segunda-feira, fevereiro 27, 2006

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXVIII*

"A consciência de classe é uma forma superior de cultura"
José Casanova num debate sobre os 75 anos do Avante! no CT da Amadora

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXVII* Um dia no país real ou Quanto custa ser cidadão

ESPERAS E DESESPEROS

No momento em que escrevo estou sentada numa gelada cadeira de metal aguardando ser atendida na Segurança Social da Amadora. Hesito em ir à casa-de-banho. Estive lá há uma hora e meia atrás e o chão enlameado provocou-me um certo asco. Olho entretanto para o painel luminoso. Vai no 962. São 15h50 e estou aqui desde as 12h30. A minha senha é a 971. Sou uma sortuda. Beneficiei da senha de uma desistente, que esperava desde as 9h30 para ser atendida. Às 12h35 deixaram de as distribuir. Alguns dos meus companheiros de sala estão aqui desde as 9h00. Hoje é o meu dia de folga. Viva a folga! Gozo-a entre homens e mulheres ansiosos por alcançar a merecida reforma, gente de fraquíssimos rendimentos com crianças penduradas nas pernas e no pescoço, homens inválidos em consequência de acidentes de trabalho e desempregados de olhos tristes.

A raiva desta gente aqui plantada volta-se contra as funcionárias, entre elas duas estagiárias, que se desdobram na tentativa de satisfazer as expectativas de cada pessoa sentada à sua frente. Muitos desses esforços: os das funcionárias e o dos utentes serão em vão – A Segurança Social Portuguesa vive um valente aperto financeiro resultante da gula capitalista que tem o dom de tudo transformar em mercadorias e negócio. Assim, nos últimos anos, o conceito de solidariedade social perdeu o seu lugar na república e a garantia de sustento nas situações de desemprego, invalidez, doença, miséria e velhice desapareceu. Agora, quem tem algum dinheiro faz os seguros de vida ou de saúde num qualquer banco ou seguradora que os vende como banha da cobra. As repartições do estado passaram a ser uma espécie de reedição da Santa Casa da Misericórdia ou da Assistência aos Pobres. Não há solidariedade. Há caridade.

Caridade que raras vezes foi ou é gratuita. Antes era feita em troca do perdão divino e de um lugar no céu. Hoje serve para reduzir os impostos e acalmar a fúria das massas. Até quando?

O PAPEL ESTÁ CARO

De manhã passei na “loja do cidadão”. Uma instituição que só faz sentido em países como o nosso: atolados em burocracia. Três assuntos levaram-me a tal lugar: a renovação do BI, a necessidade do Registo Criminal e as informações da Segurança Social. Depois de duas horas na referida “loja” senti-me roubada. Tive a sensação que mais um par de horas e sairia despida. Pior do que a burocracia só mesmo o custo da burocracia.

Para renovar o Bilhete de Identidade (BI) paguei 7,05 euros pelos impressos e requerimentos mais 4,5 euros pelas fotografias. No total 11,55 euros! Em moeda antiga são 2310 escudos! Um documento obrigatório que atesta a nossa existência fica-nos em 2310 escudos. São cerca de 3% do salário mínimo nacional, o montante diário para quem aufere esse rendimento e que, diga-se de passagem, é a uma grande parte da população. Se não pagarmos este valor não podemos ter BI. Se não pagarmos este valor não somos cidadãos portugueses de plenos direitos. Não basta nascer em Portugal filhos de pais portugueses. É preciso ter pelo menos 7,05 euros!

Pelos meus cálculos, todos os dias renovam o BI cerca de 44 000 pessoas. A multiplicar pelos 7,05 euros são 310.200 euros que o Registo Civil arrecada por dia. Verba que não só paga os custos da própria emissão do BI, como os seus funcionários, custos de funcionamento e ainda, certamente, um chorudo salário a um qualquer director-geral que se passeia de lamborghini e janta em restaurantes de luxo.

Depois do assalto no Registo Civil fui novamente roubada no Registo Criminal.

