quarta-feira, abril 12, 2006

ARTE DE TRANSFORMAR XLI

A vida não é uma brincadeira.
Leva-a- a sério
como faz o esquilo, por exemplo,
sem nada esperares
de fora ou no além.
Tens apenas que viver.

A vida não é uma brincadeira.
Leva-a a sério,
mas tão a sério
que, posto contra a parede, por exemplo, de mãos atadas,
ou dentro de um laboratório
de bata branca e óculos grandes,
morras para que outros vivam,
outros de quem nunca verás o rosto,
e morras sabendo
que nada é mais belo, nada é mais verdadeiro do que a vida

Leva-a- a sério,
mas tão a sério
que aos setenta anos, por exemplo, plantarás oliveiras
não para as deixares aos teus filhos
mas porque embora a temas
não acreditas na morte
e sabes que a vida tem mais peso.

- Nazim Hikmet -

terça-feira, abril 11, 2006

orquídeas, gravitações e cicatrizações

"...
and when she sees his words and reads
she thinks of him"


... E ele? Calou-se depois de as escrever?
E só as teria dito? ou também as teria pensado?
E só as teria pensado? ou também as teria sentido?

Tudo foi maior do que esse sopro de uma noite.
As gravitações em torno dela deram lugar aos empurrões na concha dele.

Ele disse que cicatrizava. E ela?

"Dicen que no tengo duelo Llorona

porque no me ven llorar.

Hay muertos que no hacen ruido, llorona
y es más grande su penar."

As orquídeas continuam a florir

quarta-feira, abril 05, 2006

informação de última hora

sexta-feira, março 10, 2006

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXIX*

Dizia Zita Seabra, esse paradigma da coerência, da assertividade e da lealdade, na sua página quinzenal na revista, também ela maravilhosa, Vidas (para quem não sabe, é a que sai aos domingos com o Correio da Manhã) – e que eu só leio porque o meu avô a compra e a minha mãe traz para casa - , que: 1 - a “coisa” era atacada por todos os candidatos; 2 - os candidatos que não tinham hipótese de chegar a Belém tinham a vida facilitada porque podiam extravasar no seu discurso as competências do PR; 3 – falar do deficit era extravasar as competências do PR; 4 – aceitava que a “coisa” só percebia de finanças e acrescentava que “ (…) no entanto, lamentavelmente, o país está cansado de promessas, de belos discursos sem conteúdo, e quer que se acabe com este pesadelo de vermos a situação nacional agravar-se até chegarmos à insustentabilidade onde nos encontramos presentemente.”; 5 – se concebia o país e os candidatos “como se tratasse de uma espécie de luta entre o verbo e a verba, em que se considera analfabeto quem sabe de verbas e culto quem domina o verbo!”; 6 – achava que não devia ser presidente quem não lesse todos os dias o Financial Times ou o Spectator uma vez por semana, ou quem não tivesse um computador portátil e, acrescentava, não o usasse nas viagens (e eu a achar que era perigoso ligar os computadores nos aviões). Isto dizia ela a propósito da cultura sob o seu ponto vista (“tem muito que se lhe diga”); 7 – tinha um genro que ia trabalhar todas as semanas para a Suécia e voltava para trabalhar em Portugal. Finalizava lembrando que se ia eleger um Presidente para os próximos cinco anos.

Demorei algum tempo a perceber que aquilo era um texto de apoio à “coisa”. Sobretudo devido a esta questão da importância não extravasar as competências trazendo para o debate as questões financeiras, coisa que os outros candidatos que não percebiam de finanças andavam a fazer, enquanto que o candidato que só percebia de finanças e tinha a cultura do Financial Times e do Google não o fazia. E para além de não falar de finanças, o candidato não falava de praticamente nada (e estava no seu direito pois então! Agora um candidato tem que andar para aí a dizer o que vai fazer se for eleito, não?) o que, por revanchismo, teria levado a este problema da cultura (ou da falta dela).

