terça-feira, março 18, 2008

Democracia à portuguesa - um texto atrasado

“Os professores ainda não compreenderam”, dizia Maria de Lurdes Rodrigues com a sua máscara cândida e de quem parece transportar às costas uma cruz de sacrifício e abnegado labor em prol da nação. Ou a “bem da nação”, como se dizia noutros tempos. Cerca de 100.000 docentes, de acordo com as afirmações ministeriais, não terão ainda atingido a genialidade política que consiste em transformar a educação portuguesa na melhor do mundo através do encerramento e privatização de escolas, da diminuição dos apoios sociais aos estudantes, da liquidação do conceito de escola inclusiva, do arrasar da gestão democrática e a instauração (ou restauração) do Senhor Reitor todo-poderoso e centralizador, mão do poder nas escolas para tornar tudo e todos em máquinas de servir os desígnios e interesses de uns poucos, da subjugação dos conteúdos científicos e das estratégias pedagógicas ao financismo, ao mercantilismo e à lógica de que todo o investimento que não vise o lucro imediato e privado é um despesismo, da divisão da classe dos professores, do desrespeito pelo papel do professor – retirando-lhes a sua autoridade e atribuindo-lhes tarefas cada vez mais distantes do seu conteúdo funcional -. Uma genialidade tão profunda que só raras mentes iluminadas são capazes de vislumbrar os resultados, uma genialidade que dispensa o património de experiência e vivência directa da realidade de milhares e milhares de professores e educadores, uma genialidade capaz de ignorar a insatisfação generalizada nas escolas.

Sim, os professores não são capazes de almejar tamanha sabedoria e por isso também se justifica o amarrotar da democracia.

A seráfica Marilú, qual virgem no altar, presta-se mais uma vez ao papel de mártir e assume, em conjunto com o seu santo governo, todas as decisões que a imensa, ignorante e mal-agradecida turba docente não tem grandeza para assumir.

A divina ministra é tão generosa que até compreende a insatisfação dos professores e educadores. Estes, tão miseravelmente mundanos, agarram-se a pormenores como o aumento da carga horária, o desempenho de funções estranhas à sua profissão, o desenvolvimento crescente de tarefas burocráticas em detrimento das pedagógicas e a falta de condições físicas e materiais.

A voz mais grossa, e menos chorosa, do ministro Santos Silva revela, por seu turno, o cavaleiro da democracia. Esclarece que nada se deve a Álvaro Cunhal ou a Mário Nogueira, e, por arrasto, ao partido em que um militou toda a vida e em que outro milita, alerta-nos para o perigo da “ditadura vermelha”, essa que os bravos socialistas impediram de ser instaurada. Santos Silva não necessita provar o que diz e só mentes muito pequenas e mesquinhas podem levantar questões como: a inexistência ministros com pasta comunistas nos sucessivos governos provisórios que se seguiram ao 25 de Abril; a forma como o PS mudou radicalmente de discurso entre Março e Maio de 1975 – da defesa de uma aliança de esquerda à defesa de uma “esquerda democrática”, a associação desta mudança e discurso às relações que se estabeleceram entre Carlucci e Mário Soares; a defesa que o PS (e o MES onde então militava Santos Silva) fazia, na altura, de muitos dos princípios e medidas que hoje associa à “ditadura comunista”; a confrontação com provas de que o 25 de Novembro de 1975 não foi um bem sucedido golpe de direita mas uma tentativa falhada de um golpe comunista.

Santos Silva, o anjo Gabriel da democracia, previne-nos contra o perigo que é o exercício da pressão popular sobre um ministro. Não adianta nada sobre a pressão dos grandes capitalistas sobre o governo. Essa não é perigosa, enquadra-se no âmbito da “democracia” que defende. Regista que é antidemocrático haver manifestações contra si enquanto ministro quando vai a uma reunião do PS mas quanto à obrigatoriedade de entrega dos ficheiros partidários no Tribunal Constitucional não manifesta a mesma opinião.

