museu do Chiado estão alguns dos seus desenhos.


ARTE DE TRANSFORMAR XV - Rodin I


O Pensador Posted by Hello

Uma das minhas ocupações mentais favoritas consiste em imaginar uma colecção de obras de arte. Uma colecção que disporia numa cidade imaginária: dentro de cafés, em escolas, em instituições públicas, teatros, cinemas, museus, estações de comboios, jardins e rotundas. O centro da cidade teria duas praças contíguas: o fórum político e administrativo e o centro lúdico e cultural. A pontuar as praças colocaria duas das melhores obras de escultura alguma vez feitas: O Pensador e O Beijo, ambas de Auguste Rodin - o escultor da alma, da razão e do amor.

Rodin alcançou grande notoriedade em vida. Lutou, como tantos outros artistas contra o preconceito, mas o seu génio vingou. Nos últimos anos da sua vida viveu cercado de caçadores de heranças. A cerca de um ano antes da sua morte decidiu doar toda a sua obra ao estado frânces. Foi abandonado. Morreu a 17 de Novembro de 1917 em Meudon, onde ainda hoje jaz sob a estátua de O Pensador.

O Caminho

Por mais que eu grite
a minha boca continua selada
Por mais que eu aponte
os meus dedos nada indicam
Por mais que eu chore
as lágrimas não vertem
Por mais que eu corra
o chão continua o mesmo

Eu que sempre fui um pássaro
hoje sinto-me uma rocha
Era ar
e desfiz-me em terra

Construí umas asas de cera
e voei na direcção do sol
despenhei-me no labirinto
e encontrei o minotauro.

Caí na minha própria armadilha
E ao invés do braço solidário
pediram-me desculpas
e ofereceram-me o chicote.

Mas não me chamo Ícaro
E não desisto:
plantarei árvores e flores pelo caminho
e assim reconhecerei os sítios por onde passar
Nada direi mas todos saberão o que quero dizer.

E encontrar-te-ei

quinta-feira, janeiro 06, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XIV - Sem Tréguas

“Os gapistas[1] nunca foram muitos: uns eram muito jovens, outros tinham atrás de si a experiência da guerra de Espanha e a severa disciplina da luta clandestina, do cárcere fascista, do desterro. Todos, no difícil momento da acção, nos dias dramáticos da acção mais violenta, quando a vida estava presa por um fio a uma denúncia, a uma rusga casual, todos, jovens e velhos, souberam encontrar força e consciência para não desistir, Antes de mais, os gapistas foram homens que amavam a vida, a justiça; acreditavam profundamente na liberdade, ansiavam por um futuro de paz, não actuavam por ambição pessoal, por oportunismo, por cálculos mesquinhos.Eram super-homens? Claro que não. Eram simplesmente homens, mas homens dominados pela vontade de não dar tréguas ao inimigo. O seu orgulho tinha raízes profundas: conscientes do sacrifício de todos os que corajosamente tinham sofrido a prisão, as perseguições, as torturas, guiavam-se pela sua grandeza e pelo seu exemplo. Sem a autoridade dos velhos militantes que tinham sofrido a prisão, o desterro e o exílio, não teria sido possível aos dirigentes exigirem dos gapistas, dos partigiani[2] a disciplina mais severa, que levava em muitos casos à morte mais trágica, nem os combatentes terem ânimo para a enfrentar. Era só orgulho e entusiasmo o espírito que deu alento aos gapistas? Era um laço de confiança mútua entre os velhos militantes e os jovens, entre os que tinham mostrado saber manter-se no rumo certo abrindo novas perspectivas e os que se inseriam numa luta que era a luta de sempre contra a prepotência, o privilégio, a escravidão. Não há dúvida que sem os antigos laços entre o presente sombrio e o passado glorioso, não teria havido guerra de libertação, não teria sido resgatada a vergonha do fascismo, «não teríamos conquistado o direito de ser um povo livre e independente».(…)
A pouco e pouco estes homens souberam juntar à sua volta outros combatentes que se lançaram com determinação no combate e lutaram com inteligência e coragem até à libertação.O relato das suas actuações não pretende ser só uma ampla citação, de episódios de guerra. Sem Tréguas contem uma lição muito profunda, tão válida hoje como ontem. É uma lição que os homens, os jovens que estiveram envolvidos em batalhas dramáticas, passaram a outros homens, a outros jovens, entregues hoje ao trabalho ou ao estudo, para que saibam lutar pelas instituições livres, a justiça, a liberdade, a democracia. Também hoje é preciso quebrar as resistências ao progresso, é preciso conquistar uma maior democracia nas fábricas e nas escolas; também hoje é preciso lutar pela paz no mundo; também hoje, afinal, é necessário lutar sem tréguas.(…)
Aos jovens cabe agora continuar no caminho certo, continuar a Resistência.”


In Giovanni Pesce
Sem Tréguas,Edições Avante!

