domingo, fevereiro 27, 2005

*Vermelhices (Comentários Políticos) XII*

Cidadania e Política

Texto escrito para o Arauto, o jornal da Escola Secundária Manuel de Arriaga

Os homens chegaram a um sítio, observaram as suas condições, concluíram que era um bom sítio. Traçaram uma cruz e ao fazê-lo estavam a atribuir ordem ao espaço. A partir dela rasgaram as ruas, ergueram as casas, construíram as praças. Edificaram a cidade. Mais tarde, os homens gregos chamaram polis às suas cidades e os homens romanos civitas.

Antes da cidade os homens viviam dispersos em comunidades nómadas e em pequenos aglomerados. Viviam de maneira diferente porque as suas vidas colectivas eram muito limitadas e pouco exigentes. Ao criar a cidade, para além de dar ordem ao espaço, os homens deram uma ordem à vida; tiveram de criar novas formas de conviver, tiveram que harmonizar os seus comportamentos, apuraram as regras dos seus povoados para a nova era. A essa nova dimensão da vida pública os gregos deram o nome de política e a palavra percorreu o mundo (mesmo nos sítios onde as cidades não eram polis). À era e aos povos das polis ou civitas os romanos chamaram civilização.

Hoje muitos de nós esqueceram-se que vivemos em conjunto porque precisamos uns dos outros e que é por vivermos em conjunto que evoluímos, esqueceram-se que por necessitarmos uns dos outros precisamos de encontrar forma de todos vivermos o melhor possível; respeitando-nos, ajudando-nos mutuamente, criando as melhores condições para que vida de cada um seja a melhor possível, porque o melhor para cada um é o melhor para todos e o melhor para todos é o melhor para cada um. A cidadania e a política devem ser isto.

Mas palavras são muitas vezes como o barro, moldam-se, adaptam-se, soltam bocados, agregam outros, de tal modo que a certa altura esquecemo-nos que o pote das ameixas nasceu junto com o jarrão da sala. Por diversas razões a política passou a ser mal vista; todos reconhecem que é necessária, mas muitos vêem-na como um assunto de outros e, principalmente, de oportunistas ávidos de poder. A cidadania como não sofreu esse mau uso, é mais bem acolhida, todavia, muitas vezes fica órfã. A cidadania (tal como a política) é responsabilidade de todos; todos devemos portanto levá-la como uma dimensão fundamental nas nossas vidas.



AZULICES (Curiosidades açoreanas) XIV

Posted by Hello


Para os faialenses que virem o meu blog. Sei que vai um pouco atrasado, mas como se diz por aí: mais vale tarde do que nunca! Para quem não sabe; os Encontros Filosóficos são uma iniciativa promovida pela escola e que se realizam todos os anos, sendo esta a 12ª edição. Deve-se ao principal empenho da Maria do Céu (mas também de outros professores).


sábado, fevereiro 26, 2005

*Vermelhices (Comentários Políticos) XI*

Escreva uma pergunta
Dizia o simpático cabeçalho do Microsoft Word
Pronto para me dar uma resposta.
Também um clips animado saltava e coçava a cabeça (se é que os clips podem ter cabeça)
Piscava os olhos e mirava-me como quem diz “um criado ao seu dispor”.
Lembrei-me da Odete Santos a dizer o outro dia na TV:
“Nem criados e muito menos ao dispor”.
Escrevi felicidade
Não obtive resposta.
Obviamente: o Bill Gates não faz parte da solução. Só do problema.
Na vida não temos cabeçalhos ou clips tão prestáveis
Mas temos ainda gente de carne e osso que dá o que pode e o que não pode para solucionar os problemas da nossa vida política.
O rapaz de dezoito anos não compreendia isto.
Começou por discutir connosco com o olhar acusador
Julgando-nos culpados pela sua situação: ajudar a mãe a sustentar oito irmãos com um magro salário de operário, enquanto o pai se perde no álcool.
O nosso camarada de brilho nos olhos e que trata toda a gente por tu, um tu tão sentido que nos faz sentir imediatamente irmãos, procurou explicar-lhe que não somos todos iguais. Eu, sem vocação para clips simpático fui mais dura: não nos podes responsabilizar por competências que não nos deste e não podes afirmar coisas que não sabes. Ao fim de algum tempo todo o café discutia o assunto.
O rapaz continuava a mostrar resistência. É normal. Ninguém gosta de admitir estar errado. Não gostam de o admitir frente a uma força política que querem hostilizar. Muito menos nestas coisas que se espalham e se alojam na cabeça das pessoas como uma verdade indubitável. Um axioma: Os políticos são todos iguais.
E acima de tudo não gostam de tomar consciência que essa frase tem um outro significado escondido e mais verdadeiro: Eu sou igual à imagem que faço dos políticos.
Sai do café bem satisfeita. O camarada Luís Carlos também. Os outros nem por isso. É bom, muito bom, ter a oportunidade de discutir com as pessoas. Fica sempre alguma coisa. Pode não ter sido ganho o voto. Mas aqueles não voltarão a dizer que somos iguais aos outros. Sobretudo depois de termos afirmado que independentemente das derrotas eleitorais continuamos acreditar na nossa razão.

O clips já dorme. Eu estou acordada.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

sábado, fevereiro 19, 2005

Cá estou eu outra vez!


cores e mais cores Posted by Hello

Bom, vim de armas e bagagens para esta nova morada.
Fui boicotada, censurada, ignorada e sei lá que mais pelo sapo.
De modo que republiquei todos os posts anteriores aqui, mantendo as mesmas datas. Os comentários é que não os trouxe (também eram pouquitos) mas podem ir lá vê-los se tiverem curiosidade (isto, se houver alguém que leia esta treta). A imagem como podem ver também mudou. Veremos que outras mudanças ocorrerão!


segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Lembras-te Johnny F?

Uma noite no Bairro Alto.
Seguíamos (eu, tu, a SP e a Joaninha) em direcção ao Príncipe Real.
Um grupo de raparigas de 18, 19 anos, e que eram de Sines, pediu-nos ajuda para mudar um pneu ao carro.
Eram um bocado ataditas as moças…
Pusemos mãos ao trabalho (mais eu e tu. A SP e a Joaninha iam dando umas bocas).
Com as mãos já sujas, tentávamos dar uma rápida formação política às raparigas ao mesmo tempo que explicávamos como se muda um pneu.
Num rasgo de grande inspiração mataste dois coelhos com uma cajadada. Disseste enquanto apertavas as porcas das jantes: “Na vida, como nas torneiras, a direita aperta e a esquerda liberta”.
Foi um fim de noite profícuo.

Boa sorte para as eleições da ABIC!


quarta-feira, fevereiro 09, 2005

AZULICES (Curiosidades açoreanas) XIII


Moinho do Faial Posted by Hello

AZULICES (Curiosidades açoreanas) XI


Posted by Hello

Aqui percebe-se melhor como o iate é grande!!!

AZULICES (Curiosidades açoreanas) X


Posted by Hello

Segundo o boca a boca aqui pela ilha, este é o maior iate do mundo. O mastro tem mais de 100 metros de altura. Chama-se Mirabella V.

Ocupou um bom bocado da marina e até teve direito a um securita destacado para o vigiar. O que mostra bem como a propriedade privada é protegida e a pública descurada. É que há algum tempo atrás fiquei à espera de um securita, durante horas, nas instalações dos serviços da marina. Podia ter incendiado ou roubado o sítio sem que dessem por isso .