E assim arrumava ela o problema. Um candidato assim é o que se quer. Podia ser presidente daqui ou do Japão. Podia até mesmo, ser presidente de Portugal e viver na Jamaica. Tudo passa pela banda larga. Ler o Financial Times, O Spectator e ter um computador portátil é o que se espera. Nem precisava de ser português (que limitação tão estúpida essa!). Podia ser o Bush, porque não? Será que lê o Financial Times todos os dias? Em última análise até podia mesmo ser um robot (programado para tratar de finanças, mas que não seria usado porque não seria essa a sua competência). Constituição da República Portuguesa? Defesa da soberania nacional? Valorização da nossa riquíssima cultura, tão ameaçada pela “globalização”? Profundo conhecimento dos problemas dos que mais afligem os portugueses? Se vem no Google muito bem, se não, é coisa “muito datada”.

Tudo parecia bater certo. No entanto, só para experimentar este cibernético modelo de presidente, fui ver se no Google havia alguma coisa sobre Os Lusíadas. E não é que havia mesmo! Mais do que uma edição electrónica! Bom, fiquei então de pé atrás: se vem no Google como é que a “coisa” não sabe quantos cantos tem?

Acalmei-me. A leitura do Financial Times e do Spectator, mais o nervosismo de ligar e desligar computadores nas viagens de avião, não deve libertar tempo para essas coisas tão “datadas”.

Pensava eu que a “coisa” ia tomar posse por e-mail, que só quem estive ligado à net é que seria convidado a participar na cerimónia e que essa seria transmitida em vídeo-conferência, quando vejo passar pelo portão escancarado do “velhinho” palácio de Belém o eleito, de mão dada com toda a sua família. Tudo com um ar tão tradicional, tão “boas famílias” portuguesa, tão comovente que certamente terá provocado lágrimas nos olhos de muitas velhinhas que nunca viram o ecrã de um computador. Um espectáculo que me lembrou aqueles cartazes da Lição de Salazar, do “orgulhosamente sós”, “pobrezinhos mas honrados”, “respeitadores dos bons costumes”, e “a bem da nação”, claro está.

Ó Zita! Olha que a bota não bate com a perdigota!

Se a “coisa” só sabe de finanças e vai para a presidência; se durante a campanha andava reservado e agora faz espectáculo; se balbucia que vai cumprir a Constituição e chega à presidência da república com tanta pompa como se fosse ser coroado; é bom que, quem não abriu o olho se mexa antes que seja tarde.

A mim irrita-me ter que levar com as consequências da estupidez eleitoral dos outros. Pior ainda é ter que ouvir o povinho a queixar-se e depois a comprar a revista Caras para ver a tomada de posse desta “coisa”.

Depois não digam que não avisei.

quarta-feira, março 08, 2006

ARTE DE TRANSFORMAR XL - a propósito do Dia da mulher


video

Victor Manuel
El club de las mujeres muertas


A las que se rebelan, no se callan
las humildes y las mansas
las que imaginan cosas imposibles
el derecho a ser felices
 
A las que viven solas pisoteadas
las que ya no esperan nada
a las desamparadas olvidadas
a las que caen y se levantan
 
Cuantas vidas humilladas
cuantas lágrimas calladas
lo más triste es la
 tristeza
en el club de las mujeres muertas
 
A veces porque miran, porque callan
porque piensan se delatan
a veces porque cuentan, por que lloran
o porque no entienden nada
 
Hay quien perdona todo a quien las mata
por un beso, una mirada
hay quien lo espera todo, de quien aman
y no pierden la esperanza
 
Cuantas vidas humilladas...
 
Quemadas, arrastradas por los pelos
torturadas, devastadas
violadas legalmente, apuñaladas
algún juez las mira y pasa
 
Dicen que tienen celos y se nublan
que no saben lo que hicieron
y cuando beben dicen no ser ellos
yo soy yo más este
 infierno
 
Cuantas vidas humilladas...

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXVIII*

"A consciência de classe é uma forma superior de cultura"
José Casanova num debate sobre os 75 anos do Avante! no CT da Amadora

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXVII* Um dia no país real ou Quanto custa ser cidadão

ESPERAS E DESESPEROS

No momento em que escrevo estou sentada numa gelada cadeira de metal aguardando ser atendida na Segurança Social da Amadora. Hesito em ir à casa-de-banho. Estive lá há uma hora e meia atrás e o chão enlameado provocou-me um certo asco. Olho entretanto para o painel luminoso. Vai no 962. São 15h50 e estou aqui desde as 12h30. A minha senha é a 971. Sou uma sortuda. Beneficiei da senha de uma desistente, que esperava desde as 9h30 para ser atendida. Às 12h35 deixaram de as distribuir. Alguns dos meus companheiros de sala estão aqui desde as 9h00. Hoje é o meu dia de folga. Viva a folga! Gozo-a entre homens e mulheres ansiosos por alcançar a merecida reforma, gente de fraquíssimos rendimentos com crianças penduradas nas pernas e no pescoço, homens inválidos em consequência de acidentes de trabalho e desempregados de olhos tristes.