[1] - De GAP - Grupos de Acção Patriótica
[2] - Assim se designaram os resitentes italianos da Segunda Guerra Mundial

quarta-feira, janeiro 05, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XIII

DA CONDIÇÃO HUMANA

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre
que surgimos

Ary dos Santos

ARTE DE TRANSFORMAR XII

SONETO

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

Ary dos Santos

terça-feira, janeiro 04, 2005

Parabéns Luís

O Luís é um gajo que conheci quando tinha uns doze anos. Conheci-o na Festa do Avante! (no último ano da Ajuda), ele devia ter uns desasseis, era colega do Soviético, um amigo do bairro (que, uns anos antes, me partiu a cana do nariz com uma arma feita de pau. Todos os meus companheiros estavam prisioneiros da perigosa dupla de irmãos: o Soviético e o Chinês; eu preparei uma emboscada e na altura certa sai de trás de um arbusto gritando: mãos ao ar, larguem as armas, nada de truques! O Soviético, que sempre teve jeito para o teatro, achou que eu o estava a matar e encenou uma morte digna de um soldado; atirou-se para o chão e a arma foi pelo ar de encontro ao meu nariz). Chamavam-no Nazi porque falava alemão e era loiro-arruivado. Um tipo bestial! e engraçado! sempre em festa, sempre afável.Era o campeão a beber whisky (acho que o pai tinha um negócio de bebidas); bebia, bebia muito. Deixou de estudar e começou a trabalhar como estivador. Tinha a força de um touro. Quando eu tinha os meus quinze, desasseis anos o Luís começou a meter-se nas drogas duras. Depois resolveu fugir da tropa. Estava nas forças especiais, naquelas que se vestem de preto, cujo regimento fica lá para Lamego (acho). Ficou em minha casa alguns meses, escondido no sótão. Depois foi pela Europa, viveu em Amesterdão e acho que também esteve em França. Regressou. Voltou à rotina da heroína. Foi encontrado numa valeta por um outro amigo da Ajuda (já lá estava há alguns dias), teve uma recuperação fugaz. Foi preso. Escrevia à minha mãe, as cartas mais lindas que ela já recebeu. Tinha uma caligrafia angelical. Não lhe podiamos mandar livros de autores com nomes russos porque podiam incitar à revolta (isto no final da década de noventa). Esteve tuberculoso. Quando saiu da prisão andou muito mal. Arrumava carros em Belém. Deixei de o ver - cheguei a ouvir rumores de que teria morrido. Soube entretanto que tinha voltado a viajar. Há cerca de um ano atrás encontrei-o: eu vinha de um encontro do partido em Alcântra, ele estava felicíssimo, morava por ali, tinha sido pai de uma menina, trabalhava num restaurante. Faz anos a 3 de Janeiro.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

... Dá que pensar ... II

As calças de ganga não são americanas!
Aquela história sobre os tipos que andavam na corrida ao ouro fazerem calças com o tecido das tendas é uma treta!
O nome Jeans, vem de Genos, isto é; de Génova - imigrantes italianos terão levado com eles o tecido*, que por sua vez teria tido origem em Nimes, França. Daí que o outro nome dado ao tecido é Denim. Apesar de ter visto isto num canal frânces, na TV5 (e toda a gente sabe como os franceses se acham o centro do mundo) acredito francamente na sua veracidade. Sempre me fez confusão essa história das lonas das tendas serem tão finas ou as calças tão grossas. Por outro lado, Nimes, salvo erro, tinha uma das maiores indústrias têxteis no início da era industrial (ainda antes da revolução francesa), salvo erro também, foi aí que apareceram os primeiros teares Jaquards (inventados pelo tal Jaquard), que estão na origem da informática (funcionam com cartões prefurados que inspiraram a aplicação do sistema binário noutras áreas), e foi aí que surgiram as primeiras manifestações do socialismo (com as organizações de fraternidade operária).
Esta história da globalização...

* uma sarja pesada (feita em teares de 3 quadros), com teia branca e trama azul. A fibra é o algodão. A mesma estrutura é usada em tecidos cuja fibra é lã (tomando muitas vezes o nome de fazenda)


De volta

Voltei depois de uma longa ausência (bloguisticamente falando).

Uma catástrofe informática distanciou-me do mundo por algum tempo. Desta vez, para variar, a culpa não foi da grande cabala do capitalismo internacional (pelo menos directamente), foi minha, toda minha. Tive uma fúria e apaguei uma montanha de arquivos, na leva foi também o ficheiro de arranque do millenium. Como na Horta ninguém tem este sistema tive de aguardar pelo meu regresso a Lisboa. E só aí é que o Jorge Maurício, a quem agradeço do fundo do coração, arranjou o bicho como quem bebe um copo de água. Já agora, assim à laia de entrega dos óscares: agradeço ao Daniel que me arranjou o W-XP, ao Manuel Gouveia pelo esforço, ao Vasco Aleixo pelas bocas foleiras.

Agora estou de volta!!E em força!!!

domingo, dezembro 05, 2004

AZULICES (Curiosidades açoreanas) VII I- Patrícia e P. Nuno


Posted by Hello

A Patrícia (alentejana) vive no Faial com o Paulo Nuno (faialense).
São dois amigos que fiz na Horta.

sábado, dezembro 04, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR XI

Alarga os teus horizontes

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem há vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas
Sobre um só ponto, e a ânsia, o ardente vórtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra à vossa sombra...
Ou que a sombra vos torna a terra toda!

(...)

Dir-se-á que o mar da vida é gota d'água
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a...
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais, temendo que não chegue!