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Os pardais

Senta-te ao pé de mim
vamos conversar
podemos olhar para os pardais
que parecem sempre felizes

podemos falar de coisas sérias
aquelas de que não nos podemos rir
porque se rirmos
deixam de ser sérias

Podemos sonhar a dois
(os sonhos ao menos
nunca são sérios)
imaginarmos um mundo melhor
para os nossos filhos e netos

Podemos partilhar sentimentos
as angústias, as emoções,
as ansiedades, as paixões,
os interesses e as desilusões

Podemos dizer disparates
inventar letras para fado
torturas para o Paulo Portas
fazer apostas descabidas

Ou podemos ficar em silêncio
num silêncio de tranquilidade
a ver os pardais
que parecem sempre felizes.


domingo, fevereiro 06, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXII

HAVEMOS DE VOLTAR

Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar

Às nossas terras
vermelhas do café
brancas do algodão
verdes dos milheirais
havemos de voltar

Às nossas minas de diamantes
puro, cobre, de petróleo
havemos de voltar

Aos nossos rios, aos nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar

À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar

À marimba e ao quissange
ao nosso Carnaval
havemos de voltar

À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar.

Agostinho Neto

*Vermelhices (Comentários Políticos) X*

Posted by Hello



No ano de 1961, angolanos rebelados do poder colonial português pegaram em catanas, invadiram prisões e destruíram interesses portugueses, dando início à luta armada. Mas a luta dos angolanos é uma luta antiga. Desde que os portugueses pisaram o território que é hoje Angola que os Kimbundus, e mais tarde Umbundus e Nianecas ofereceram resistência à ocupação. Uma resistência cuja história é feita de heroísmo, dignidade, inteligência, mas também de oportunismos e traições. A história de Angola é a história do mundo desde os "descobrimentos", das relações económicas que ao longo de séculos se foram estabelecendo e sedimentando, a história dos muitos milhões de seres humanos caçados e transportados como gado para o outro lado do Atlântico, aqueles que juntamente com degredados e índios construíram a América, a história dos que, com armas rudimentares impediram os portugueses, durante anos, de transpor o rio Cunene, é a história da astúcia de uma rainha que não se rebaixou aos holandeses, de sobas que defenderam Benguela com unhas e dentes, de um médico, poeta e comunista amado pelo seu povo, do comandante Hoji Ya Henda e do pioneiro Ngangula, é a história de uma independência que a direita (e a pretensa esquerda do PS) tardaram em aceitar e prontamente atacaram, é a história de uma das mais sangrentas e sofridas guerras da humanidade, de um país que por estar carregado de diamantes e petróleo não tem descanso, é também a história das estórias de belas mulheres, homens valentes, de danças, de embondeiros, de palancas, de welwitschias mirabilis, de marimbas e jacarés. É uma história que não se conta porque não convém, porque se transmitiu por tradição oral e não existem antropólogos, arqueólogos e historiadores com interesse ou meios para a escrever, porque está a apodrecer no arquivo histórico ultramarino, porque o seu povo ainda é maioritariamente analfabeto (58%).

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

*Vermelhices (Comentários Políticos) IX*

Posted by Hello


Hino Nacional de Angola

Oh Pátria, nunca mais esqueceremos
os heróis do 4 de Fevereiro
Oh Pátria, nós saudamos os teus filhos
tombados pela nossa independência
Honramos o passado e a nossa história
construindo no trabalho o homem novo
Honramos o passado e a nossa história
construindo no trabalho o homem novo

Angola, avante!
Revolução, pelo poder popular
Pátria unida, liberdade
um só povo, uma nação.

Levantemos nossas vozes libertadas
para glória dos povos africanos
marchemos combatentes angolanos
solidários com os povos oprimidos

Orgulhosos lutaremos pela Paz
com as forças progressistas do Mundo
Orgulhosos lutaremos pela Paz
com as forças progressistas do mundo


quarta-feira, fevereiro 02, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXI - Ainda a república

Liberdade Guiando o povo Posted by Hello


Iconografia da república ou as mamas de Mariana

Sobre o barrete frígio pouco há a dizer; ele é o mais frequente ícone da república, é um símbolo que teve origem na antiga Roma, identificando os escravos libertos por aforria. Costumava aparecer nas representações da liberdade. Teria surgido originalmente numa moeda cunhada em Roma, com o dístico Republica Liberata e foi depois amplamente difundido com a Revolução Francesa.
Do mesmo modo também os seios se tornaram atributos da república, embora com origem mais recente. João Medina refere que em 1830, depois de uma primeira representação mais idealizada (por alturas da revolução) e de uma segunda mais varonil (do tempo da I República francesa) seguiu-se uma terceira, nascida nas barricadas, e celebrizada por Delacroix no famoso quadro “Liberdade guiando o povo” (acima), que
“passou a ser, de modo inequívoco e acentuado uma mulher com seios: seios planturosos, vigorosos, seios ostensivos geralmente nus ou amplamente decotados de maneira a serem generosamente oferecidos aos olhos e à libido dos seus sequazes-admiradores-fanáticos(...)
Uma vez triunfante com a III República, Mariana sobe aos altares das «mairies» e das perfeituras, é cultuada nos nichos dos templos burocráticos, preside a tribunais e repartições públicas, reina sobre o seu povo: mas é sempre a Mulher dos Seios nus ou, pelo menos opulentos, prometidos, entremostrados ou calmamente derramados do decote onde a feminilidade e as glândulas mamárias se escondem ou recatam. Os seios funcionam doravante como o barrete frígio, definem-na essencialmente: ela é a Mulher com Seios, isto é, a Amante ou a Mãe que se oferece à fome dos seus, a protectora dos esfomeados, a ama dos deserdados, a Virgem-Mãe que, de certo modo, substitui a Virgem Maria nos altares populares. (...) os seios que a República oferece ao povo republicano são, multiplicados por dois, aquele seio maternal que, nos altares a Virgem Mãe dá ao Menino Jesus, ele mesmo símbolo da Humanidade carente, frágil, e necessitada” . Roque Gameiro estaria bem ciente desta representação da república, tanto que mais tarde seria o autor de uma litografia (de 1909 ou 10) [ver imagem do post sobre o 31 de Janeiro de 1891 – Vermelhices VII] em que “o lado «mamalhudo» da república nunca foi escamoteado, antes pelo contrário, exagerou-se o volume mamário a ponto de provocar alguma chacota, a começar pela expressão patriotismo como sinónimo popular de ostentação de seios planturosos” .
João Medina apresenta ainda de um modo esclarecedor, a visão burguesa que Gameiro teria da república:
“na sua configuração seria possível detectar uma certa dualidade da imagem que entre nós representou -, na prática, foi – a revolução portuguesa. A litografia de Roque Gameiro mostra-nos, sobre um horizonte imenso de centena e meia de reconhecíveis figuras cimeiras do Partido Republicano Português – em vésperas do 5 de Outubro, julgamo-lo -, pairando, sobre esta prole imensa de homens (...), a República Mãe, de opulentos seios: é o Povo republicano reunido, unânime e compacto em torno, e à sombra tutelar, da República portuguesa, da Mulher-Liberdade, cujo advento se espera com fervoroso messianismo, de cunho provavelmente mariânico (...) esta mulher, posta ao centro e acima do seu povo, tem a compostura e o classicismo da primitiva imagem da República de inspiração romana: é a deusa tutelar casta e forte, sem dúvida de peito descoberto, mas de túnica intacta, serena na atitude, duma grande gravidade na verticalidade como que imóvel do seu corpo. Corpo de Mulher-Deusa e não de revoltosa em cima de barricadas. Até a espada que segura e levanta com a mão direita tem um aspecto sereno. (...) não há aqui barricadas nem homens em fúria. Estas 161 figuras que Roque Gameiro, com imensa paciência, desenhou em torno da Mulher-Liberdade são burgueses bem vestidos ou fardados, gente séria, um tanto grave com ar de quem espera que o triunfo da sua causa venha por vias pacíficas e não pela força das armas. (...) nada deve à mulher do povo que Delacroix pôs em cima das barricadas, no meio de homens que combatem e gritam, morrem ou jazem feridos, no meio de destroços e isto apesar de sabermos que o 5 de Outubro triunfou após combates cruentos numa cidade riscada pela fuzilaria das armas, abalada pelo estampido dos canhões dos barcos revoltosos surtos no Tejo e do explodir dos petardos da «artilharia civil» (...). E não obstante ter vencido no meio do fogo, do sofrimento, da incerteza, da angústia e do sangue, esta revolução era precedida duma lenda de pacifismo e legalismo que sabemos inteiramente falsa, à luz do que se passou no congresso do partido reunido em Setúbal em Abril de 1909, e donde saiu um directório encarregado «por a Revolução na rua», custasse o que custasse ou seja, com evidente consciência de que a realeza só havia de baquear pela força das armas” .
Em algumas representações da república portuguesa também se encontram ramos de oliveira, que, embora não façam parte da normal da sua iconografia, a ela estão associados, representam a paz (em que cujas figuras femininas alegóricas aparecem sempre cingindo as têmporas. O ramo de oliveira associado à pomba branca – Espírito Santo – é também um antigo símbolo cristão evocativo da paz, retomado no século XX por Picasso que o difundiu, sendo depois adoptado por organizações progressistas).
A estrela de cinco pontas aparece isolada, sobre o barrete frígio ou sobre a testa da figura. É o ícone com maior número de significações simbólicas. Muitas delas são marciais. Também surge como símbolo do internacionalismo proletário (cada uma das pontas representará um dos continentes). Mas as representações das estrelas de cinco pontas sobre a testa, e mais frequentemente a de seis pontas, ou hexalfa, aludem a cultos do sol, e, estranhamente, em grande medida o culto do sol lembra o absolutismo e a monarquia. Nas representações portuguesas ela aparece invertida: os símbolos invertidos têm conotações vulgares com o mal. No caso da estrela pentagonal passa-se o mesmo, mas nessa situação costuma ser representada com os vértices unidos e inscrita num pentágono, formando o pentagrama Não é o caso. E também não me parece que de algum modo possa aludir ao mal. Mas também se sabe que a carbonária utilizava um triângulo idêntico ao da maçonaria mas invertido, e que tinha por símbolo uma estrela de cinco pontas. É pois plausível considerar que a maçonaria fizesse o mesmo, isto é, que invertesse o símbolo carbonário e se apropriasse dele.
O feixe de lictores é, do mesmo modo, um dos símbolos da república. São molhos de varas de trigo e eram usados na antiga Roma como símbolos de poder. O imperador, por exemplo, correspondia a 24 feixes, o cônsul a 12, o pretor a 6, o edil a 2. O Fascismo italiano adopta esse símbolo (donde, aliás, deriva o seu nome), no entanto para o republicanismo ele deve andar sempre associado ao barrete frígio significando a tomada de poder (lictores) pelos escravos (barretes). E apesar do uso fascista dos lictores ter gerado o abandono da sua representação por parte de muitas instituições republicanas, ela continua pontualmente a ser usada (por exemplo, no selo da República de Cuba).