A raiva desta gente aqui plantada volta-se contra as funcionárias, entre elas duas estagiárias, que se desdobram na tentativa de satisfazer as expectativas de cada pessoa sentada à sua frente. Muitos desses esforços: os das funcionárias e o dos utentes serão em vão – A Segurança Social Portuguesa vive um valente aperto financeiro resultante da gula capitalista que tem o dom de tudo transformar em mercadorias e negócio. Assim, nos últimos anos, o conceito de solidariedade social perdeu o seu lugar na república e a garantia de sustento nas situações de desemprego, invalidez, doença, miséria e velhice desapareceu. Agora, quem tem algum dinheiro faz os seguros de vida ou de saúde num qualquer banco ou seguradora que os vende como banha da cobra. As repartições do estado passaram a ser uma espécie de reedição da Santa Casa da Misericórdia ou da Assistência aos Pobres. Não há solidariedade. Há caridade.

Caridade que raras vezes foi ou é gratuita. Antes era feita em troca do perdão divino e de um lugar no céu. Hoje serve para reduzir os impostos e acalmar a fúria das massas. Até quando?

O PAPEL ESTÁ CARO

De manhã passei na “loja do cidadão”. Uma instituição que só faz sentido em países como o nosso: atolados em burocracia. Três assuntos levaram-me a tal lugar: a renovação do BI, a necessidade do Registo Criminal e as informações da Segurança Social. Depois de duas horas na referida “loja” senti-me roubada. Tive a sensação que mais um par de horas e sairia despida. Pior do que a burocracia só mesmo o custo da burocracia.

Para renovar o Bilhete de Identidade (BI) paguei 7,05 euros pelos impressos e requerimentos mais 4,5 euros pelas fotografias. No total 11,55 euros! Em moeda antiga são 2310 escudos! Um documento obrigatório que atesta a nossa existência fica-nos em 2310 escudos. São cerca de 3% do salário mínimo nacional, o montante diário para quem aufere esse rendimento e que, diga-se de passagem, é a uma grande parte da população. Se não pagarmos este valor não podemos ter BI. Se não pagarmos este valor não somos cidadãos portugueses de plenos direitos. Não basta nascer em Portugal filhos de pais portugueses. É preciso ter pelo menos 7,05 euros!

Pelos meus cálculos, todos os dias renovam o BI cerca de 44 000 pessoas. A multiplicar pelos 7,05 euros são 310.200 euros que o Registo Civil arrecada por dia. Verba que não só paga os custos da própria emissão do BI, como os seus funcionários, custos de funcionamento e ainda, certamente, um chorudo salário a um qualquer director-geral que se passeia de lamborghini e janta em restaurantes de luxo.

Depois do assalto no Registo Civil fui novamente roubada no Registo Criminal.

Desde o ano 2000 que todos os anos preciso de fazer prova de que não sou criminosa. É o que custa ser professora contratada. De cada vez que sou colocada lá tenho que entregar uma cópia do Registo Criminal e um Atestado de Robustez Física. O pessoal de carreira pode cometer crimes e andar tuberculoso que ninguém lhes tira o emprego, os do sector privado, também. Contratado do público é que tem de dar provas que tem a ficha limpa e é saudável.

Tudo isto seria aceitável não fosse ter de pagar 3,5 euros pela merda do papel. 700 paus por um papel que diz “Nada Consta”. Um papel que saiu por uma impressora, 20 segundos depois de um sujeito digitar o meu nome. 700 paus! O ano passado paguei 2,5 euros. 500 escudos. Em apenas um ano o papelinho do “Nada Consta”, imprescindível para eu poder dar aulas, aumentou 1 euro, 200 escudos. No meu primeiro contrato, em 2000, o custo desse mesmo papel foi de 250 escudos. Em 6 anos a folha de papel aumentou quase 200%.