Desde o ano 2000 que todos os anos preciso de fazer prova de que não sou criminosa. É o que custa ser professora contratada. De cada vez que sou colocada lá tenho que entregar uma cópia do Registo Criminal e um Atestado de Robustez Física. O pessoal de carreira pode cometer crimes e andar tuberculoso que ninguém lhes tira o emprego, os do sector privado, também. Contratado do público é que tem de dar provas que tem a ficha limpa e é saudável.

Tudo isto seria aceitável não fosse ter de pagar 3,5 euros pela merda do papel. 700 paus por um papel que diz “Nada Consta”. Um papel que saiu por uma impressora, 20 segundos depois de um sujeito digitar o meu nome. 700 paus! O ano passado paguei 2,5 euros. 500 escudos. Em apenas um ano o papelinho do “Nada Consta”, imprescindível para eu poder dar aulas, aumentou 1 euro, 200 escudos. No meu primeiro contrato, em 2000, o custo desse mesmo papel foi de 250 escudos. Em 6 anos a folha de papel aumentou quase 200%.

Como se não bastasse ainda terei de pagar 5 euros pelo contrato, fora a taxa moderadora da consulta que terei de fazer para que me seja passado o dito atestado. Isto se o médico não se lembrar de me mandar fazer um micro e umas análises se me pegar de ponta. Médico a que apenas recorro por causa destes malditos atestados.

ENTRE O SUBSÍDIO E O ESTÁGIO

Falta esclarecer o que fui fazer à Segurança Social.

Como qualquer pessoa em busca de emprego, não fico à espera de uma resposta para me candidatar a um lugar. De modo que, depois de ter finalizado um curso de quatro meses, e não tendo ainda sido chamada para o ensino, lancei-me em busca de emprego na minha área de formação, o design.

Andava eu nisto, quando fui chamada para fazer uma substituição de um mês, eventualmente mês e meio, dois. Lá tive que aceitar a colocação, mas sem outra alternativa, farta de me sentir usada pelo ministério de Educação que trata os professores contratados como fraldas descartáveis; usa-nos; caga-nos e deita-nos fora. Dois dias depois fui a uma entrevista e o director artístico da empresa diz-me que gostou muito do meu portfolio, que está interessado em que eu faça um estágio de 3 meses não remunerado. Eu, que quero deixar este sistema educativo ingrato mas que não tenho experiência no design e que sei, que se a não adquirir nos próximos tempos, bem posso dizer adeus à profissão, achei que a proposta de estágio não remunerado não era má. Acontece que não vivo sem comer. Acontece também que o estágio não ficaria à espera que eu terminasse o contrato.

Fui então à segurança social saber se perderia direito ao subsídio de desemprego se rescindisse o contrato para aceitar o estágio de três meses. Até nem me importaria de ficar sem o subsídio durante o período em que este durasse.

Parecia-me lógico que era mais vantajoso para o sistema que eu melhorasse as minhas habilitações e a minha experiência de modo a obter emprego mais facilmente do que ter emprego por um mês, perder a oportunidade do estágio, e voltar a viver do subsídio de desemprego.

No entanto, na Segurança Social, o funcionário, muito compreensivo, lá me dizia que as coisas eram assim, se rescindia contrato, mesmo que fosse para aceitar outra oferta de emprego, para um contrato mais extenso, perdia o direito ao subsídio desemprego quando voltasse a ficar desempregada. À socapa sugeriu-me que metesse baixa na escola para ir fazer o estágio.

A resposta não me satisfez e lá me fui enfiar na Segurança Social da Amadora onde, depois de horas, reiteraram o que disse o primeiro funcionário.

Neste país, a legislação de controlo dos desempregados cada vez mais se assemelha à prisão domiciliária e esquece que a precariedade é o prato do dia. Não nos é permitido desistir de um emprego em favor de outro mais vantajoso. Se rescindimos um contrato de dois meses para aceitarmos um de seis, ao fim dos seis meses perdemos o direito ao subsídio de desemprego.