Também Emídio Rangel, menos compreensivo de Maria de Lurdes Rodrigues, esclarece que estes professores “transformaram-se em soldados do Partido Comunista, para todo o serviço”, um perigo, já se vê. E acrescenta sem papas na língua, revelando um “profundíssimo” conhecimento sobre a realidade da Educação em Portugal: “– Portugal não pode continuar a pôr cá fora jovens analfabetos, incultos e impreparados, como acontecia até aqui.
– Os professores colaboraram com um sistema iníquo que permitia faltas sem limites, baixas prolongadas sem justificação e incumprimento dos programas escolares.
– Os professores não são todos iguais. Quero referir-me àqueles que sem nenhuma vocação (com ou sem curso Superior) instalaram um culto madraceirão que ninguém punha em causa nem responsabilizava, mas que estava a matar o ensino.”

Rangel é o paradigma da verdade quando refere “estes pseudoprofessores que trabalham pouco, ensinam menos, não aceitam avaliações” e um fiel escudeiro que enaltece a sua dama: “Maria de Lurdes Rodrigues é uma ministra determinada. Bem haja pela sua coragem. Por ter introduzido um sistema de avaliação dos professores, por ter chamado os pais a intervir, por ter fechado escolas sem alunos, por ter prolongado os horários e criado as aulas de substituição, por ter resolvido o problema da colocação dos professores, por ter introduzido o Inglês, por levar a informática aos lugares mais recônditos do País. Estas entre outras medidas já deram frutos. Diminuiu o abandono escolar, os métodos escolares estão a criar alunos mais preparados, os graus de exigência aumentaram.”

Rangel só não explica que já existia um sistema de avaliação, que os pais cada vez menos participam nas actividades escolares dos filhos, que já foram encerradas escolas com 20 ou mais alunos e que a desertificação do interior do país se acentuou com estes encerramentos, que o prolongamento dos horários está a ser feito de forma anti-pedagógica, que as aulas de substituição não resolveram absolutamente nada, que há cada vez mais desemprego docente e é crescente o número de denúncias sobre irregularidades nas colocações, que as necessidades de ensino de Português estão a ser preteridas, assim como o Inglês nos 2º e 3º ciclos do Ensino Básico, e que no 1º ciclo só estão a servir para encher os bolsos de alguns amigos de autarcas. Tudo questões menores.

E viva a democracia.



terça-feira, março 11, 2008

Cuidado com o que diz senhor ministro

Sábado, 8 de Março de 2008

Carta Aberta ao Senhor Ministro dos Assuntos Parlamentares

Exmº Senhor Ministro Augusto Santos Silva,

Venho por este meio informá-lo que me sinto insultado pelas suas afirmações proferidas ontem à noite, em Chaves e dadas hoje à estampa na comunicação social escrita.

Foi o comunista do meu pai, Sérgio Vilarigues, que esteve preso 7 anos (dos 19 aos 26) no Aljube, em Peniche, em Angra e no campo de concentração do Tarrafal para onde foi enviado já com a pena terminada. Que foi libertado por «amnistia» em 1940, quatro anos depois de ter terminado a pena. Que passou 32 anos na clandestinidade no interior do país, o que constitui um recorde europeu. Não foi ao seu pai, e ainda bem, que tal sucedeu.

Foi a comunista da minha mãe, Maria Alda Nogueira, que, estando literalmente de malas feitas para ir trabalhar em França com a equipa de Irène Joliot-Curie, pegou nas mesmas malas e passou à clandestinidade em 1949. Que presa em 1958 passou 9 anos e 2 meses nos calabouços fascistas. Que durante todo esse período o único contacto físico próximo que teve com o filho (dos 5 aos 15 anos) foi de 3 horas por ano (!!!). Que, sublinhe-se, foi condecorada pelo Presidente da República Mário Soares com a Ordem da Liberdade em 1988. Não foi à sua mãe, e ainda bem, que tal sucedeu.

Foi a mãe das minhas filhas, Lígia Calapez Gomes, quem, em 1965, com 18 anos, foi a primeira jovem legal, menor (na altura a maioridade era aos 21 anos), a ser condenada a prisão maior por motivos políticos – 3 anos em Caxias. Não foi à sua esposa, e ainda bem, que tal sucedeu.