Homens! para quem passa, arrebatado
Na corrente da vida, nessas águas
Sem limites, sem fundo - há mais perigo
De se afogar, que de morrer à sede!
De que vale disputar o espaço estreito,
Que cobre a sombra da árvore da pátria,
Quando são vossos cinco continentes?
De que vale apinhar-se junto à fonte
Que - fininha - brotou por entre as urzes,
Quando há sete mil ondas por cada homem?

(...)

De que vale concentrar-se a vida toda
Numa paixão apenas, quando o peito
É tão rico, que basta dar-lhe um toque
Por que brotem, aos mil, os sentimentos?!
Oh! a vida é um abismo! mas fecundo!
Mas imenso! tem luz - e luz que cegue.
Inda a águia de Patmos - e tem sombras
E tem negrumes, como o antigo Caos:
Tem harmonias, que parecem sonhos
De algum anjo dormido; e tem horrores
Que os nem sonha o delírio!

É imensa a vida,
Homens! não disputeis um raio escasso
Que vem daquele sol; a ténue nota,
Que vos chega daquelas harmonias;
a penumbra, que escapa àquelas sombras;
O tremor, que vos vem desses horrores.
Sol e sombras, horror e harmonias
De quem é isto, se não é do homem?!

Não disputeis, curvado o corpo todo,
As migalhas da mesa do banquete:
Erguei-vos! e tomai lugar á mesa...
Que há lugar no banquete para todos:
Que a vida não é átomo tenuíssimo,
Que um feliz apanhou, no ar, voando,
E guardou para si, e os outros, pobres,
Deserdados, invejam - é o ar todo,
Que respiramos; e esse, inda mais livre,
Que nos respira a alma - a terra firma.
Onde pomos os pés, e o céu profundo
Aonde o olhar erguemos - é o imenso,
Que se infiltra do átomo ao colosso;
Que se ocultou aqui, e além se mostra;
Que traz a luz dourada, e leva a treva;
Que dá raiva às paixões, e unge os seios
Com o bálsamo do amor; que ao vício, ao crime,
Agita, impele, anima, e que à virtude
Lá dá consolações - que beija as frontes
De povo e rei, de nobre e de mendigo;
E embala a flor, e eleva as grandes vagas;
Que tem lugar no seio, para todos;
Que está no rir, e está também nas lágrimas,
E está na bacanal como na prece!...