E assim fiquei eu; indecisa entre abdicar do subsídio de desemprego em favor de um estágio que me pode dar a oportunidade de enveredar pelo design ou manter-me com o subsídio e perder o estágio.

O que escolheriam vocês? Poder comer agora e possivelmente passar fome no futuro ou passar fome agora e eventualmente saciar a fome no futuro?

quinta-feira, janeiro 05, 2006


A minha alma está em êxtase. Anseio o dia 17 de Fevereiro como a noiva que aguarda o casamento. A razão? Frida em Lisboa.
A Marta disse-me por volta das 17h30 e desde então não voltei a ser a mesma.

17 de Fevereiro a 14 de Maio 2006
de Terça-feira a Domingo, das 10h às 19h
Grande Hall do Centro de Exposições do CCB

"51 anos após a sua morte, Frida Kahlo (1907-1954) continua a exercer um enorme fascínio pela sua arte controversa, os seus amores difíceis e o seu sofrimento físico. Depois da Tate Modern de Londres e da Fundación Caixa Galicia, em Santiago de Compostela, é a vez de Lisboa receber a maior e mais completa exposição sobre Frida Kahlo realizada nas últimas décadas, com obras provenientes do Museu Dolores Olmedo, no México a colecção mais importante que existe no mundo sobre a genial artista mexicana.
Entre 1926, quando pintou o seu primeiro auto-retrato, e a sua morte em 1954, Kahlo produziu cerca de 200 imagens. A sua relação com o muralista Diego Rivera, com quem casou, constituiu o lançamento inicial da sua carreira, que no entanto se consolida pela sua força e qualidade."

Claro que se vão esquecer de sublinhar a militância política. Vão referir ao de leve que era comunista. Frisarão que foi amante de Trotski e não dirão que morreu stalinista. Talvez mesmo ignorem que foi uma grande defensora dos valores da paz.
Não importa. Depois dos acepipes e atropelos da inauguração da exposição lá estarei eu à porta do CCB, pronta a devorar com os olhos os originais da minha grande camarada. Quem quiser junte-se a mim...

quarta-feira, janeiro 04, 2006

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXVI* O derrame da besta

Sharon sofreu um derrame cerebral.
Mas esta criatura (que nem homem chega a ser) já está muito habituada a derrames: aqueles que provocou e resultaram em lagos de sangue sobre a terra palestina.
Veja-se a biografia da besta.
Será desta que encontra a terra prometida?

PREOCUPAÇÕES MAIORES

Qual é a forma do céu?

terça-feira, dezembro 27, 2005

Onde pára o riso?

"Eu não quero mais mentir /Usar espinhos que só trazem dor /Eu não enxergo mais o inferno/Que me atraiu /Dos cegos do castelo me despeço e vou /A pé até encontrar /Um caminho /O lugar /Pro que eu sou /
Eu não quero mais dormir /De olhos abertos me esquenta o sol /Eu não espero que um revólver venha explodir /Na minha testa se anunciou
A pé a fé devagar /Foge o destino do azar que restou..." Titãs (Os cegos do castelo)


Molhar os pés em água fria é bom.

Ler um bom livro também.

Ovos moles.

Ouvir música, dançar.

“São as pequenas coisas que se ama que nos fazem felizes”

“Aproveita”

“Aproveita”

“Aproveita cada segundo da tua vida”

Disseram-me.

Eu tentei.

Mas a solidão ainda assim abate-se sobre mim.

O que é que eu posso aproveitar se nada puder partilhar.

E no entanto,

A minha vida não é apenas minha.

É cada vez menos minha.


Sentimo-nos sós quando nos cortam o cordão umbilical,

Quando deixamos de mamar,

Quando largamos as mãos,

Quando acabamos de fazer amor e não nos olham de frente,

Quando deixamos de ser ouvidos.

Eu abdicaria dos meus queridos defeitos para poder reaver o riso, perdido algures num tempo antes de mim, de quem ri por complemento a outro riso. O riso do calor.