Foi a minha filha mais velha, Sofia Gomes Vilarigues, quem até aos 2 anos e meio não soube nem o nome, nem a profissão dos pais, na clandestinidade de 1971 a 1974. Não foi à sua filha, e ainda bem, que tal sucedeu.

Fui eu, António Vilarigues, quem aos 17 anos, em Junho de 1971, passou à clandestinidade. Não foi a si, e ainda bem, que tal sucedeu.

Foi o caso do primeiro Comité Central do Partido Comunista Português eleito depois do 25 de Abril de 1974. Dos 36 membros efectivos e suplentes eleitos no VII Congresso (Extraordinário) do PCP em 20 de Outubro de 1974, apenas 4 não tinham estado presos nas masmorras fascistas. Dois tinham mais de 21 anos de prisão. Com mais de 10 anos de prisão eram 15, entre eles Álvaro Cunhal (13 anos).

São casos entre milhares de outros (Haja Memória) presos, torturados e até assassinados pelo fascismo. Para que houvesse paz, democracia e liberdade no nosso país.
Para que o senhor ministro pudesse insultar em liberdade. Falta-lhe a verticalidade destes homens e mulheres. Por isso sei que não se retratará, nem muito menos pedirá desculpas. As atitudes ficam com quem as praticam.

Penalva do Castelo, 8 de Março de 2008

António Nogueira de Matos Vilarigues

O Pintor Morreu

ROGÉRIO RIBEIRODo painel das Descobertas . Mão Aberta - Intervenção na Estação de Metro de Santa Lucia em Santiago do Chile

Partir é ir. É concluir um desejo. É começá-lo. Partir é pois um acto de boaventurança. Barcos novos carregados dos precisos, de homens que se vão conhecendo, de mapas, garantias e esperanças.
Partir é enterrar as más chegadas e acreditar que o destino não é coisa que se repita.

Painel da Viagem. A Boaventura da Partida - na mesma intervenção

segunda-feira, março 10, 2008

quinta-feira, março 06, 2008

segunda-feira, março 03, 2008

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

27 de Fevereiro

... de 1801: a Espanha declara guerra a Portugal, no âmbito da aliança com a França.
Entre os dois estados estabeleceu-se um acordo secreto de partilha de Portugal.

sábado, fevereiro 16, 2008

PCP da Amadora repudia acórdão que condena dirigente sindical

A Comissão Concelhia da Amadora reunida no dia 12 de Fevereiro de 2008 decidiu por unanimidade repudiar o acórdão do tribunal que condenou um dirigente sindical a pena de prisão, colocando-o ao lado de qualquer criminoso comum, por este ter feito uso de uma prerrogativa do seu estatuto de defensor dos trabalhadores há vários meses sem salários que, por falta de saídas visíveis se manifestaram pacificamente, exigindo os seus direitos.

Estes direitos, por consigne, constam de uma decisão judicial que o patronato pura e simplesmente ignorou, sem que nada lhe tivesse acontecido.

Esta situação põe a nu o que de pior têm estas políticas e este governo PS anti-trabalhadores, que não obriga o patrão devedor a cumprir ordens judiciais e condena os dirigentes sindicais que lutam em defesa do cumprimento da legalidade.


Comissão Concelhia da Amadora do PCP
13 de Janeiro de 2008

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Sempre que respiro... mudo

Há 100 anos mataram o rei

100 anos depois do regicídio ouvem-se vozes bafientas de um saudosismo hipócrita defender e reclamar o regresso à monarquia. Por outro lado, a desinformação, o desespero e a falta de perspectivas levam muita gente a considerar essa hipótese como válida. É necessário recordar que na génese da monarquia está uma sociedade estratificada, hierarquizada, incompatível com a democracia e a igualdade. E é também importante refrescar a memória e lembrar que o penúltimo rei de Portugal, nutria um profundo desprezo pelo seu povo que, esmagadoramente, vivia em condições deploráveis e desesperantes enquanto ele, D. Carlos, esbanjava os dinheiros públicos. É necessário lembrar que esse mesmo rei deu carta branca a um ditador que levou a economia portuguesa ao colapso. E é fundamental sabermos que 101 anos antes outro rei abandonou o seu povo fugindo das invasões francesas. E que a história da monarquia é a história do velho, ultrapassado e obsoleto regime da subjugação. A solução passa por olhar em frente.