terça-feira, fevereiro 01, 2005

*Vermelhices (Comentários Políticos) VIII*

Regicídio

Curioso
Muito curioso
Temos um regime que se diz reger pelos ideais da Revolução Francesa, aquela que foi um autêntico banho de sangue; uma república tomada a ferro e fogo pelos chamados “heróis da rotunda”, precedida de um regicídio. E ainda há quem venha falar nos “exageros”, na “agressividade” e “violência” do PREC, dar graças pelo 25 de Novembro, e justificar alterações constitucionais com base no argumento dos tempos conturbados que, dizem eles, felizmente foram ultrapassados.
Só mentalidades retrógradas e reaccionárias podem produzir estas afirmações.
Como se a monarquia tivesse de ser restaurada porque houve um regicídio. Como se devêssemos voltar à monarquia absolutista porque houve uma guerra civil. Como se tivéssemos que abolir os princípios do iluminismo porque existiu uma revolução francesa.
O acto fundador de um regime é sempre carregado de violência.
E não existe maior legitimidade do que a revolucionária.
Há alguém que conteste isto? Há alguém que negue que o acto constituinte não contou com o apoio activo popular? Há alguém que diga que as revisões constitucionais que se seguiram tiveram a mesma participação por parte do povo português?

As descrições do regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 são impressionantes.
O Rei D. Carlos e D. Luís Filipe são assassinados a tiro, no Terreiro do Paço, à entrada da rua do Arsenal, quando regressavam de uma longa estadia em Vila Viçosa. O rei foi aconselhado a ficar por lá devido à grande instabilidade que se vivia sob a ditadura de João Franco. As leis da censura e a carga de impostos foram dois dos aspectos que mais contribuíram para a crise política. O regicídio foi decidido depois de o rei ter despachado a ordem de prisão de dirigentes republicanos. Miguel de Unamuno diz que o assassinato do rei se impunha como uma necessidade. O rei jamais abdicaria do trono e vivia distante e desprezando o seu povo. Aprovava cegamente as decisões dos conselheiros. Centenas de pessoas esperavam a chegada do rei e fazia-se silêncio como se tratasse de uma conspiração colectiva. E assim era, pelo menos em parte. Vários homens encontravam-se estrategicamente dispostos no Terreiro do Paço para entrar em acção consoante o percurso da carruagem. Um deles era Aquilino Ribeiro. No entanto os autores do “saneamento real” foram Manuel Buiça (professor primário) e Alfredo Luís Costa (caixeiro), mortos de imediato pela polícia. João Sabino Costa (oficial de ourives), inocente, também foi morto. Estes homens foram sepultados no cemitério do Alto de S. João e nos anos que se seguiram ao regicídio as suas campas foram objecto de romarias. A bala que se destinava ao príncipe D. Manuel foi desviada, segundo reza a história, por um ramo de flores que a rainha D. Amélia segurava.
Nos meses que se seguiram, e até à implantação da república, continuou o dito clima de conspiração.

segunda-feira, janeiro 31, 2005

*Vermelhices (Comentários Políticos) VII*


Posted by Hello

O 31 de Janeiro de 1891

Muitos historiadores consideram que o republicanismo em Portugal morreu com o 5 de Outubro de 1910. O Partido Republicano vinha reunindo desde 1905 todo o tipo de opositores à ditadura de João Franco; republicanos liberais, republicanos socialistas, monárquicos liberais regeneradores e conservadores, entre outros. O partido descaracterizou-se e em 1911 até mudou de nome (de Partido Republicano Português para Partido Republicano) tornando-se um verdadeiro saco de gatos e plataforma para todo o tipo de oportunistas que visavam o poder. A primeira república foi uma verdadeira frustração para todos os que acreditavam na mudança. A título de exemplo refira-se que a constituição de 1911 não adianta uma linha sobre a estrutura económica do país. Assim, Portugal manteve-se um país dependente com uma economia agrícola (ainda com muitos traços feudais) e uma tímida indústria. O desenvolvimento capitalista não se deu e os maiores progressos registados foram na educação e na laicização do Estado (com a importante passagem das competências de registo e recenseamento da igreja para o estado). Esta laicização foi de tal forma abrupta (tendo em conta que Portugal tinha sido um país rigidamente católico, com uma população analfabeta que nunca tinha assimilado sequer os ideais do iluminismo), a partir de 1914, o clericalismo, vitimando-se e aproveitando a situação de crise e do pavor da guerra (os soldados começaram a exigir padres nas frentes) ganha terreno. Criam-se assim as condições para o conservadorismo e o fanatismo religioso (cuja principal manifestação é a ilusão colectiva de Fátima). E cresce então o integralismo lusitano de Sidónio Pais (ideologia de extrema-direita) que inspirará o Estado Novo.