Antero de Quental

quinta-feira, dezembro 02, 2004

* Vermelhices (Comentários políticos) V*

A "Quinta das Celebridades" e a liberdade de expressão

É curioso, para não dizer decepcionante, verificar como a Comunicação Social Dominante (CSD), isto é; a Comunicação Social ao serviço do grande capital e, logo, da ideologia dominante (e desculpem lá os que acham que os termos são ultrapassados e demasiado conotados, mas a verdade é que ainda não foram inventadas palavras mais adequadas. E era bom que as almas mais susceptíveis reflectissem se não será a verdade, e não as palavras, que os apoquenta), subverte os factos arranjando interpretações mirabolantes sobre os acontecimentos.
Li num texto sobre teoria da comunicação, da autoria de um sujeito chamado Paul Beaud, que os noticiários televisivos deixaram de o ser. Bom, as palavras não eram bem estas, mas o sentido era. Ele dizia, em 1997!!, que o lúdico tinha substituído o puramente informativo e assim, seguindo uma velha conclusão, já tirada por Antero de Quental - "(...) não lendo ninguém senão o que lhe agrada, o público nunca favorecerá senão o que estiver à sua altura, e por isso o jornal, para durar, será sempre e necessariamente o espelho lisonjeiro do público e não o seu mestre severo. Os jornais só vivem fazendo-se os confidentes de comédia do público, das suas paixões, dos seus erros, das suas ilusões e não os seus apóstolos” -, os "grandes" media optam, em nome do dinheiro, por alimentar as ilusões de um povo que vive profundamente frustrado. Um povo ao qual patrões e governantes cinicamente pedem sacrifícios em prol de uma retoma que não vem (assim como antigamente se dava o castigo na vida em troca do paraíso na morte), ao qual é inflingida a doença, o desemprego, a miséria. E não se trata de um exagero! duzentos mil portugueses, duzentos mil!! vivem abaixo do limiar de pobreza. Não são os pobres! São os miseráveis!! duzentos mil!! Pobres serão muitos mais. Um povo a cujo magro salário se retira cerca de 20%, supostamente, para gerir e construir o país. Mas ao qual se cobram, e se apresentam como lógicas, cada vez mais elevadas taxas pela saúde, pela justiça, pela educação, pela habitação, portagens em quase todas as vias, valores elevadíssimos para a fruição cultural, etc., etc., etc. Um povo ao qual, impunes líderes partidários que reclamam maiorias absolutas em nome de teóricas estabilidades governativas, retiram a estabilidade de vida e a possibilidade de jovens poderem fixar uma casa, uma família, amigos, tudo! porque lhes ofereçem precariedade laboral embrulhada num lindo papel a que chamaram produtividade e com um laçarote baptizado de flexibilidade. Mas a esse mesmo povo mostram os media que ele só será feliz se tiver o carro x, se cheirar a y, se se vestir como z, se tiver o telemóvel w, se pagar a tempo e horas o telefone, a electricidade, o gás, se ouvir as músicas e ver os filmes que vêm empacotados dos Estados Unidos. A esse povo dizem que tudo o que se opõe a esta "belíssima" ordem é terrorista, uma aberração ou está ultrapassado.
Então, esse povo, deleita-se com telenovelas e futebol, e deleita-se com o cúmulo do culto da estupidez; um programa chamado "Quinta das Celebridades"; e com notíciários que não informam porque fornecem dados perfeitamente irrelevantes para um conhecimento alargado e aprofundado da realidade. Notíciários que repetindo um acontecimento até à exaustão e de forma promenorizada, deixam de parte outros acontecimentos e assuntos importantes, notíciários que contam apenas uma versão dos factos, ou pior, que, de forma desonesta, tentam mostrar a imparcialidade que não têm.
A liberdade de informação e de expressão não foi posta em causa porque Marcelo Rebelo de Sousa foi afastado da TVI. Ou porque José Rodrigues dos Santos se demitiu por causa de um concurso para selecção de um correspondente da RTP. A liberdade de expressão acabou no dia em que deixou de existir o direito à informação. Ela ainda existe no papel, é certo, mas também o direito à dignidade está celebrado na lei e eu olho para o lado e vejo cada vez mais gente que a perdeu.A liberdade de expressão não é uma coisa acrítica. Ela existe no quadro de uma democracia, inventada há quase trinta e um anos. Somos livres de dizer, como diz a canção, mas somos livres de poder dizer alto e de poder dizer o que sabemos e pensamos. E para sabermos e pensarmos temos de estar informados e apetrechados com o mais vasto conhecimento.
O povo vive frustrado. No dilema entre aquilo que sente e aquilo que lhe dizem que deve sentir. Entre querer ser livre e querer corresponder à imagem de sucesso que lhe impingem. Entre ouvir dizer que se pode expressar e poder efectivamente expressar-se. Entre querer ser humano e ter que corresponder à máquina que o patrão quer que ele seja. O povo já não sabe se o que está certo é a dor que lhe dilacera o peito ou a vergonha de não ser feliz - "Que força é essa amigo que te põe de bem com os outros e de mal contigo" cantou o Sérgio Godinho - .
A CSD, a propósito da dissolução da Assembleia da República e consequente queda do Governo, ao apontar as causas para o sucedido, pela voz de jornalistas e comentadores, não foi capaz, não quiz, não se atreveu, não deu importância, aos últimos anos de vida deste povo. Sampaio teria chamado Santana Lopes apenas por causa da crise interna no Governo. A história tem sido contada como se fosse o "Big Brother" ou a "Quinta das Celebridades": tudo não passa de um grande conflito que se deu entre os membros que compõem o Conselho de Ministros. Todos, ou quase todos, falam em abstracto: da crise, da estabilidade, da legitimidade, de quem vem, de quem foi. Tudo com muita opinião: a de Durão Barroso na Bélgica, a de Guterres nos EUA, de Paulo Portas (com a sua cara de pau) no Largo do Caldas, de Sampaio algures em visita caritária, de Sócrates no Largo do Rato, de João Soares ao telefone, Louçã na Assembleia da República, de Rui Rio numa reunião do PSD, de Manuel Monteiro não sei de onde, e a destoar, em 10 segundos (num total de 5 horas), Jerónimo de Sousa a lembrar, e bem, que, de futuro não podemos ter mais do memo. Imagens de Ferro Rodrigues em declarações de há quatro meses, de Santana e Cavaco em arrufos de namorados em diversos episódios. Só faltava mesmo fazerem um teledisco. Sobre as verdadeiras causas da queda do Governo? Nada!!!
A verdade é que o Governo cai porque, apesar de tanta demagogia, tanta manipulação, tanta mentira, o povo já não sustentava este governo. Quantos portugueses ficaram tristes?quantos portugueses se reconheciam neste governo? quantos achavam que este era o caminho certo para o país? A verdade é que, apesar de brando, o povo português deitou abaixo o Governo. Ou alguém realmente acredita que se as pessoas andassem satisfeitas com a política do PSD-PP o Governo ia abaixo? se o povo sentisse que, de algum modo, este era o seu governo, teria havido esta "Quinta das Celebridades"?
E a liberdade de expressão só poderá existir quando a CSD nos disser esta e outras verdades.



terça-feira, novembro 30, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR X


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A Geração dos Acampamentos


Posso sorrir
Mas terei sempre nos olhos
A sombra das flores caídas,
De um cipreste perdido
Permanecendo de pé entre os escombros das aldeias
Do meu país devastado
Envolto por amargo silêncio.

Nunca a História enjeitou um povo
Do modo como enjeitou o meu,
Oferecendo a outros a sua terra...
Espalhando os habitantes aos quatro ventos.

A minha pátria adormeceu
Para além dos lamentos no horizonte
E eu permaneço aqui
De olhos sombrios,
Não por natureza
Mas por carregarem a sombra das tendas.

Os meus lábios não são mais como os das crianças
Chamando as mães
Tornaram-se como um pão seco
Deixaram de se lamentar.

Ficarei sobre o teu chão, oh pátria
Cantarei a primavera
Gritando no rosto dos derrotistas.
O inverno trás a morte
Não vos deixei abater
Erguei os braços para a luta!

Chama-nos a bandeira
Do combate pela sobrevivência
Do combate pelo regresso.
Glória ao povo martirizado
Que enfrentando os espinhos
Faz a colheita da primavera.