A propósito desta data transcrevo aqui excertos de um livro do controverso Miguel Unamuno. Um intelectual que se iludiu e tomou o partido errado, mas que meses antes de morrer proferiu a famosa frase "vencereis mas não convencereis" que lhe custou a expulsão por Franco do seu cargo de reitor da Universidade de Salamanca.

Do livro PORTUGAL, POVO DE SUICIDAS

"O Rei D. Carlos (…) não precisava de João Franco para atrair a si o ódio do seu povo. Nem na outra, assim Era quase unanimemente execrado. Tinha conseguido unir os seus súbditos num sentimento comum a seu respeito; de ódio misturado com desprezo. Está correcto que de todos os lados a imprensa tenha condenado o assassínio; assim o pede a moral que professamos com maior ou menor sinceridade; mas como penso que acima de todos os amores se deve colocar o amor à verdade, tenho de dizer que os tiros sobre o rei partiram das próprias entranhas do povo português. E se a execução do Rei D. Carlos é execrável, é-o como é a execução de qualquer réu. D. Carlos estava julgado e condenado pelo seu povo.

Estive por diversas vezes em Portugal. Convivi com muitos portugueses e a nenhum ouvi alguma vez defender o defunto rei. Não tinha, em rigor, um único partidário. Contavam-se a seu respeito coisas execráveis e horrendas. Ouvi a pessoas que com ele trataram, até a um que foi seu ministro, coisas realmente incontáveis em público. Oliveira Martins (…) deixou o Ministério dizendo que o rei era um monstro de perversidade. Há que ouvir contar as circunstâncias que precederam o suicídio de Mouzinho de Albuquerque, o herói de África, que ao regressar do seu governo colonial, rodeado de um imenso prestígio, foi nomeado preceptor dos filhos do rei e acabou por suicidar-se.

Talvez a história algum dia venha a guardar alguma coisa de tudo isto (…) e a julgar D. Carlos.

Mas de entre as muitas coisas, todas elas vergonhosíssimas, que ouvi acerca do infeliz monarca, a que porventura se me afigura mais grave, se bem que de um ponto de vista moral recorrente possa aos outros não o parecer, é que ele desprezava o seu povo. O pecado mais grave de D. Carlos, o seu pecado imperdoável, é que desprezava Portugal. Costumava dizer, falando da pátria onde reinava: Isto é uma piolheira. E assim como o Evangelho diz que pecados contra o Espírito Santo não têm remissão nem nesta vida nem na outra, assim é pecado irremissível o desprezo de um soberano pelo seu povo. A circunstância de não ser um homem privado de inteligência ou sequer vulgar, agrava a sua culpa a esse respeito. O defunto D. Carlos não era um idiota nem se pode dizer que fosse uma inteligência vulgar. O que ele foi sempre foi um egoísta astuto e um desenfreado gozador da vida.

E este desgraçado monarca fez uma espécie de pacto com João Franco, o ditador (…)

O pacto consistiu em que Franco daria ao rei aquilo que este necessitava, ouro, justificando de uma ou de outra maneira os adiantamentos ou antecipações ilegais do Tesouro Público e aumentando-lhe a lista civil, e o rei daria a Franco o que a este apetecia com frenesi de monomaníaco: o poder.

Porque o apetite de poder que atingira Franco era uma verdadeira loucura. (…) cabe dizer que o lema de Franco era: conserva o poder, honradamente se puderes, mas conserva-o.

(…) Para lograr levar a cabo esses seus supostos bons propósitos havia um grande obstáculo, que era a própria causa do poder: ter transigido com as artimanhas do rei. É difícil cimentar uma administração honrada com um poder que deve a sua origem a uma violação da estrita honradez pública.