Mas antes, muito antes, o republicanismo era a ideologia que inspirava os filhos das revoluções e revoltas como as do setembrismo, da Maria da Fonte e da patuleia, daqueles que acompanharam os acontecimentos de 1848 e 1871 em França; a chamada geração de setenta, que incluía o precursor do socialismo em Portugal (Antero de Quental). E essa geração andava aliada com os primeiros movimentos de assalariados agrícolas e operários industriais (também eles criadas à imagem das antigas trade unions). Um movimento pouco consolidado, como diria, mais tarde, Bento Gonçalves, mas, ainda assim, existente. Um movimento que na consequência de uma grave crise social, económica e política e com a “gota de água” do ultimatum inglês provoca, na cidade do Porto, uma primeira tentativa de implantação da república – essa sim faria juz ao barrete frígio, ao feixe de lictores e à Marianne de peito desnudado. No entanto, como disse Lenine, Portugal é o país das revoluções inacabadas.
Mas se a revolução liberal trouxe a monarquia constitucional, o 5 de Outubro o liberalismo, o 25 de Abril o capitalismo, da próxima vez chegaremos ao socialismo.
A história demonstra que os movimentos de libertação têm avanços e recuos, e para desmontar a teoria dos profetas do fim da história há que contá-la!

A Portugueza, hoje hino nacional, era uma das canções dos revolucionários do 31 de Janeiro e inclui um conjunto de estrofes que hoje não se cantam, mas que são, em minha opinião, as mais bonitas (e reparem na actualidade):

Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal de ressurgir.

Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.
Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

Antero de Quental suicidou-se a 11 de Setembro desse mesmo ano de 1891. Certamente porque, entre outras razões, a revolução fracassara.

A um poeta

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, fazei espada de combate!

Antero de Quental

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Lista de preferências sem hierarquias

- a paz
- as cerejas
- camas grandes e baixinhas
- livros de contos
- todas as cores
- olhar para o fogo
- beijar apaixonadamente
- partilhar planos
- pintar
- observar pessoas
- jogar mankala no banho
- poder lutar
- música
- música
- música
- amigos sinceros
- maçarocas assadas
- a dignidade
- defeitos confessos
- o céu estrelado
- amores-perfeitos
- o cheiro da bela-luísa
- a fraternidade
- sorrisos
- missangas
- ver a cebola a alourar no azeite
- os incorruptíveis
- olhares cúmplices entre desconhecidos
- o cheiro das maçãs
- gatos
- que me contem histórias
- organizar as prateleiras, as pastas e os papéis
- amar ao acordar
- licor de amora
- biscoitos de Azeitão
- melancia
- a festa!
- os persistentes
- cadernos novos
- fotografias velhas
- conversar com as crianças – o poema pedagógico
- o cheiro da cera no chão das casas antigas
- o sentir do dever cumprido
- conversas aparentemente inúteis na escuridão
- acampar
- a verdade
- boiar no mar
- vinho carrascão
- o cheiro do café
- o algodão
- ver o mar
- o comunismo


quinta-feira, janeiro 20, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XX

Posted by Hello


STRANGE FRUIT

Seven trees
Bearin' strange fruit
Blood on the leaves
And blood at the roots
Black bodies Swinging in the southern breeze
Strange fruit hangin'
From the poplar trees
Pastoral scene
Of the gallant south

Them big bulging eyes
And the twisted mouth
Scent of magnolia
Clean and fresh
Then the sudden smell
Of burnin' flesh

Here is a fruit
For the crows to pluck
For the rain to gather
For the wind to suck
For the sun to rot
For the leaves to drop
Here is Strange and bitter crop

Lewis Allen, Sonny White. Intrepretada por Nina Simone

segunda-feira, janeiro 17, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XIX

(a recordar o Brotas)

LIBERTÉ

Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écute ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne de rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc de journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur le champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Paul Eluard

domingo, janeiro 16, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XVIII

OBREROS MARITIMOS

En Valparaíso, los obreros del mar
Me invitaron: eran pequeños y duros
Y sus rostros quemados eran la geografia
Del Océano Pacífico: eran una corriente
Adentro de las inmensas aguas, una ola muscular,
Un ramo de alas marinas en la tormenta.
Era hermoso verlos como pequeños dioses pobres,
Semidesnudos, malnutridos, era hermoso
Verlos luchar y palpitar con otros hombres más allá del océano,
Con otros hombres de otros puertos miserables, y oirlos,
Era el mismo lenguaje de españoles y chinos,
El lenguaje de Baltimore y Kronstadt,
Y cuando cantaron “La Internacional” canté con ellos:
Me subia del corazón un himno, quise decirles:”Hermanos”,
Pero no tuve sino ternura que se me hacía canto
Y que iba con su canto desde mi boca hasta el mar.
Ellos me reconocían, me abrazaban con sus poderosas miradas
Sin decirme nada, mirándome y cantando.

Pablo Neruda


AZULICES (Curiosidades açoreanas) IX - Pico (todos os dias)

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Neve no Pico dos 1300 aos 2351m.
Há qualquer coisa nesta paisagem que não consigo expressar. É como explicar as cores a um cego. Reconhecer tão bem um sentimento e não conseguir traduzir por palavras provoca em mim a tomada de consciência de que o verbo jamais suplantará a sensibilidade. E ainda bem que assim é. Significa que em todos nós existe a rebeldia do pensamento.
Schiller tinha alguma razão quando falava na educação estética da humanidade: apurar o conhecimento sensível é educar para a crítica. Não admira que a formação artística esteja cada vez mais descurada.
Estupidamente, a única coisa que consigo dizer sobre esta imagem, e a vida que decorre tendo-a como pano de fundo, é que me lembra uma mistura entre a série Verão Azul (lembram-se? - non nos moveran!) e o Bell e Sebastião.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

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As Komunas Flamejantes actuaram, no passado dia 31 de Dezembro, no magnífico cenário do Cromeleque dos Almendres nos arredores de Évora. Entre o público deslumbrado ouviram-se exclamações e interrogações como estas: "chiça! até os menires, aqui plantados há milhares de anos, dançam!" ou "não é melhor desligar os faróis do carro antes que a bateria se lixe?", ou ainda "ó Irene, tens a certeza que estas pedras estão gravadas?".
Foi a primeira vez que este enigmático sítio serviu de palco para um concerto musical desta envergadura. Antes, apenas a Irmandade dos Maluquinhos dos Solestícios, Os Merlins do Alentejo e o Grupo-que-jura-que-se-os-extra-terrestres-nos-visitarem-hão-de-pousar-no-cromeleque entoaram cânticos, respectivamente, à Deusa Mãe, aos antepassados selvagens e aos seres-verdes-que-nos-iluminarão, naquele recinto (também não podemos garantir se os paleolíticos e os neolíticos realizaram ou não, por ali, mega-concertos de bandas que talvez se chamassem Romanos Mortos ou Veados Cantantes). Na fotografia o dueto maravilha interpreta o êxito Grândola Brunette Village.
Eis a sapiência do Engenheiro Lopes:

As Komunas Flamejantes acrescentaram mais um factor de distinção no universo da música portuguesa e na música de intervenção mundial:

Ao actuarem entre os cromeleques de Évora, as Komunas Flamejantes aliaram a arte-música à arte-monumento, e aliaram também a música à história e ao património.

As komunas flamejantes, para além do seu percuso musical feito à custa do derrube de preconceitos pseudo-intelectuais, afirmam-se como guardiãs da arte e do património português.

Tal preocupação, dedicação, e sensibilidade estética colocam-nas a um nível onde poucos chegaram.

Poucos como Giacommeti ou Fernando Lopes-Graça.

João L - Manager

quarta-feira, janeiro 12, 2005

projecto de mural par a a Festa do Avante! 2004 Posted by Hello


MUDAR DE DISCURSO

Uma prosa em verso
(dedicada à Maria do Céu e à Ana Lourido)

I
Dizem-me muitas vezes
Com preocupação
E até simpatia,
Ou com desprezo
E rancor,
Que o meu partido
Deve mudar de discurso
Sob o risco de entropia
E desaparecimento.

Dizerem-me isso
É como dizerem:
Muda o teu discurso.
O que é o mesmo
Que dizerem:
Muda o teu pensamento.