Salim Jubran
( Poemas para uma pátria ocupada – Palestina)

segunda-feira, novembro 29, 2004

domingo, novembro 28, 2004

Viva o PCP!


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Elogio do Trabalho Clandestino

É bonito
Usar da palavra na luta de classes
Clamar alto e bom som pela luta das massas
Pisar os opressores libertar os oprimidos.
Árdua e útil é a pequena tarefa de cada dia
Que secreta e tenaz tece
A rede do partido sob
Os fuzis apontados dos capitalistas:
Falar mas
Escondendo o orador.
Vencer mas escondendo o vencedor.
Morrer mas
Dissimulando a morte.
Pela glória, quem não faria grandes coisas?
Mas quem as faz pelo olvido?
No entanto, o pobre que mal come senta a honra à sua mesa;
Das pequenas cabanas em ruínas
Surge a grandeza irresistível.
E a glória busca em vão Os autores do grande feito.
Saí da sombra
Por um momento
Rostos anónimos, dissimulados, e aceitai
O nosso agradecimento.

Bertolt Brecht


terça-feira, novembro 23, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR IX


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Ainda no século XIX..., desta vez com William Turner. Creio que esta pintura tenha o título de "vapor a velocidade", ou qualquer coisa do género. E creio também que esteja na National Gallery em Londres.

O Turner foi durante muito tempo o meu pintor preferido (até conhecer o Rivera, o Hundertwasser e aprofundar o meu gosto pelo Rembrandt), sempre achei que fosse um expressionista avant la lettre. É classificado como romântico e, de facto, as primeiras pinturas dele são mesmo paisagens à Constable. Mas depois foi aprofundando o estudo da luz (de modo diferente dos impressionistas franceses - uma pintura só plástica, pretensamente descomprometida na maioria dos casos) e a determinada altura (com maior evidência nas aguarelas) a pintura dele é abstracta (apenas luz e formas sintetizadas). O homem às tantas estava tão fascinado com os jogos de luz e movimento que, ao contrário dos outros românticos ingleses, passou a pintar o smog londrino (fumo e nevoeiro), isto é; os efeitos da poluição industrial, os comboios a vapor e até o incêndio de Londres. Entretanto a maior parte dos pintores românticos ingleses continuavam a fingir que a Inglaterra era uma imensa floresta de cenários belos e os românticos alemães a arrebatarem-se com o mistério e o sublime.
Turner pintava comboios.
Este deve ter sido o primeiro comboio a ser pintado: de fazer inveja a impressionistas, a futuristas e a expressionistas abstractos.

Quem estiver em Lisboa e quiser ver algumas pinturas dele pode ir até ao museu da Gulbenkian! Aproveita e vê o "Espelho de Vénus" de um pintor pré-rafaelita, Edward Burne-Jones (é lindo!)

segunda-feira, novembro 22, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR VIII

"O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter. E, se nos banhamos assim no futuro, não ficará atenuada a brutalidade informe do presente? O acontecimento não nos assalta como um ladrão, visto que é, por natureza, um Tendo-sido-Futuro. E, para explicar o próprio passado, não será a primeira tarefa do historiador procurar o futuro?"


Jean-Paul Sartre

... Dá que pensar ... I

lei 107/2001 - Lei do Património Cultural:

O Artigo 17º enuncia os critérios de classificação de um bem.
Logo à cabeça: "O carácter matricial do bem".

Para classificar como património (pai) verifica-se o carácter matricial (mãe).O pai dá o nome, mas a mãe é a referência.
Dá que pensar...

sábado, novembro 20, 2004

FALIF I

Comunicado (não parece, mas é!)