Franco cometeu imensos atropelos para reduzir o montante das dívidas do rei. E chamar-lhes dívidas é o menos que se ode dizer…

(…)

E ambos, o rei e o seu ministro, desconheciam o seu povo. O que nada tem de estranho, visto que o desconhecia – e continua talvez a desconhecer – a maior parte dos portugueses europeizantes ou europeizados (…)

O povo português tem, como o galego, fama de ser um povo sofrido e resignado, que tudo suporta sem protestar, a não ser passivamente. E, no entanto, há que ter cuidado com povos como esses. A ira mais terrível é a dos mansos.

Nem me espanta que no complexo sentimento produzido pela notícia do regicídio, na alma dos portugueses aqui imigrados, entre em não pequena medida algo de orgulho nacional. Condenavam a execução, mas pareciam querer dizer: “ vejam do que ainda somos capazes”. Um destes imigrados, ao ler nos jornais que um dos regicidas era espanhol, deixou escapar este desabafo: “não, não, eram todos portugueses, tenho a certeza”.

Sem qualquer cumplicidade no acto, ainda que remota, ao serem surpreendidos pela notícia, orgulhavam-se de que na sua pátria tivesse havido homens com a coragem suficiente para levar a cabo essa execução terrível, da maneira como o fizeram, cara a cara e expondo-se (…)

Portanto, nem o Rei D. Carlos nem João Franco conheciam o seu povo. E aquele demonstrou cabalmente não o conhecer nas suas famosas declarações ao redactor de Le Temps, declarações que constituíam uma verdadeira provocação à mansidão de um povo. Este dormia e rei e ditador despertaram-no.

É muito doloroso mas o certo é que a consciência dos povos adormecidos só desperta com actos de violência. E é ainda mais doloroso porque no comum dos casos não chega um abanão apenas; o dormente volta a adormecer, embora de um sono mais ligeiro e necessita de nova excitação.

Mas pondo de parte o caso concreto, há que reconhecer todo o trágico da escravidão de um monarca.

Um presidente do Conselho de Ministros, um presidente da República, é um homem que se dedicou à política, escolhendo com mais ou menos consciência e determinação essa profissão; é alguém que procurou o lugar, apresentando a sua candidatura ou deixando que outros a apresentassem. Um rei, não. Um rei é um escravo de nascimento que, como quase todos os nascidos em escravidão, não têm força de vontade nem lucidez para se libertar das cadeias com que nasceu.

Não seria terrível obrigar os filhos mais velhos a seguir a profissão de seus pais? Não consideraríamos que era uma tirania intolerável.

(…) Se bem que o regicídio seja considerado um crime, há que reconhecer que a maior parte das vezes é um crime de direito público, não de direito privado.

E neste caso concreto do regicídio de D. Carlos não se deve perder de vista que foi levado a cabo num país com Portugal, onde a pena de morte foi abolida há já algum tempo e onde chegou a haver distúrbios públicos para impedir que se executasse um condenado a ela. É mais uma prova do que é a ira do manso.

Nesse povo brando, pacífico, sofrido e resignado, mas por dentro cheio de paixão, os crimes de sangue são raros, muito raros, raríssimos; mas entre os que ocorrem muitos parece haver que são mais atrozes e violentos do que aqui, em Espanha, onde por desgraça tais crimes são mais frequentes, muito mais frequentes do que lá.

(…)"

Fevereiro de 1908

terça-feira, janeiro 29, 2008

num momento de introspecção

Devo ter propensão para crimes passionais.
... e tenho uma excelente pontaria.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

em estado de conflito

Quando me escondo o que escondo é o conflito.
Não me escondo a mim...
... A não ser que eu seja conflito em estado puro.
Escondida sou conflito em potência.