E no entanto, tropeço e enleio-me numa teia de insegurança, obstinações, preconceitos, outras prioridades, recalcamentos, apatias e dor.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Poema muito prático sobre um ataque de preguiça

A Piruette quer assar junto ao aquecedor.
Eu tenho que limpar a casa.
Não tenho pachorra.
A minha mãe quer decoração de natal.
Eu estou tão pouco natalícia.
Era giro viver como os hobbits.
Mas os hobbits têm que limpar a casa.
Ainda se pudesse ouvir a Yma Sumac aos altos berros...
Mas são 23 horas.
Melhores dias virão.
Mas terei sempre que limpar a casa.
Antes do mais queria mesmo uma casa.
Mesmo que não fosse como a dos hobbits
(é mais fácil ter uma casa como a dos hobbits do que como a dos elfos.
Os elfos são burgueses com mulheres a dias).

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Permuta

Há por aí alguém interessado em trocar a alma?

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Amadora no seu melhor!

Aqui está a grande explicação para a rica e esclarecedora frase de campanha da candidatura de Francisco Louçã. "Olhos nos olhos" (nas beiras diz-se "Jolhos nos Jolhos") para o cidadão desatento parece demagogia barata e populista ("o que raio é que este gajo quer com isto? dizer que só pratica a posição do missionário? mas ele até é o tipo dos direitos dos gays!"). Para os adeptos significa frontalidade. Mas frontalidade por si só não é garante de defesa da democracia e da Constituição. Há por aí muitos capitalistas sem vergonha (cada vez mais) que assumem com frontalidade que nos andam a lixar. Mas aí está: numa rua do grande concelho da Amadora encontrei este mupi e percebi tudo. Louçã, num rasgo de genialidade, descobriu que os portugueses andam com os olhos por todo o lado menos no sítio onde deviam, isto é; nos próprios olhos. Isto diz muito sobre as tristes opções eleitorais que têm sido feitas. Pois claro. Quando os olhos não estão nos olhos não podem ver grande coisa. Assim, o candidato entende que a malta deva ir em massa, e com urgência, ao oftalmologista. Se Louçã for eleito presidente seremos a república com melhor acuidade visual do mundo. O que será um problema para o BE, que anda por aí a enganar muita e boa gente.

terça-feira, dezembro 13, 2005

sonhos 1

Há alguns dias atrás sonhei que vivia numa comuna. Depois, ao pensar no assunto, dei-me conta que nunca sonhei (de olhos fechados e a dormir) com aquilo que realmente quero. Estranho. Nunca sonhei estar com os amores da minha vida. Nunca sonhei estar com um emprego e uma vida estável. Nunca sonhei com a revolução.

Este foi, talvez, um dos sonhos que mais se aproximou da vida como eu a quero.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

quinta-feira, dezembro 01, 2005

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXV*

Assinalamos hoje 350 anos sobre a restauração da independência.

Ironicamente somos hoje um país mais dependente de Espanha: mais de 70% do nosso consumo é importado do estado espanhol.

Ironicamente também, vivemos um período de pré-campanha eleitoral para a presidência da República em que os candidatos da direita (e incluo aqui os militantes do PS), que espezinharam a Constituição da República Portuguesa, que foram responsáveis pela destruição do aparelho produtivo, pelo atraso e dependência económica do nosso país, dizem agora zelar pela soberania e independência nacionais.

sábado, novembro 19, 2005

Quatro poemas de Brecht a Quatro candidatos

Cavaco Silva

DIFICULDADE DE GOVERNAR

“(…)

3

Se governar fosse fácil

Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer [leia-se Cavaco]

Se o operário soubesse usar a sua máquina

E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas

Não haveria a necessidade de patrões nem de proprietários.

E só porque toda a gente é tão estúpida

Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que

Governar só é tão difícil porque a exploração e a mentira

São coisas que custam a aprender?”

Mário Soares

A PROPÓSITO DA NOTÍCIA DA DOENÇA DE UM PODEROSO ESTADISTA

“Se este homem insubstituível franze o sobrolho

dois reinos periclitam

se este homem insubstituível morre

o mundo inteiro se aflige como a mãe sem leite para o filho

se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia

não acharia em todo o império uma vaga de porteiro.”