Não, não, nada disso,
Respondem,
As tuas ideias
São justíssimas,
Os teus objectivos
Generosos,
Tens é de mudar a forma,
O conteúdo é perfeito!

Alguns acrescentam:
Embora utópico,
Irrealizável.

Faço aqui um aparte:
Terão dito
Algo do género
A Jesus Cristo?
E os milhões
Que lhe prestam culto
Não acreditam
No seu apelo de mudança?

Acontece porém
Que as minhas ideias
Não são
líquido moldável
à forma de um recipiente.
São antes
Um cristal
De forma estruturada
E precisa
Em constante desenvolvimento
E segundo
Uma mesma matriz.
Não se pode moldar
Sem quebrar.

II
A forma do meu pensamento
Deve-se
Ao seu conteúdo.

O meu discurso
São as minhas ideias
E não se resume
A um enunciado simples:
Tenho uma razão de vida
Uma ideologia,
Um guia para a acção,
Como aliás,
Tem toda a gente.

Tenho-a,
De forma consciente.
E a consciência
Faz parte dela.
Cresci
No meio da maioria,
Entre aqueles
Que só têm
A sua força de trabalho
Como garantia de sustento.

Mas,
Cresci também
Perto de gente
Que me ensinou
A questionar tudo,
Tudo.
Principalmente
A apregoada imutabilidade
Da organização social,
A repetida natureza egoísta
Do ser humano,
Em suma;
O sedimentado estado
Em que uns,
Proprietários
Dos meios de produção,
Exploram os outros,
Que apenas possuem
Braços e cabeça
Para trabalhar

III
Formei-me como ser humano
Com esta massa
De experiências e ideias
Eu sou isto.

Outros crescem
Assimilando a cultura
Do individualismo
E do sucesso.

Outros crescem
Achando que um dia
A divina providência
Resolverá
Os problemas da humanidade.

Outros crescem
Convencendo-se
Que as coisas mudam
Por adaptação.

Outros crescem
Pensando que
O mundo muda
Apenas com tolerância
E boa disposição

Outros crescem
Julgando
Que tudo está bem
E que existem uns
Rancorosos,
Invejosos,
Preguiçosos,
Que exageram
O que está mal

Outros,
Muitos,
Muitos,
Talvez a maior parte,
Nem cresce,
Nem pensa:
Subsiste

IV
Eu formei-me
Como ser humano
Tomando consciência
Que não existe
Uma ordem natural
Da sociedade.

Nada é natural
Na sociedade.
Tudo é construído.
E se tudo é construído
Tudo pode ser
Reconstruído.

Como seres humanos
Ganharíamos
Muito mais,
Colectiva
E individualmente,
Com o equilíbrio das relações.

O poder de uns
Sobre outros
Sustentado na força
Ou na propriedade,
Na manipulação
E na humilhação,
Não beneficia ninguém,
Não confere sentido
À vida de ninguém,
Não torna ninguém
Mais feliz.

IV
E assim sendo,
Eu, e todos
Os que partilham
destas ideias,
Agimos
Na convicção
De que as coisas
Podem e devem mudar.

Eu,
E os que partilhamos
Estas ideias e objectivos,
Todos os dias
Pensamos
e repensamos
O caminho
Que devemos trilhar.

E todos os dias
Avaliamos
a nossa força
e os meios que temos
para romper
com o estado das coisas.

Invariavelmente concluímos
Que há que convencer
Mais e mais pessoas
Para a necessidade de mudar.
Concluímos
Que é fundamental
Engrossar fileiras.

V
Mas não é fácil,
Não é nada fácil.
A humanidade
Ainda não amadureceu.

Muitos ofuscam-se
Com o brilho de holofotes
Sobre sorridentes heróis de plástico.

Outros
Ficam embalados
Com frases e ideias
Repetidas incontáveis vezes,
Lamentando com doces vozes
A pobreza e a miséria
Enquanto outras informam,
Com disfarçado cinismo,
Que não há nada a fazer;
É o preço a pagar.
Tudo o que se podia fazer
Foi feito.

A maioria
Impressiona-se
Com os apelos
À calma e à contenção
Que marionetas,
Em fatinhos
E poses de estado,
Vão produzindo

Os seres humanos
Ainda estão imberbes,
Ainda não levantaram os olhos
Para ver os outros.
A solidariedade e o altruísmo
São valores
Que para muitos
Ainda estão desligados
Do sentido crítico
E da vigilância.
Ou seja;
Só se lembram deles
Se a caixinha de imagens
Assim o disser.

A manipulação
É imensa,
Brutal,
Tão gigantesca
Que não existe
Campo de visão
Para a alcançar
Num olhar.

Os seres humanos
Obedecem
De tal forma
À voz do dono
Que nem se dão conta
Que pisam o companheiro.

VI
E há quem nos diga:
O vosso discurso
Tem de ser atractivo,
Não podem
Usar velhas fórmulas,
Velhas propostas,
Velhas palavras.

Ah! Não!
Não podemos
Submeter a estratégia
À táctica.

Vivemos
A velha exploração,
A velha mentira,
O velho medo.
E as velhas palavras,
As velhas propostas,
As velhas fórmulas,
Continuam válidas

É certo
que a ofensiva
foi apurada.
Mas também
A nossa análise
Foi refinada.

E havendo
Outros métodos,
Outras estratégias,
Outros modos eficazes,
Sem concessões
Ao sistema da exploração,
Da vilania,
Do individualismo,
Do terror,
Da mentira,
De melhorar,
De libertar a humanidade,
Eles que se apresentem,
Que se discutam
Que se expliquem,
Que vinguem.

VII
Todos os dias
Pensamos
e repensamos
O caminho
Que devemos trilhar.

A humanidade é muito imatura
E corre o risco
De se tornar velha
Sem ter sido jovem.

É preciso
E é possível mudar.

Mais
Do que uma mudança
De discurso
O que o mundo precisa
É de muitos e bons
Amplificadores
Da nossa voz,
Gente descomprometida,
Que compreenda
Que é preciso apontar,
Denunciar,
Chamar
Os bois pelos nomes,
Apelar
E despertar as mentes,
Sem medo do pensamento dissonante,
Sem receio da discussão,
Com capacidade de afirmação
E de conquista
De mais e mais seres humanos
Dispostos a integrarem
Uma torrente de água fresca
Nesta terra seca
Em que o mundo se está a tornar.

terça-feira, janeiro 11, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XVII - Rodin III


A Bela Heulimiere Posted by Hello

A beleza para além do ideal a que me referia no texto anterior está descrita na citação que se segue. Foi extraída de um livro, “Um Estranho numa Terra Estranha”, de Robert Heinlein, que na década de sessenta obteve bastante sucesso e foi um símbolo de geração. Na história existe uma personagem, Jubal, que colecciona originais e réplicas das obras de Rodin. No trecho Jubal descreve a Ben a Bela Heulimiére:

“ (…)
- Mais uma opinião. Que é que pensas deste bronze?
Anne olhou para obra-prima de Rodin e disse lentamente:
- Quando a vi pela primeira vez, pensei que era horrível. Mas cheguei à conclusão de que ela pode ser a coisa mais bela que vi em toda a minha vida.
(…)
- Escuta-me, Ben. Qualquer pessoa pode ver uma rapariga bonita. Um artista pode olhar para uma rapariga bonita e ver a mulher em que ela se transformará. Um artista melhor pode olhar para uma mulher velha e ver a bonita rapariga que ela era. Um grande artista pode olhar para uma mulher velha, retratá-la exactamente como ela é… e forçar o espectador a ver a bonita rapariga que ela era… Mais do que isso, ele pode fazer com que qualquer pessoa com a sensibilidade de um armadilho veja que essa bela e jovem rapariga está ainda viva, prisioneira dentro do seu corpo arruinado. Pode fazer com que tu sintas a silenciosa e infinita tragédia de nunca ter existido uma rapariga que tivesse envelhecido para além dos seus dezoito anos… independentemente do que lhe fizeram as horas impiedosas. Olha para ela, Ben.”