As FALIF, Forças Armadas de Libertação da Ilha do Faial, criadas no dia 8 de Setembro de 2004, apresentam-se hoje ao mundo. Ainda não descobri muito bem qual deve ser a sua principal missão, mas concerteza haverá qualquer coisa a libertar no Faial. Francamente só me lembro das baratas.Libertemos então o Faial das baratas! Não subestimemos a tarefa. Não é coisa fácil. Sei que esta é uma missão que reúne o acordo de toda a gente, mesmo aqueles que já não se chateiam muito com elas, tendo-se rendido (como no anúncio da TV sobre a assinatura da PT).Para levar adiante semelhante objectivo (deve ser mais fácil acabar com a fome no mundo) há que estudar bem o comportamento das baratas. Um estudo que não deve estar muito aprofundado. Ou talvez esteja; já inventaram coisas fantásticas, como aquelas armadilhas de plástico que têm um iscozinho que atrai as bichas, que comem aquilo e depois espalham no ninho – epá, tenho lido imensos rótulos dessas coisas no supermercado (o corredor dos insecticidas tornou-se no meu local de leitura preferido) -, ou aqueles dispositivos com um frasquinho que se ligam à electricidade e depois repelem as gajas e não prejudicam o resto. Seja como for, acho que se podia desenvolver qualquer coisa melhor. Se se investisse mais nestas coisas em vez de se investir em armas (até já vi na TV que elas resistem às armas nucleares por causa da queratina! Será que os abrigos nucleares são revestidos a queratina?)!. Eu, resolvi dar o meu contributo e vou tentar monitorizar (os cientistas gostam muito desta palavra, monitorizar. Antigamente pensava que tinha a ver com monitores) o comportamento das baratas.No meu quarto só apareceram 2 grandes (uma delas foi ontem), uma de tamanho médio, e várias minúsculas. Só uma delas é que não foi na casa-de-banho. Não admira! A casa-de-banho fica mesmo por cima da zona da cozinha que tem porta para o jardim. A cozinha é a baratolândia, aliás, era. Os simpáticos homens-para-todo-o-serviço do hotel andaram a desbaratizar. Mas infelizmente há sempre umas quantas que sobrevivem.Descobri então que elas têm medo do vento. Quando faz muito vento elas entram mais nas casas. Ontem estava muito vento e lá descobri outra XL na casa-de-banho. Gelei da cabeça aos pés, suores frios, fiquei encarquilhada, com a respiração ofegante. Lembrei-me então que sou a comandante suprema das FALIF e com determinação decidi aniquilá-la sem dó nem piedade. A primeira coisa que nos ocorre é esmagá-la com um sapato, mas estas tipas voam, e quando são XL voam na nossa direcção. O melhor é atordoá-la com uma vassoura (conselho da Luísa Branquinho que mora na Bica em Lisboa e lá também há baratas). Para uma mariquinhas como eu esmagá-las com o pé também é demasiado arrepiante (sentir debaixo do pé a queratina a esmagar-se, blerg!!). Sigo então o conselho da Sara Brás (que tem baratas na ilha da Armona, Algarve): primeiro o spray venenoso (as grandes precisam de muito) e depois é que as esmagamos ou esperamos aí umas duas horas até morrerem. Os meus colegas de casa são muito corajosos, eu dou gritinhos quando as vejo na cozinha, eles, sem alterarem as expressões, dão-lhes pontapés!!Quando morrem ficam com metade ou dois terços do tamanho original, deitam muito líquido escuro (parece óleo) e umas porcarias viscosas verdes e brancas quando são esmagadas: Um nojo!! Se não limpamos logo aquilo seca e já não saí. E até agarra bocadinhos das asas.Parece um exagero não é? Pois, mas a minha amiga Sílvia fartou-se gozar comigo, dizia que me faziam companhia, que os chineses até as comiam, etc., etc. e quando cá veio só viu os cadáveres e ficou horrorizada (e estavam muito mais pequenas!)Ainda só convenci um gajo a integrar as FALIF (nunca mais o vi. Terá sido devorado por baratas?) e tentei convencer uns quantos alunos. Mas tenho a certeza da nobreza dos objectivos e da simpatia geral. As FALIF vencerão!

A Comandante Suprema

terça-feira, novembro 16, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR VII

A liberdade custa muito caro
e temos ou de nos resignarmos a viver sem ela
ou de nos decidirmos a pagar o seu preço.

- José Marti -

AZULICES (Curiosidades açoreanas) VII


O Internacional Posted by Hello

Edifício onde fica situado um dos mais conhecidos cafés da cidade: O Internacional. Disseram-me que antes do 25 de Abril só os mais ricos da cidade o podiam frequentar. Se alguém quisesse falar com outra pessoa que estivesse no café tinha de vir para o jardim (o sítio de onde tirei a foto) e o garçon fazia de moço de recados.
À direita fica a marginal (Avª 25 de Abril).


AZULICES (Curiosidades açoreanas) VI


marina Posted by Hello

E o Pico ao fundo

AZULICES (Curiosidades açoreanas) V - Praia de Porto Pim II


Praia de Porto Pim Posted by Hello

A areia é um pouco mais escura (mudei ligeiramente as cores)


AZULICES (Curiosidades açoreanas) IV


caldeira do inferno Posted by Hello

Se o inferno é tão bonito...

ARTE DE TRANSFORMAR VI


The last of England Posted by Hello

---Dedicado ao João Lopes (o grande admirador das minhas palestras sobre arte e estética. eheheheh)---

Ford Madox Brown - The Last of England. ----
Também já vi com o nome The Last glance of England. Este pintor fez parte da chamada Confraria Pré-Rafaelita; um grupo de artistas do romantismo inglês do primeiro e segundo quartel do século XIX. Imbuídos no espírito do revivalismo medieval, estes amiguitos advogavam que a arte do período do primeiro renascimento e até Rafael (daí o nome da confraria) era a estética perfeita. E daí que as suas pinturas aludam muito aos temas e ao imaginário do renascimento italiano.

Estes sujeitos eram tão alucinados que achavam que o ideal de vida era mesmo o do medievalismo. E até viviam em comunidade e despojados de luxos como se fizessem parte de uma ordem mendicante.

Estavam associados aos pensadores do socialismo utópico destes anos, sobretudo a William Morris (o pai do chamado socialismo das guildas), o maior chanfrado deles todos (de quem espero vir a falar num próximo post).

As suas posições políticas explicam-se facilmente: estes burguesotes, como aliás os primeiros socialistas de um modo geral, achavam que a intensa exploração dos trabalhadores nos primeiros tempos da industrialização se devia ao desenvolvimento tecnológico e não às relações de produção. Por isso defendiam o retorno à época pré-industrial e ao fabrico artesanal. E também por isso tinham a pancada pela Idade Média.

Mas reacções destas eram, e por vezes ainda são, mato. Salvo erro, foi o Zola, o grande Zola, que escreveu um manifesto contra a construção da Torre Eifell, uma inédita construção em ferro que assinalava, para toda Paris e o mundo verem que a indústria tinha chegado para ficar. Também uns jovens tontos italianos, estudantes de design, nos anos 60 do século XX, acharam que fazer design industrial era venderem-se ao capitalismo. Hoje estão podres de ricos e fazem objectos fabricados em pequenas séries que só capitalistas exploradores é que podem comprar. Enfim!!