Manuel Alegre

ALGUMAS PERGUNTAS A UM “HOMEM BOM”

“Bom, mas para quê?

Sim, não és venal, mas o raio

Que sobre a casa cai também

Não é venal.

Nunca renegas o que disseste.

Mas que disseste?

És de boa fé, dás a tua opinião.

Que opinião?

Tens coragem.

Contra quem?

És cheio de sabedoria.

Para quem?

Não olhas aos teus interesses.

Aos de quem olhas?

És um bom amigo.

Sê-lo-ás do bom povo?

Escuta pois: nós sabemos

Que és nosso inimigo

(…)”

Jerónimo de Sousa

TOMA O TEU LUGAR NA MESA

“Toma o teu lugar na mesa, foste tu que a puseste.

(…)

Hoje ao meio dia em ponto

Começa a idade de ouro.

Nós vamos inaugurá-la por sabermos que

Estais fartos de construir casas que jamais habitais. Queremos crer

Que doravante ireis comer o pão que cozestes.

(…)

Adiar mais a idade de ouro?

Nós não somos eternos.”

terça-feira, novembro 15, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXXIII


NINA SIMONE

Love Me or Leave Me

Love me or leave me and let me be lonely
You won't believe me but I love you only
I'd rather be lonley than happy with somebody else

You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else

There'll be no one unless that someone is you
I intended to be independently blue

I want you love, don't wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
There's no love for nobody else

Say, love me or leave me and let me be lonely
You won't believe me but I love you only
I'd rather be lonley than happy with somebody else

You might find the night time the right time for kissing
Night time is my time for just reminiscing
Regretting instead of forgetting with somebody else

There'll be no one unless that someone is you
I intended to be independently blue

Say I want your love, don't wanna borrow
Have it today to give back tomorrow
Your love is my love
My love is your love
There's no love for nobody else

(1928) Walter Donaldson, Gus Kahn

sexta-feira, outubro 28, 2005

UM ANO!


E
stou neste momento sentada com a minha gata Rosa ao colo. A Piruette circula por aí.

Olho a parede em frente e vejo os velhos postais do MPLA, o cartaz do Lenine, a fotografia da manifestação de 1998 (que me custou o ano lectivo). Tenho frio. A minha casa é bastante fria. Penso nos trinta mil afazeres, nas contas para pagar, por trás das cortinas e sob um céu limpo tremem as luzes da noite. A Amadora pura e dura. De cimento e asfalto, de comboios, carros, lojas, risos, cães e ruído.

Há um ano tudo era diferente. Eu não suspeitava que o meu blog completaria este tempo de existência. Estava a kilómetros de distância, numa linda ilha no meio do Atlântico, e resolvi criá-lo para estabelecer uma ponte com os amigos que tinham ficado para trás. Foi aliás, sob sugestão de alguns (que nunca se dignaram a fazer um único comentário) que resolvi abrir a alma ao mundo. Aqui deixei vaguear a imaginação, expor as minhas ideias e convicções, confessar sentimentos, fazer graças. Procurei fazer desta página um espelho de mim própria. Nunca o consegui inteiramente. Se já na vida real tentamos varrer os defeitos para baixo do tapete, no virtual parecemos um poço de virtudes (e só nas entrelinhas e nos silêncios é que nos revelamos inteiramente).

Hoje olho para o “rapariga vermelha” como uma divisão da minha casa, um armário de pensamentos. E olho para os blogs (não os de tertúlia e pura verborreia intelectual, mas aqueles que são os diários abertos das nossas vidas) como quem olha pela janela dos outros. Janelas que se deixam abertas propositamente, para que se possa ver o que queremos que se veja, mostrar o que queremos que se valorize. E isso diz tanto sobre nós…

Os blogs podem ser gargalhadas contagiantes, embalos poéticos, gritos de socorro, ideias geniais à espera de debate ou aplicação ou panfletos de propaganda. No caso deste tenho procurado que seja um pouco de cada uma destas coisas (modéstia à parte no caso das ideias geniais).