Na antiga Grécia (período helenístico) construíam-se colunas com formas masculinas (atlantes) e femininas (cariátides). A partir do renascimento a construção deste tipo de colunas foi retomada. Rodin esculpiu uma Cariátide Caída Debaixo da Sua Pedra. No referido livro encontramos esta explicação de Jubal:

“ (…)
- E esta? Vejo que é uma rapariga. Mas porquê esborrachá-la para que ela se pareça um pretzel?
Jubal olhou para a réplica da Cariátide Caída Debaixo da Sua Pedra.
- Não espero que aprecies a quantidade de coisas que fazem desta figura muito mais que um pretzel; mas podes apreciar o que Rodin queria dizer com ela. Que é que as pessoas sentem quando olham para um crucifixo?
- Sabes que eu não vou à igreja.
- Apesar disso, deves saber que as representações da Crucificação são geralmente horríveis… e as que estão nas igrejas são as piores… sangue que parece ketchup e aquele ex-carpinteiro retratado como se fosse um homossexual… o que ele certamente não era. Era um homem robusto, saudável e musculoso. Mas uma retratação pobre é tão eficaz para a maior parte das pessoas como uma boa. Eles não vêem defeitos; vêem um símbolo que inspira as suas mais profundas emoções; recorda-lhes a Agonia e o Sacrifício de Deus.
- Jubal, pensava que não eras cristão.
- Isso faz com que eu seja cego às emoções? (…) A arte comque tal símbolo é feito é irrelevante. Aqui temos outro símbolo emocional, mas feito com arte exímia. Bem, durante três milhares de anos, os arquitectos desenharam edifícios com colunas com forma de mulher. Finalmente, Rodin chamou a atenção para o facto de isso ser um trabalho demasiado pesado para uma rapariga. Ele não disse: “Olhem, seus brutamontes, se têm de fazer isto, façam-no com uma forte figura de macho.” Não, ele mostrou-o. Esta pobre cariátide caiu sob a sua carga. Ela é uma boa rapariga: olhou para o seu rosto. Sério, infeliz pelo seu falhanço, não censurando ninguém, nem sequer os deuses… continuando a tentar erguer a sua carga, depois de ter sido esmagado por ela.
Mas ela é mais do que boa arte denunciando má arte; ela é um símbolo para todas as mulheres que alguma vez suportaram uma carga demasiado pesada. Mas não só mulheres: este símbolo significa todo o homem e toda a mulher que suaram a vida inteira com uma fortaleza de espírito resignada, até caírem debaixo dos seus fardos. Ela é coragem, Bem, e vitória.
- Vitória?
- Vitória na derrota, não há outra maior. Ela não desistiu, Ben; continua a tentar levantar a sua pedra depois de essa mesma pedra a ter esmagado. Ela é um pai que trabalha para trazer para casa mais um salário enquanto o cancro lhe consome as entranhas. Ela é uma menina de doze anos tentando ser mãe dos seus irmãos porque a mamã foi para o céu. Ela é uma operadora de um quadro de distribuição agarrada ao seu posto enquanto o fumo a sufoca e o fogo lhe corta a saída. Ela é todos os heróis não cantados que não conseguiram os seus feitos, mas que nunca desistem.”


sábado, janeiro 08, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XVI - Rodin II


O Beijo Posted by Hello

O Beijo é muito provavelmente a obra de arte que mais alude à sensualidade. O trabalho de Rodin transpira amor carnal e uma beleza física que transcende o ideal. Por reconhecer esta sensibilidade única, Isadora Duncan dançou nua para ele nos bosques de Vélizy.

No Museu do Chiado estão alguns dos seus desenhos.


ARTE DE TRANSFORMAR XV - Rodin I


O Pensador Posted by Hello

Uma das minhas ocupações mentais favoritas consiste em imaginar uma colecção de obras de arte. Uma colecção que disporia numa cidade imaginária: dentro de cafés, em escolas, em instituições públicas, teatros, cinemas, museus, estações de comboios, jardins e rotundas. O centro da cidade teria duas praças contíguas: o fórum político e administrativo e o centro lúdico e cultural. A pontuar as praças colocaria duas das melhores obras de escultura alguma vez feitas: O Pensador e O Beijo, ambas de Auguste Rodin - o escultor da alma, da razão e do amor.

Rodin alcançou grande notoriedade em vida. Lutou, como tantos outros artistas contra o preconceito, mas o seu génio vingou. Nos últimos anos da sua vida viveu cercado de caçadores de heranças. A cerca de um ano antes da sua morte decidiu doar toda a sua obra ao estado frânces. Foi abandonado. Morreu a 17 de Novembro de 1917 em Meudon, onde ainda hoje jaz sob a estátua de O Pensador.

O Caminho

Por mais que eu grite
a minha boca continua selada
Por mais que eu aponte
os meus dedos nada indicam
Por mais que eu chore
as lágrimas não vertem
Por mais que eu corra
o chão continua o mesmo

Eu que sempre fui um pássaro
hoje sinto-me uma rocha
Era ar
e desfiz-me em terra

Construí umas asas de cera
e voei na direcção do sol
despenhei-me no labirinto
e encontrei o minotauro.

Caí na minha própria armadilha
E ao invés do braço solidário
pediram-me desculpas
e ofereceram-me o chicote.

Mas não me chamo Ícaro
E não desisto:
plantarei árvores e flores pelo caminho
e assim reconhecerei os sítios por onde passar
Nada direi mas todos saberão o que quero dizer.

E encontrar-te-ei

quinta-feira, janeiro 06, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XIV - Sem Tréguas

“Os gapistas[1] nunca foram muitos: uns eram muito jovens, outros tinham atrás de si a experiência da guerra de Espanha e a severa disciplina da luta clandestina, do cárcere fascista, do desterro. Todos, no difícil momento da acção, nos dias dramáticos da acção mais violenta, quando a vida estava presa por um fio a uma denúncia, a uma rusga casual, todos, jovens e velhos, souberam encontrar força e consciência para não desistir, Antes de mais, os gapistas foram homens que amavam a vida, a justiça; acreditavam profundamente na liberdade, ansiavam por um futuro de paz, não actuavam por ambição pessoal, por oportunismo, por cálculos mesquinhos.Eram super-homens? Claro que não. Eram simplesmente homens, mas homens dominados pela vontade de não dar tréguas ao inimigo. O seu orgulho tinha raízes profundas: conscientes do sacrifício de todos os que corajosamente tinham sofrido a prisão, as perseguições, as torturas, guiavam-se pela sua grandeza e pelo seu exemplo. Sem a autoridade dos velhos militantes que tinham sofrido a prisão, o desterro e o exílio, não teria sido possível aos dirigentes exigirem dos gapistas, dos partigiani[2] a disciplina mais severa, que levava em muitos casos à morte mais trágica, nem os combatentes terem ânimo para a enfrentar. Era só orgulho e entusiasmo o espírito que deu alento aos gapistas? Era um laço de confiança mútua entre os velhos militantes e os jovens, entre os que tinham mostrado saber manter-se no rumo certo abrindo novas perspectivas e os que se inseriam numa luta que era a luta de sempre contra a prepotência, o privilégio, a escravidão. Não há dúvida que sem os antigos laços entre o presente sombrio e o passado glorioso, não teria havido guerra de libertação, não teria sido resgatada a vergonha do fascismo, «não teríamos conquistado o direito de ser um povo livre e independente».(…)
A pouco e pouco estes homens souberam juntar à sua volta outros combatentes que se lançaram com determinação no combate e lutaram com inteligência e coragem até à libertação.O relato das suas actuações não pretende ser só uma ampla citação, de episódios de guerra. Sem Tréguas contem uma lição muito profunda, tão válida hoje como ontem. É uma lição que os homens, os jovens que estiveram envolvidos em batalhas dramáticas, passaram a outros homens, a outros jovens, entregues hoje ao trabalho ou ao estudo, para que saibam lutar pelas instituições livres, a justiça, a liberdade, a democracia. Também hoje é preciso quebrar as resistências ao progresso, é preciso conquistar uma maior democracia nas fábricas e nas escolas; também hoje é preciso lutar pela paz no mundo; também hoje, afinal, é necessário lutar sem tréguas.(…)
Aos jovens cabe agora continuar no caminho certo, continuar a Resistência.”