Voltemos ao Madox Brown:
Este pintor, embora fizesse parte dos pré-rafaelitas, conseguiu variar a sua temática e pintar assuntos mais próximos do realismo frânces (um movimento que teve o seu apogeu na altura da revolução de 1848). Li algures que chegou a conhecer Marx, e que o admirava. Esta pintura, uma das minhas preferidas (talvez mesmo a minha preferida do século XIX), retrata um dos maiores dramas da Inglaterra destes anos; êxodo para os EUA. A exploração na Inglaterra industrializada era tremenda. A miséria assustadora. Os EUA eram a "terra de todas as oportunidades", onde todos podiam ter um pedaço de terra, achar ouro, enriquecer (acho que vem destes tempos o culto do "self made man", da ilusão da ascenção social por conta própria, o individualismo). Então, navios e navios carregados de gente que perdeu a esperança na sua terra, lançavam-se no desconhecido.

Este quadro mostra mesmo isso. Olho para ele e sinto o frio. Um frio por fora e por dentro. Do despojamento. E ao mesmo tempo, paradoxalmente, o conforto de não ir só (o amor é um porto de abrigo, li recentemente). Os olhos do casal: ele reflecte, volta-se para dentro. Ela tem um olhar vazio, já não pensa, apenas anseia o que virá.

E o promenor que eu mais gosto; a pequena mãozita que ela agarra. Um bebé que quando crescer já não se sentirá inglês. Que não conhecerá a terra de origem, a qual será para ele tão estranha como aquela para qual ruma agora com os pais.


quinta-feira, novembro 11, 2004

Não iremos embora

Aqui
sobre vossos peitos,
persistimos .
Como uma muralha
Em vossas goelas
como cacos de vidro,
Imperturbáveis.
E em vossos olhos
como tempestades de fogo.
Aqui, sobre vossos peitos,
persistimos.
Como uma muralha.
Lavando pratos nos vossos bares,
enchendo os copos dos senhores,
esfregando negras cozinhas
para vos arrancar dos dentes
o pão dos nossos filhos.

Aqui
sobre vossos peitos,
persistimos .
Como uma muralha
Famintos. Despidos. Altivos.
Cantando versos.
Enchendo as ruas de manifestações
e os cárceres de orgulho.

Bebei o mar
porque aqui permanecemos.

Somos os guardiões
da sombra,
de laranjeiras e de oliveiras.
Semeamos ideais
como fermento.
Temos nervos de gelo,
mas fogo no coração.

Espremeremos pedras
se tivermos sede,
comeremos terra
se tivermos fome.

Mas não partiremos.

E não seremos ávidos do nosso sangue

- Tawfik Az - Zayed -
(poesia palestina de combate)


Cá estou eu!


Posted by Hello

Respondendo a algumas solicitações para colocar mais imagens no blog, e enquanto não digitalizo as fotos que tenho tirado com as máquinas descartáveis, e enquanto não tenho uma máquina digital, e enquanto não tenho dinheiro para enviar as do telemóvel para o e-mail, vai uma pequena amostra: um auto-retrato. O tratamento da imagem também não é dos melhores. Aqui não tenho nenhum programa decente para isso. Foi mesmo no Paint que fiz isto.


quarta-feira, novembro 10, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR IV

Não me deêm mais desgostos
porque sei raciocinar
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar.

António Aleixo

domingo, novembro 07, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR III

Se eu não me queimo,
Se tu não te queimas,
Se nós não nos queimamos,
Como as trevas se tornarão claridade?