Dúvida

O que é pior?
Ser-se lírico, pragmático ou esquizofrénico?

quinta-feira, janeiro 24, 2008

nº23 já disponível no


quarta-feira, janeiro 23, 2008

Curso de Jogador de futebol dá equivalência ao 9º ano

Era uma vez o ensino unificado, com uma formação universal, de conteúdos e competências que, em diversas áreas, todos deviam adquirir para estarem melhor apetrechados para responderem às necessidades individuais e da sociedade. Era uma vez uma formação enriquecedora nascida da revolução de Abril.
... Segue-se na imagem o capítulo seguinte desta saga.... Mas a continuação temos todos de a construir para que esta história tenha um fim feliz.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

A falta de espinha de António Avelãs


Têm sido muitos os momentos de decepção na minha vida. Têm sido ainda mais os momentos de frustração. Mas não tenho tido muitas “oportunidades” para de modo cru, imediato, ofuscante e, de certa forma, até “pedagógico” constatar como há supostos seres humanos absolutamente desprovidos de princípios e de palavra. Infelizmente, por poucos que sejam esses episódios, são sempre em demasia.

É um desses episódios que vou contar.

Não se trata propriamente de uma decepção. De há muito que não alimento qualquer expectativa positiva em relação a esta criatura, conheço aliás variadíssimos feitos seus que afastam tal ser da classificação de gente. O sucedido foi mais como uma lição de vida. Como se, por momentos, tivesse espreitado para dentro da caixa de Pandora antes da mesma se ter esvaziado, como se tivesse tido o vislumbre do puro conceito de mentira ou de mentiroso.

É que, por mais que experimentemos na pele e na boca as chicotadas e o sabor da vilania, agarramo-nos sempre à crença de que o nosso semelhante não pode ser assim tão mau. É como questiona Brecht na Difícil Arte de Governar: “será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?”

Faz hoje, segunda-feira, uma semana, fui chamada de urgência ao sindicato (SPGL) para uma reunião de urgência da Comissão Eleitoral. Em causa estava o facto da Lista A (que se apossou ilegitimamente da direcção sindical) querer à força aparecer com um candidato seu a nível regional.

Dias antes tinha estalado a confusão. Provocada pela incompetência e pelo propositado caos processual dos pretensos dirigentes, esclareça-se. O regulamento eleitoral, que não foi aprovado pela Assembleia Geral de Delegados Sindicais (por não ter reunido o quórum necessário) contem inúmeros erros e lacunas – apesar de alguns sócios terem chamado atenção para alguns deles! – O documento resulta do copy-paste de outros regulamentos e está completamente desadequado à presente situação. Não compatibiliza, por exemplo, a existência de candidaturas individuais com a comissão eleitoral, prevê, por outro lado, a possibilidade de poderem votar eleitores (delegados sindicais) depois da publicação dos cadernos eleitorais! É, portanto, um regulamento que não ajuda muito à manutenção da igualdade de oportunidades entre as candidaturas. O dito presidente do sindicato, professor António Avelãs, abordou o colega Luís Filipe Carvalho, propondo-o como candidato regional (de Lisboa) em nome da direcção. Convém aqui esclarecer que são dois os delegados da região de Lisboa a eleger ao congresso da CGTP; um no seio da direcção e outro de entre os delegados sindicais de cada região. O colega aceitou o convite julgando tratar-se do nome a ser eleito pela Direcção Regional de Lisboa. Era mais do que natural que assim fosse: a Lista B foi a eleita para esta direcção regional e o colega Luís Filipe é, para além de um elemento eleito pela Lista B, um dos sindicalistas que assegura a ligação ao movimento sindical unitário através da União dos Sindicatos de Lisboa. Entretanto, e precavendo a “tendência” dos actuais dirigentes de cúpula para a chapelada, o Luís Filipe candidatou-se também a título individual por proposta da Lista B.

A reunião da Direcção Regional de Lisboa fez-se no mesmo dia que a primeira da Comissão Eleitoral. Levianamente, nessa reunião, que não foi convocada para se proceder à referida eleição, fez-se, apressadamente, a “nomeação” ou “indicação” do delegado ao congresso da CGTP e, pasme-se, não foi o colega Luís Filipe.

Na reunião da Comissão Eleitoral constatou-se então a existência de duas declarações de candidatura da mesma pessoa: uma anexa à da Lista B e outra junto com as da Lista A, mas com uma diferença: esta última era diferente das restantes da mesma lista – o que denunciava uma abordagem diferente.