In Giovanni Pesce
Sem Tréguas,Edições Avante!

[1] - De GAP - Grupos de Acção Patriótica
[2] - Assim se designaram os resitentes italianos da Segunda Guerra Mundial

quarta-feira, janeiro 05, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XIII

DA CONDIÇÃO HUMANA

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre
que surgimos

Ary dos Santos

ARTE DE TRANSFORMAR XII

SONETO

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.

Ary dos Santos

terça-feira, janeiro 04, 2005

Parabéns Luís

O Luís é um gajo que conheci quando tinha uns doze anos. Conheci-o na Festa do Avante! (no último ano da Ajuda), ele devia ter uns desasseis, era colega do Soviético, um amigo do bairro (que, uns anos antes, me partiu a cana do nariz com uma arma feita de pau. Todos os meus companheiros estavam prisioneiros da perigosa dupla de irmãos: o Soviético e o Chinês; eu preparei uma emboscada e na altura certa sai de trás de um arbusto gritando: mãos ao ar, larguem as armas, nada de truques! O Soviético, que sempre teve jeito para o teatro, achou que eu o estava a matar e encenou uma morte digna de um soldado; atirou-se para o chão e a arma foi pelo ar de encontro ao meu nariz). Chamavam-no Nazi porque falava alemão e era loiro-arruivado. Um tipo bestial! e engraçado! sempre em festa, sempre afável.Era o campeão a beber whisky (acho que o pai tinha um negócio de bebidas); bebia, bebia muito. Deixou de estudar e começou a trabalhar como estivador. Tinha a força de um touro. Quando eu tinha os meus quinze, desasseis anos o Luís começou a meter-se nas drogas duras. Depois resolveu fugir da tropa. Estava nas forças especiais, naquelas que se vestem de preto, cujo regimento fica lá para Lamego (acho). Ficou em minha casa alguns meses, escondido no sótão. Depois foi pela Europa, viveu em Amesterdão e acho que também esteve em França. Regressou. Voltou à rotina da heroína. Foi encontrado numa valeta por um outro amigo da Ajuda (já lá estava há alguns dias), teve uma recuperação fugaz. Foi preso. Escrevia à minha mãe, as cartas mais lindas que ela já recebeu. Tinha uma caligrafia angelical. Não lhe podiamos mandar livros de autores com nomes russos porque podiam incitar à revolta (isto no final da década de noventa). Esteve tuberculoso. Quando saiu da prisão andou muito mal. Arrumava carros em Belém. Deixei de o ver - cheguei a ouvir rumores de que teria morrido. Soube entretanto que tinha voltado a viajar. Há cerca de um ano atrás encontrei-o: eu vinha de um encontro do partido em Alcântra, ele estava felicíssimo, morava por ali, tinha sido pai de uma menina, trabalhava num restaurante. Faz anos a 3 de Janeiro.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

... Dá que pensar ... II

As calças de ganga não são americanas!
Aquela história sobre os tipos que andavam na corrida ao ouro fazerem calças com o tecido das tendas é uma treta!
O nome Jeans, vem de Genos, isto é; de Génova - imigrantes italianos terão levado com eles o tecido*, que por sua vez teria tido origem em Nimes, França. Daí que o outro nome dado ao tecido é Denim. Apesar de ter visto isto num canal frânces, na TV5 (e toda a gente sabe como os franceses se acham o centro do mundo) acredito francamente na sua veracidade. Sempre me fez confusão essa história das lonas das tendas serem tão finas ou as calças tão grossas. Por outro lado, Nimes, salvo erro, tinha uma das maiores indústrias têxteis no início da era industrial (ainda antes da revolução francesa), salvo erro também, foi aí que apareceram os primeiros teares Jaquards (inventados pelo tal Jaquard), que estão na origem da informática (funcionam com cartões prefurados que inspiraram a aplicação do sistema binário noutras áreas), e foi aí que surgiram as primeiras manifestações do socialismo (com as organizações de fraternidade operária).
Esta história da globalização...

* uma sarja pesada (feita em teares de 3 quadros), com teia branca e trama azul. A fibra é o algodão. A mesma estrutura é usada em tecidos cuja fibra é lã (tomando muitas vezes o nome de fazenda)


De volta

Voltei depois de uma longa ausência (bloguisticamente falando).

Uma catástrofe informática distanciou-me do mundo por algum tempo. Desta vez, para variar, a culpa não foi da grande cabala do capitalismo internacional (pelo menos directamente), foi minha, toda minha. Tive uma fúria e apaguei uma montanha de arquivos, na leva foi também o ficheiro de arranque do millenium. Como na Horta ninguém tem este sistema tive de aguardar pelo meu regresso a Lisboa. E só aí é que o Jorge Maurício, a quem agradeço do fundo do coração, arranjou o bicho como quem bebe um copo de água. Já agora, assim à laia de entrega dos óscares: agradeço ao Daniel que me arranjou o W-XP, ao Manuel Gouveia pelo esforço, ao Vasco Aleixo pelas bocas foleiras.

Agora estou de volta!!E em força!!!

domingo, dezembro 05, 2004

AZULICES (Curiosidades açoreanas) VII I- Patrícia e P. Nuno


Posted by Hello

A Patrícia (alentejana) vive no Faial com o Paulo Nuno (faialense).
São dois amigos que fiz na Horta.

sábado, dezembro 04, 2004

ARTE DE TRANSFORMAR XI

Alarga os teus horizontes

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem há vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas
Sobre um só ponto, e a ânsia, o ardente vórtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra à vossa sombra...
Ou que a sombra vos torna a terra toda!

(...)

Dir-se-á que o mar da vida é gota d'água
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a...
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais, temendo que não chegue!

Homens! para quem passa, arrebatado
Na corrente da vida, nessas águas
Sem limites, sem fundo - há mais perigo
De se afogar, que de morrer à sede!
De que vale disputar o espaço estreito,
Que cobre a sombra da árvore da pátria,
Quando são vossos cinco continentes?
De que vale apinhar-se junto à fonte
Que - fininha - brotou por entre as urzes,
Quando há sete mil ondas por cada homem?

(...)

De que vale concentrar-se a vida toda
Numa paixão apenas, quando o peito
É tão rico, que basta dar-lhe um toque
Por que brotem, aos mil, os sentimentos?!
Oh! a vida é um abismo! mas fecundo!
Mas imenso! tem luz - e luz que cegue.
Inda a águia de Patmos - e tem sombras
E tem negrumes, como o antigo Caos:
Tem harmonias, que parecem sonhos
De algum anjo dormido; e tem horrores
Que os nem sonha o delírio!

É imensa a vida,
Homens! não disputeis um raio escasso
Que vem daquele sol; a ténue nota,
Que vos chega daquelas harmonias;
a penumbra, que escapa àquelas sombras;
O tremor, que vos vem desses horrores.
Sol e sombras, horror e harmonias
De quem é isto, se não é do homem?!