Como se não bastasse ainda terei de pagar 5 euros pelo contrato, fora a taxa moderadora da consulta que terei de fazer para que me seja passado o dito atestado. Isto se o médico não se lembrar de me mandar fazer um micro e umas análises se me pegar de ponta. Médico a que apenas recorro por causa destes malditos atestados.

ENTRE O SUBSÍDIO E O ESTÁGIO

Falta esclarecer o que fui fazer à Segurança Social.

Como qualquer pessoa em busca de emprego, não fico à espera de uma resposta para me candidatar a um lugar. De modo que, depois de ter finalizado um curso de quatro meses, e não tendo ainda sido chamada para o ensino, lancei-me em busca de emprego na minha área de formação, o design.

Andava eu nisto, quando fui chamada para fazer uma substituição de um mês, eventualmente mês e meio, dois. Lá tive que aceitar a colocação, mas sem outra alternativa, farta de me sentir usada pelo ministério de Educação que trata os professores contratados como fraldas descartáveis; usa-nos; caga-nos e deita-nos fora. Dois dias depois fui a uma entrevista e o director artístico da empresa diz-me que gostou muito do meu portfolio, que está interessado em que eu faça um estágio de 3 meses não remunerado. Eu, que quero deixar este sistema educativo ingrato mas que não tenho experiência no design e que sei, que se a não adquirir nos próximos tempos, bem posso dizer adeus à profissão, achei que a proposta de estágio não remunerado não era má. Acontece que não vivo sem comer. Acontece também que o estágio não ficaria à espera que eu terminasse o contrato.

Fui então à segurança social saber se perderia direito ao subsídio de desemprego se rescindisse o contrato para aceitar o estágio de três meses. Até nem me importaria de ficar sem o subsídio durante o período em que este durasse.

Parecia-me lógico que era mais vantajoso para o sistema que eu melhorasse as minhas habilitações e a minha experiência de modo a obter emprego mais facilmente do que ter emprego por um mês, perder a oportunidade do estágio, e voltar a viver do subsídio de desemprego.

No entanto, na Segurança Social, o funcionário, muito compreensivo, lá me dizia que as coisas eram assim, se rescindia contrato, mesmo que fosse para aceitar outra oferta de emprego, para um contrato mais extenso, perdia o direito ao subsídio desemprego quando voltasse a ficar desempregada. À socapa sugeriu-me que metesse baixa na escola para ir fazer o estágio.

A resposta não me satisfez e lá me fui enfiar na Segurança Social da Amadora onde, depois de horas, reiteraram o que disse o primeiro funcionário.

Neste país, a legislação de controlo dos desempregados cada vez mais se assemelha à prisão domiciliária e esquece que a precariedade é o prato do dia. Não nos é permitido desistir de um emprego em favor de outro mais vantajoso. Se rescindimos um contrato de dois meses para aceitarmos um de seis, ao fim dos seis meses perdemos o direito ao subsídio de desemprego.

E assim fiquei eu; indecisa entre abdicar do subsídio de desemprego em favor de um estágio que me pode dar a oportunidade de enveredar pelo design ou manter-me com o subsídio e perder o estágio.

O que escolheriam vocês? Poder comer agora e possivelmente passar fome no futuro ou passar fome agora e eventualmente saciar a fome no futuro?

quinta-feira, janeiro 05, 2006


A minha alma está em êxtase. Anseio o dia 17 de Fevereiro como a noiva que aguarda o casamento. A razão? Frida em Lisboa.
A Marta disse-me por volta das 17h30 e desde então não voltei a ser a mesma.

17 de Fevereiro a 14 de Maio 2006
de Terça-feira a Domingo, das 10h às 19h
Grande Hall do Centro de Exposições do CCB

"51 anos após a sua morte, Frida Kahlo (1907-1954) continua a exercer um enorme fascínio pela sua arte controversa, os seus amores difíceis e o seu sofrimento físico. Depois da Tate Modern de Londres e da Fundación Caixa Galicia, em Santiago de Compostela, é a vez de Lisboa receber a maior e mais completa exposição sobre Frida Kahlo realizada nas últimas décadas, com obras provenientes do Museu Dolores Olmedo, no México a colecção mais importante que existe no mundo sobre a genial artista mexicana.
Entre 1926, quando pintou o seu primeiro auto-retrato, e a sua morte em 1954, Kahlo produziu cerca de 200 imagens. A sua relação com o muralista Diego Rivera, com quem casou, constituiu o lançamento inicial da sua carreira, que no entanto se consolida pela sua força e qualidade."