A estratégia dos supostos dirigentes falhara e tornara-se clara – colar este reconhecido activista à Lista A, criando assim a ideia de uma divisão na Lista B, por um lado, e de tolerância e espírito unitário da Lista A, por outro. Falhara porque os sindicalistas da Lista B não propuseram outro candidato a nível regional. Se o tivessem feito o candidato Luís Filipe (que aceitara ser candidato a ser eleito na Direcção Regional) apareceria em oposição a outro candidato proposto, conotado com a Lista B.

A situação ficou pendente e para resolução posterior. Concluiu-se depois que os candidatos, o sendo a título individual, não apareceriam ligados a nenhuma lista.

Mas nesta situação, os pretensos dirigentes tinha de justificar a inexistência de um candidato regional conotado com a Lista A e existência de apenas um reconhecido como sendo da Lista B. Daí a convocação urgente da Comissão Eleitoral.

Como esperáramos, a Lista A, representada por António Avelãs (que não tinha sido indicado para a Comissão Eleitoral e que esteve ali, cumulativamente, representando a direcção), pretendia acrescentar uma explicação sobre a inexistência de um candidato regional seu. A Lista B aceitou na condição de os candidatos regionais poderem, em condições de igualdade, escrever textos de apresentação das suas candidaturas. A resposta dada pelo representante da Lista A e representante da Direcção, o invertebrado António Avelãs, foi também a esperada: havia condições para as listas alterarem os seus textos mas não para os 7 candidatos regionais escreverem os seus. Segundo o duplo representante, no dia seguinte de manhã os textos deveriam ser enviados. Argumentámos que os contactaríamos e se os mesmos tivessem essa possibilidade o fariam, se não, ficariam com os seus textos apenas publicados na página web do sindicato. Não, não e não, responderam, já não apenas Avelãs mas também, os elementos da Mesa da Assembleia Geral. Diziam que assim não seria justo porque não havia tempo útil. Curiosa justificação dada por quem, há cerca de ano e meio, convocou numa sexta-feira à tarde e no sábado de manhã uma tomada de posse para a segunda-feira seguinte às 18 horas (para evitar que a providência cautelar interposta pela Lista B suspendesse os actos). Contra-argumentámos que se havia tempo para as listas alterarem os seus textos também deveria haver para os candidatos regionais se pronunciarem sobre os referidos apoios. A esta exposição a resposta foi mais inesperada: “no plano dos princípios isso é justo, mas não dá!” Dada a inflexibilidade, acabámos por acordar que não seria enviado nenhum texto dos candidatos regionais mas que as listas só poderiam escrever nos seus documentos quem eram os candidatos apoiados, e nada mais. “Nem mais uma linha!”, repeti três vezes e por três vezes António Avelãs concordou: “Nem mais uma linha!

A LISTA A decidiu apoiar Luís Filipe de Carvalho como delegado

a eleger pela Assembleia de Delegados Sindicais da Região de Lisboa.

Esta situação, previamente acordada com o candidato, resulta dos

seguintes factos:

1. O referido dirigente, eleito pela Lista B nas últimas eleições como

membro da Direcção Regional de Lisboa, é o representante do SPGL

na Comissão Executiva da USL.

2-A USL não o indicou como delegado por inerência ao Congresso.

3- Não faz sentido que o representante do SPGL na Comissão

Executiva da USL não seja delegado ao Congresso da CGTP-IN.”

Este é o texto acrescentado pela Lista A ao documento que chegou aos sócios. Como se verifica, não foi mais uma linha, mas sim 10! Para além de “sacudir a água” para cima da União dos Sindicatos de Lisboa (que apenas podia indicar 4 pessoas para o congresso), para além de não assumir que não elegeu o colega Luís Filipe pela Direcção Regional de Lisboa, a Lista A, na pessoa de António Avelãs, demonstrou assim (se dúvidas houvesse) que é um ser escorregadio, algo entre um safio e uma sangue-suga, falta vergonhosamente ao compromisso assumido na Comissão Eleitoral e evita que o mesmo se pronuncie através dos mesmos meios que a Lista que, supostamente, lhe presta o seu apoio.