Não disputeis, curvado o corpo todo,
As migalhas da mesa do banquete:
Erguei-vos! e tomai lugar á mesa...
Que há lugar no banquete para todos:
Que a vida não é átomo tenuíssimo,
Que um feliz apanhou, no ar, voando,
E guardou para si, e os outros, pobres,
Deserdados, invejam - é o ar todo,
Que respiramos; e esse, inda mais livre,
Que nos respira a alma - a terra firma.
Onde pomos os pés, e o céu profundo
Aonde o olhar erguemos - é o imenso,
Que se infiltra do átomo ao colosso;
Que se ocultou aqui, e além se mostra;
Que traz a luz dourada, e leva a treva;
Que dá raiva às paixões, e unge os seios
Com o bálsamo do amor; que ao vício, ao crime,
Agita, impele, anima, e que à virtude
Lá dá consolações - que beija as frontes
De povo e rei, de nobre e de mendigo;
E embala a flor, e eleva as grandes vagas;
Que tem lugar no seio, para todos;
Que está no rir, e está também nas lágrimas,
E está na bacanal como na prece!...

Antero de Quental

quinta-feira, dezembro 02, 2004

* Vermelhices (Comentários políticos) V*

A "Quinta das Celebridades" e a liberdade de expressão

É curioso, para não dizer decepcionante, verificar como a Comunicação Social Dominante (CSD), isto é; a Comunicação Social ao serviço do grande capital e, logo, da ideologia dominante (e desculpem lá os que acham que os termos são ultrapassados e demasiado conotados, mas a verdade é que ainda não foram inventadas palavras mais adequadas. E era bom que as almas mais susceptíveis reflectissem se não será a verdade, e não as palavras, que os apoquenta), subverte os factos arranjando interpretações mirabolantes sobre os acontecimentos.
Li num texto sobre teoria da comunicação, da autoria de um sujeito chamado Paul Beaud, que os noticiários televisivos deixaram de o ser. Bom, as palavras não eram bem estas, mas o sentido era. Ele dizia, em 1997!!, que o lúdico tinha substituído o puramente informativo e assim, seguindo uma velha conclusão, já tirada por Antero de Quental - "(...) não lendo ninguém senão o que lhe agrada, o público nunca favorecerá senão o que estiver à sua altura, e por isso o jornal, para durar, será sempre e necessariamente o espelho lisonjeiro do público e não o seu mestre severo. Os jornais só vivem fazendo-se os confidentes de comédia do público, das suas paixões, dos seus erros, das suas ilusões e não os seus apóstolos” -, os "grandes" media optam, em nome do dinheiro, por alimentar as ilusões de um povo que vive profundamente frustrado. Um povo ao qual patrões e governantes cinicamente pedem sacrifícios em prol de uma retoma que não vem (assim como antigamente se dava o castigo na vida em troca do paraíso na morte), ao qual é inflingida a doença, o desemprego, a miséria. E não se trata de um exagero! duzentos mil portugueses, duzentos mil!! vivem abaixo do limiar de pobreza. Não são os pobres! São os miseráveis!! duzentos mil!! Pobres serão muitos mais. Um povo a cujo magro salário se retira cerca de 20%, supostamente, para gerir e construir o país. Mas ao qual se cobram, e se apresentam como lógicas, cada vez mais elevadas taxas pela saúde, pela justiça, pela educação, pela habitação, portagens em quase todas as vias, valores elevadíssimos para a fruição cultural, etc., etc., etc. Um povo ao qual, impunes líderes partidários que reclamam maiorias absolutas em nome de teóricas estabilidades governativas, retiram a estabilidade de vida e a possibilidade de jovens poderem fixar uma casa, uma família, amigos, tudo! porque lhes ofereçem precariedade laboral embrulhada num lindo papel a que chamaram produtividade e com um laçarote baptizado de flexibilidade. Mas a esse mesmo povo mostram os media que ele só será feliz se tiver o carro x, se cheirar a y, se se vestir como z, se tiver o telemóvel w, se pagar a tempo e horas o telefone, a electricidade, o gás, se ouvir as músicas e ver os filmes que vêm empacotados dos Estados Unidos. A esse povo dizem que tudo o que se opõe a esta "belíssima" ordem é terrorista, uma aberração ou está ultrapassado.
Então, esse povo, deleita-se com telenovelas e futebol, e deleita-se com o cúmulo do culto da estupidez; um programa chamado "Quinta das Celebridades"; e com notíciários que não informam porque fornecem dados perfeitamente irrelevantes para um conhecimento alargado e aprofundado da realidade. Notíciários que repetindo um acontecimento até à exaustão e de forma promenorizada, deixam de parte outros acontecimentos e assuntos importantes, notíciários que contam apenas uma versão dos factos, ou pior, que, de forma desonesta, tentam mostrar a imparcialidade que não têm.
A liberdade de informação e de expressão não foi posta em causa porque Marcelo Rebelo de Sousa foi afastado da TVI. Ou porque José Rodrigues dos Santos se demitiu por causa de um concurso para selecção de um correspondente da RTP. A liberdade de expressão acabou no dia em que deixou de existir o direito à informação. Ela ainda existe no papel, é certo, mas também o direito à dignidade está celebrado na lei e eu olho para o lado e vejo cada vez mais gente que a perdeu.A liberdade de expressão não é uma coisa acrítica. Ela existe no quadro de uma democracia, inventada há quase trinta e um anos. Somos livres de dizer, como diz a canção, mas somos livres de poder dizer alto e de poder dizer o que sabemos e pensamos. E para sabermos e pensarmos temos de estar informados e apetrechados com o mais vasto conhecimento.
O povo vive frustrado. No dilema entre aquilo que sente e aquilo que lhe dizem que deve sentir. Entre querer ser livre e querer corresponder à imagem de sucesso que lhe impingem. Entre ouvir dizer que se pode expressar e poder efectivamente expressar-se. Entre querer ser humano e ter que corresponder à máquina que o patrão quer que ele seja. O povo já não sabe se o que está certo é a dor que lhe dilacera o peito ou a vergonha de não ser feliz - "Que força é essa amigo que te põe de bem com os outros e de mal contigo" cantou o Sérgio Godinho - .
A CSD, a propósito da dissolução da Assembleia da República e consequente queda do Governo, ao apontar as causas para o sucedido, pela voz de jornalistas e comentadores, não foi capaz, não quiz, não se atreveu, não deu importância, aos últimos anos de vida deste povo. Sampaio teria chamado Santana Lopes apenas por causa da crise interna no Governo. A história tem sido contada como se fosse o "Big Brother" ou a "Quinta das Celebridades": tudo não passa de um grande conflito que se deu entre os membros que compõem o Conselho de Ministros. Todos, ou quase todos, falam em abstracto: da crise, da estabilidade, da legitimidade, de quem vem, de quem foi. Tudo com muita opinião: a de Durão Barroso na Bélgica, a de Guterres nos EUA, de Paulo Portas (com a sua cara de pau) no Largo do Caldas, de Sampaio algures em visita caritária, de Sócrates no Largo do Rato, de João Soares ao telefone, Louçã na Assembleia da República, de Rui Rio numa reunião do PSD, de Manuel Monteiro não sei de onde, e a destoar, em 10 segundos (num total de 5 horas), Jerónimo de Sousa a lembrar, e bem, que, de futuro não podemos ter mais do memo. Imagens de Ferro Rodrigues em declarações de há quatro meses, de Santana e Cavaco em arrufos de namorados em diversos episódios. Só faltava mesmo fazerem um teledisco. Sobre as verdadeiras causas da queda do Governo? Nada!!!
A verdade é que o Governo cai porque, apesar de tanta demagogia, tanta manipulação, tanta mentira, o povo já não sustentava este governo. Quantos portugueses ficaram tristes?quantos portugueses se reconheciam neste governo? quantos achavam que este era o caminho certo para o país? A verdade é que, apesar de brando, o povo português deitou abaixo o Governo. Ou alguém realmente acredita que se as pessoas andassem satisfeitas com a política do PSD-PP o Governo ia abaixo? se o povo sentisse que, de algum modo, este era o seu governo, teria havido esta "Quinta das Celebridades"?
E a liberdade de expressão só poderá existir quando a CSD nos disser esta e outras verdades.