Claro que se vão esquecer de sublinhar a militância política. Vão referir ao de leve que era comunista. Frisarão que foi amante de Trotski e não dirão que morreu stalinista. Talvez mesmo ignorem que foi uma grande defensora dos valores da paz.
Não importa. Depois dos acepipes e atropelos da inauguração da exposição lá estarei eu à porta do CCB, pronta a devorar com os olhos os originais da minha grande camarada. Quem quiser junte-se a mim...

quarta-feira, janeiro 04, 2006

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXVI* O derrame da besta

Sharon sofreu um derrame cerebral.
Mas esta criatura (que nem homem chega a ser) já está muito habituada a derrames: aqueles que provocou e resultaram em lagos de sangue sobre a terra palestina.
Veja-se a biografia da besta.
Será desta que encontra a terra prometida?

PREOCUPAÇÕES MAIORES

Qual é a forma do céu?

terça-feira, dezembro 27, 2005

Onde pára o riso?

"Eu não quero mais mentir /Usar espinhos que só trazem dor /Eu não enxergo mais o inferno/Que me atraiu /Dos cegos do castelo me despeço e vou /A pé até encontrar /Um caminho /O lugar /Pro que eu sou /
Eu não quero mais dormir /De olhos abertos me esquenta o sol /Eu não espero que um revólver venha explodir /Na minha testa se anunciou
A pé a fé devagar /Foge o destino do azar que restou..." Titãs (Os cegos do castelo)


Molhar os pés em água fria é bom.

Ler um bom livro também.

Ovos moles.

Ouvir música, dançar.

“São as pequenas coisas que se ama que nos fazem felizes”

“Aproveita”

“Aproveita”

“Aproveita cada segundo da tua vida”

Disseram-me.

Eu tentei.

Mas a solidão ainda assim abate-se sobre mim.

O que é que eu posso aproveitar se nada puder partilhar.

E no entanto,

A minha vida não é apenas minha.

É cada vez menos minha.


Sentimo-nos sós quando nos cortam o cordão umbilical,

Quando deixamos de mamar,

Quando largamos as mãos,

Quando acabamos de fazer amor e não nos olham de frente,

Quando deixamos de ser ouvidos.

Eu abdicaria dos meus queridos defeitos para poder reaver o riso, perdido algures num tempo antes de mim, de quem ri por complemento a outro riso. O riso do calor.

E no entanto, tropeço e enleio-me numa teia de insegurança, obstinações, preconceitos, outras prioridades, recalcamentos, apatias e dor.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Poema muito prático sobre um ataque de preguiça

A Piruette quer assar junto ao aquecedor.
Eu tenho que limpar a casa.
Não tenho pachorra.
A minha mãe quer decoração de natal.
Eu estou tão pouco natalícia.
Era giro viver como os hobbits.
Mas os hobbits têm que limpar a casa.
Ainda se pudesse ouvir a Yma Sumac aos altos berros...
Mas são 23 horas.
Melhores dias virão.
Mas terei sempre que limpar a casa.
Antes do mais queria mesmo uma casa.
Mesmo que não fosse como a dos hobbits
(é mais fácil ter uma casa como a dos hobbits do que como a dos elfos.
Os elfos são burgueses com mulheres a dias).

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Permuta

Há por aí alguém interessado em trocar a alma?

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Amadora no seu melhor!

Aqui está a grande explicação para a rica e esclarecedora frase de campanha da candidatura de Francisco Louçã. "Olhos nos olhos" (nas beiras diz-se "Jolhos nos Jolhos") para o cidadão desatento parece demagogia barata e populista ("o que raio é que este gajo quer com isto? dizer que só pratica a posição do missionário? mas ele até é o tipo dos direitos dos gays!"). Para os adeptos significa frontalidade. Mas frontalidade por si só não é garante de defesa da democracia e da Constituição. Há por aí muitos capitalistas sem vergonha (cada vez mais) que assumem com frontalidade que nos andam a lixar. Mas aí está: numa rua do grande concelho da Amadora encontrei este mupi e percebi tudo. Louçã, num rasgo de genialidade, descobriu que os portugueses andam com os olhos por todo o lado menos no sítio onde deviam, isto é; nos próprios olhos. Isto diz muito sobre as tristes opções eleitorais que têm sido feitas. Pois claro. Quando os olhos não estão nos olhos não podem ver grande coisa. Assim, o candidato entende que a malta deva ir em massa, e com urgência, ao oftalmologista. Se Louçã for eleito presidente seremos a república com melhor acuidade visual do mundo. O que será um problema para o BE, que anda por aí a enganar muita e boa gente.