Está aqui há um ano a contar a minha vida. Quem sabe onde estarei sentada daqui a um ano a redigir um novo texto ou a postar uma nova foto?

Está aqui há um ano. Para quem quiser, para quem o encontrar.

Post Scriptum

Obrigada Luísa e João Lopes

terça-feira, setembro 20, 2005

ARTE DE TRANSFORMAR XXXIV

A um ti que eu inventei

Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta

e o passá-lo em finíssima aguada

com um pincel de marta.

Um pesar de grãos de nada em mínima balança,

um armar de arames cauteloso e atento,

um proteger a chama contra o vento,

pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,

um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tanta ternura

como se fosses vidro ou película de loiça

que apenas com o pensar te pudesses partir.

António Gedeão

segunda-feira, setembro 05, 2005

*Vermelhices (Comentários Políticos) XXXIV*

40 mil professores desempregados.

Um número.

Para quem não sente soa ao mesmo que dizer 20 000 professores desempregados.

Também não é diferente de dizer 5 mil professores desempregados.

Para os mais desinteressados, dizer 40 mil professores desempregados ou 400 professores desempregados provoca a mesma reacção.

Um número.

Como quem diz 40 mil grãos de arroz, ou 40 mil litros de água, ou 40 mil kilómetros.

Façamos a experiência; escrever 40 mil professores desempregados de maneiras diferentes:

Quarenta mil professores desempregados;

40 mil professores desempregados;

40 000 professores desempregados;

20 000 professores desempregados + 20 000 professores desempregados;

10 000 professores desempregados + 10 000 professores desempregados

+ 10 000 professores desempregados + 10 000 professores desempregados;

5 000 professores desempregados + 5 000 professores desempregados + 5 000 professores desempregados + 5 000 professores desempregados + 5 000 professores desempregados + 5 000 professores desempregados + 5 000 professores desempregados + 5 000 professores desempregados;

1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados
+ 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados + 1 000 professores desempregados;

500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados +500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados +500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados + 500 professores desempregados;

Continuamos?

São 40 mil frustrações, 40 mil angústias, 40 mil cordas na garganta, 40 mil futuros incertos, 40 mil famílias sem perspectivas.

...

Como é que o Sócrates aguenta tantas frustrações, tanta angústia e tamanha falta de perspectiva? Simplesmente porque governa números.

… Um dia destes ainda lhe vamos mostrar 40 mil indignações, 40 mil revoltas, 40 mil vozes a dizer BASTA! E um pontapé no cú que o fará voar 1 km por cada professor desempregado, indo parar … ao extremo oriente.

40 mil professores desempregados

… e eu sou um deles.

sábado, agosto 27, 2005

LUA DA ATALAIA

Soneto com referências toponímicas

“Luar de Janeiro não tem primeiro,

mas o de Agosto dá-lhe no rosto”*

Vi-te na Praça 25 de Abril

Inundaste-me os olhos de alegria

A tua imagem recortada em tons de anil

Tornou quente a noite fria.

Entrámos descendo a Medideira

Subimos a rua da Unidade

Trabalhaste à minha beira

Na construção da nossa cidade.

Já regressando pela fraternidade

Que continuasses comigo eu queria

Para iluminares a festa da verdade.

E se há dúvidas que chegará o dia

Em que vingará para sempre a liberdade

Tu, lua da Atalaia, és garantia!

* ditado popular

quarta-feira, agosto 03, 2005

Barcelona

"los indios del barcelona
son mas indios que los de Arizona !"

Manu Negra

Estranha sensação de liberdade esta em Barcelona.

A imaginação fervilha libertando bolhas coloridas num lago ladrilhado de pedrinhas de vidro e cacos de ceramica.

Os jardins das festas galantes e as festivas ruas que já foram medievais, as feiras e os mercados, pessoas e mar.

Que vontade de dar asas à criação e planar para sempre no prazer estético.
E planar sempre...