- Nazim Hikmet -

quinta-feira, novembro 04, 2004

*Vermelhices (Comentários políticos) III*

Luta Estudantil

A Federação das Associações de Estudantes do Ensino Superior Particular e Cooperativo resolveu hoje, jornada nacional de luta dos estudantes do Ensino Superior, como forma de se desmarcar dos terríveis e ineficazes arruaceiros, reunir-se para discutir não sei bem o quê.
Um fulano, aparecia então a fazer declarações para a televisão. Referia que estes modelos de protesto (manifestações de rua) estavam ultrapassados e já tinham dado provas de não servirem para nada. Acrescentava que a solução passava pelas batalhas de gabinete. Ou seja; reuniões, declarações escritas, mais reuniões com pessoas importantes, cartas e faxes, mais reuniões com pessoas mesmo muito importantes, ofícios. Tudo muito limpo e muito civilizado.
Ao ver isto pensei; “das duas, uma: ou este gajo é uma besta descerebrada ou quer fazer dos colegas um bando de ignorantes amorfos”.
Para o caso da primeira hipótese ser a correcta, escrevi já uma missiva (tão ao gosto do destinatário) esclarecendo o estudante que, ao contrário das suas declarações, foram sempre as demonstrações de rua que concederam vitórias aos estudantes e a história revela isso mesmo. Só um profundo desconhecimento dos factos ou uma extrema leviandade pode levar alguém a afirmar outra coisa. Foi o forte e vasto movimento estudantil que, de 1992 a 1996 travou o brutal aumento de propinas no Ensino Superior Público (é de lembrar que a pretensão inicial do governo de Cavaco Silva era levar os estudantes e suas famílias a custear integralmente as despesas de formação). Foi depois o esmorecer dessa luta que permitiu a abertura de flancos por onde penetraram o aumento das propinas, a degradação e privatização da Acção Social Escolar, a redução da participação dos estudantes na gestão das instituições, etc., etc., etc.
E a par desse esmorecimento foi crescendo a voz desses asseados colegas que com ares de grande sapiência afirmavam que manifestações, concentrações, greves, boicotes e todas essas acções que pressupõem a participação directa dos estudantes eram contraproducentes. Eram as conferências de imprensa e as reuniões com ministros, secretários de estado e reitores que trariam grandes vitórias.
Antes, como agora, os defensores da reuniologia ministerial cometeram um erro crasso de análise (a acreditar na hipótese da ingenuidade):
1 – As reivindicações estudantis (como a dos trabalhadores e das populações) são ignoradas, não por falta de conhecimento daqueles que têm a competência para tomar decisões, mas, por inadequação das mesmas aos interesses particulares;
2 – A capacidade de diálogo dos estudantes (como a dos trabalhadores e das populações em geral) depende da força que estes têm e nunca da sua capacidade de argumentação e sensibilização de governantes;
3 - A força dos estudantes, é a força do número, da unidade, do esclarecimento, da razão, e não o carisma dos representantes ou a popularidade televisiva dos mesmos.

Mas se o estudante do Ensino Privado que eu vi na televisão é mais um daqueles que tem um problema de pele com as lutas de massas, daqueles que tem medo que o poder caia nas ruas, daqueles que acha que a democracia é a eleição por representantes dos representantes dos representantes, para decidirem em gabinetes fechados o que é realmente importante, com pessoas que mandam muito porque não foram eleitas por ninguém e contam com a ignorância geral e participação muitíssimo cívica (tão cívica, tão cívica, que nem se dá por ela) de muita gente que estupidamente acredita estar democraticamente bem entregue, então seria bom que os colegas que o elegeram abram bem os olhos: é que velha e ultrapassada é a tentativa de enganar as pessoas desta maneira! Um dos últimos dirigentes associativos do Ensino Superior Privado de quem ouvi o mesmo discurso é hoje administrador de uma grande empresa (que já foi pública), ganha 10 mil contos por mês e participa nas decisões de despedimentos de trabalhadores e reduções dos seus direitos.
Não admira que digam que as demonstrações de rua são más, incomoda-os de tão eficazes que podem ser

AZULICES (Curiosidades açoreanas) II - Praia de Porto Pim


Praia de Porto Pim 1 Posted by Hello

*Vermelhices (Comentários políticos) II*

Sobre ARAFAT

http://electronicIntifada.net
_______________________________

31 October 2004


Opinion/Editorial
THINKING BEYOND ARAFAT
Ali Abunimah, The Electronic Intifada, 31 October 2004

The grave illness of Palestinian President Yasser Arafat
has given rise to frenzied speculation about what will
happen after he is no longer on the scene. Much of this
speculation is based on the false premise that the
presence or absence of a single individual is a decisive
factor in settling a complex, century-old conflict. EI
co-founder Ali Abunimah argues that the "Arafat issue" is
a major distraction, and examines who has a vested
interest in the veteran Palestinian leader's survival.


http://electronicIntifada.net/v2/article3274.shtml
_________________________________________________

4 November 2004


Opinion/Editorial
ARAFAT'S DEPARTURE BRINGS UNCERTAINTY
Charmaine Seitz, Palestine Report, 4 November 2004

In the early hours of November 28, as dozens of
journalists, mid-rung political officials and curious
onlookers milled around outside President Arafat's
Ramallah compound speculating on the health of their
leader, one Palestinian reporter evoked critical minutes
in the shaping of early Islam. Cynically, he recalled how
the Prophet Mohammed's followers disputed the succession
only hours after he lay dead. It was an acknowledgement of
the moment's import (some believed the president had
already passed away) and impending uncertainty. From this
week's Palestine Report, Charmaine Seitz reports.

http://electronicIntifada.net/v2/article3287.shtml

For EI's BY TOPIC archive on Arafat, see:
http://electronicIntifada.net/bytopic/people/111.shtml

quarta-feira, novembro 03, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR II

TUS MANOS

Cuando tus manos salen,
amor, hacia las mías,
¿qué me traen volando?
¿por qué se detuvieron
en mi boca, de pronto,
por qué las reconozco
como si entonces, antes,
las hubiera tocado,
como si antes de ser
hubieran recorrido
mi frente, mi cintura?

Su suavidad venía
volando sobre el tiempo,
sobre el mar, sobre el humo,
sobre la primavera,
y cuando tú pusiste
tus manos en mi pecho,
reconocí estas alas de paloma dorada,
reconocí esa greda
y ese color de trigo.

Los años de mi vida
yo caminé buscándolas,
subí las escaleras,
crucé los arrecifes,
me llevaron los trenes
las aguas me trajeron,
y en la piel de las uvas
me pareció tocarte.
La madera de pronto
me trajo tu contacto,
la almendra me anunciaba
tu suavidad secreta,
hasta que se cerraron
tus manos en mi pecho
y allí como dos olas
terminaron su viaje.

Pablo Neruda