terça-feira, dezembro 13, 2005

sonhos 1

Há alguns dias atrás sonhei que vivia numa comuna. Depois, ao pensar no assunto, dei-me conta que nunca sonhei (de olhos fechados e a dormir) com aquilo que realmente quero. Estranho. Nunca sonhei estar com os amores da minha vida. Nunca sonhei estar com um emprego e uma vida estável. Nunca sonhei com a revolução.

Este foi, talvez, um dos sonhos que mais se aproximou da vida como eu a quero.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

quinta-feira, dezembro 01, 2005

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXV*

Assinalamos hoje 350 anos sobre a restauração da independência.

Ironicamente somos hoje um país mais dependente de Espanha: mais de 70% do nosso consumo é importado do estado espanhol.

Ironicamente também, vivemos um período de pré-campanha eleitoral para a presidência da República em que os candidatos da direita (e incluo aqui os militantes do PS), que espezinharam a Constituição da República Portuguesa, que foram responsáveis pela destruição do aparelho produtivo, pelo atraso e dependência económica do nosso país, dizem agora zelar pela soberania e independência nacionais.

sábado, novembro 19, 2005

Quatro poemas de Brecht a Quatro candidatos

Cavaco Silva

DIFICULDADE DE GOVERNAR

“(…)

3

Se governar fosse fácil

Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer [leia-se Cavaco]

Se o operário soubesse usar a sua máquina

E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas

Não haveria a necessidade de patrões nem de proprietários.

E só porque toda a gente é tão estúpida

Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que

Governar só é tão difícil porque a exploração e a mentira

São coisas que custam a aprender?”

Mário Soares

A PROPÓSITO DA NOTÍCIA DA DOENÇA DE UM PODEROSO ESTADISTA

“Se este homem insubstituível franze o sobrolho

dois reinos periclitam

se este homem insubstituível morre

o mundo inteiro se aflige como a mãe sem leite para o filho

se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia

não acharia em todo o império uma vaga de porteiro.”

Manuel Alegre

ALGUMAS PERGUNTAS A UM “HOMEM BOM”

“Bom, mas para quê?

Sim, não és venal, mas o raio

Que sobre a casa cai também

Não é venal.

Nunca renegas o que disseste.

Mas que disseste?

És de boa fé, dás a tua opinião.

Que opinião?

Tens coragem.

Contra quem?

És cheio de sabedoria.

Para quem?

Não olhas aos teus interesses.

Aos de quem olhas?

És um bom amigo.

Sê-lo-ás do bom povo?

Escuta pois: nós sabemos

Que és nosso inimigo

(…)”

Jerónimo de Sousa

TOMA O TEU LUGAR NA MESA

“Toma o teu lugar na mesa, foste tu que a puseste.

(…)

Hoje ao meio dia em ponto

Começa a idade de ouro.

Nós vamos inaugurá-la por sabermos que

Estais fartos de construir casas que jamais habitais. Queremos crer

Que doravante ireis comer o pão que cozestes.

(…)

Adiar mais a idade de ouro?

Nós não somos eternos.”

terça-feira, novembro 15, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXXIII


NINA SIMONE

Love Me or Leave Me

Love me or leave me and let me be lonely
You won't believe me but I love you only
I'd rather be lonley than happy with somebody else

You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else

There'll be no one unless that someone is you
I intended to be independently blue

I want you love, don't wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
There's no love for nobody else

Say, love me or leave me and let me be lonely
You won't believe me but I love you only
I'd rather be lonley than happy with somebody else

You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else

There'll be no one unless that someone is you
I intended to be independently blue

Say I want your love, don't wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
My love is your love
There's no love for nobody else

(1928) Walter Donaldson, Gus Kahn